Economia sob Trump: tarifas, inflação e indústria em um ano

Economia Trump
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  • Economia sob Trump: tarifas, inflação e indústria em um ano

Destaques

  • Donald Trump prometeu “liberar a economia” em um ano usando tarifas, pagamentos diretos e pressões sobre o Federal Reserve.
  • Após ~1 ano, há sinais mistos: redução do déficit via queda de importações, mas inflação persistente e sem reindustrialização rápida.
  • Tarifas geraram receita, mas não compensaram cortes de impostos; dívida seguiu em alta e emprego industrial caiu.
  • Metas muito visíveis (gasolina a US$ 2/galão; eletricidade pela metade) não se concretizaram em escala nacional.
  • 2026 será definido por três testes: repasse de tarifas a preços, retomada de investimento industrial e arranjo fiscal com o Congresso.

Tempo de leitura estimado: 6 minutos

Nesta matéria

Trump disse que liberaria a economia em um ano: o que era promessa mensurável e o que virou disputa de narrativa

A campanha de 2024 apresentou um roteiro econômico com metas fáceis de comunicar e, em tese, verificáveis. Entre os objetivos declarados estavam:

  • “Acabar com a inflação” e reduzir preços de bens e serviços.
  • Gasolina abaixo de US$ 2 por galão e eletricidade pela metade em 12 a 18 meses.
  • Revitalizar a indústria automotiva e retornar a níveis “recorde” de produção.
  • Gerar “milhões” de empregos industriais e aumento de salários, por meio de tarifas e repatriação de cadeias.
  • Usar tarifas como fonte de receita — de centenas de bilhões a trilhões — e financiar pagamentos em dinheiro às famílias.

Ao avaliar o primeiro ano de governo é preciso diferenciar: (i) resultados macro observados; (ii) efeitos setoriais e distributivos; e (iii) mudanças institucionais e de incentivos. Muitas medidas anunciadas ainda são projetos em tramitação ou precedentes políticos mais do que resultados consolidados.

Inflação e preços: promessa de “fim” versus realidade de persistência e risco tarifário

Segundo síntese publicada pelo InfoMoney, Donald Trump prometeu “acabar com a inflação” e reduzir “os preços de todos os bens”. O balanço indica que, embora a inflação já tivesse desacelerado desde o pico de 2022, houve reaceleração após a posse. O material menciona o maior aumento mensal de preços de supermercado em dezembro (o maior desde 2022) e que, em 2025, a inflação subiu 2,7%, número próximo aos 2,9% do ano anterior.

“acabar com a inflação”

Dois pontos práticos:

  • A promessa de “acabar com a inflação” é mal definida: a âncora institucional nos EUA via Fed é cerca de 2% ao ano; atingir inflação muito baixa rapidamente costuma exigir custo real (recessão, desemprego) ou forte aperto monetário.
  • Tarifas funcionam como choque de custo para importados e insumos, o que tende a pressionar preços ao consumidor e a indústria no curto prazo.

Se as ferramentas centrais do Executivo se tornam tarifas e protecionismo, o combate à inflação fica mais dependente do Federal Reserve e menos “executável” pelo governo, criando tensão entre promessa política e eficácia técnica.

Gasolina e eletricidade: promessas de preços administráveis versus limites do mercado

A meta de colocar gasolina abaixo de US$ 2 por galão e reduzir eletricidade pela metade em 12–18 meses não se verificou de forma geral. O balanço aponta algum avanço na gasolina, mas sem confirmação de que a meta foi atingida, e indica que não houve redução significativa na conta de eletricidade.

Duas observações relevantes:

  • Preço de gasolina tem forte componente global (refino, estoques, risco geopolítico) — metas domésticas dependem de variáveis externas.
  • Eletricidade depende de infraestrutura, contratos e regulação local; cortar tarifas pela metade em 12–18 meses exigiria medidas extraordinárias ou custos fiscais elevados.

Quando o governo transforma preços visíveis em metas, cria pressão para intervenções pontuais — subsídios, liberação de reservas ou incentivos fiscais — que têm custo posterior ou distorcem decisões de longo prazo.

Indústria automotiva: o choque protecionista não reverte tendência estrutural em 12 meses

A promessa de revitalizar a indústria automotiva por meio de tarifas não se traduziu em retorno a produção “recorde”. O balanço indica que a produção de veículos segue em declínio desde os anos 1980, sem reversão no primeiro ano.

Ilustra a diferença entre proteção e competitividade: tarifas podem reprecificar o mercado interno, mas não geram automaticamente produtividade, cadeias de fornecedores ou tecnologia em poucos trimestres. Cadeias globais (peças, semicondutores, baterias) exigem tempo e investimento previsível.

Empregos industriais e salários: estabilidade inicial, depois queda — e o teste do investimento

A promessa de “milhões de empregos industriais” exige tempo e previsibilidade. O balanço aponta que o emprego industrial ficou inicialmente estável e depois teve oito meses consecutivos de queda; o crescimento salarial desacelerou e o investimento em fábricas recuou.

Consequências práticas:

  • Tarifa não é plano de investimento: investimento depende de custo de capital, energia, logística e qualificação; incerteza tarifária adia decisões.
  • Emprego industrial tende a responder tardiamente à demanda; se tarifas elevam preços e comprimem renda real, a demanda por bens pode cair.
  • Salários reais não sobem por decreto; se inflação resiste e alta nominal é contida, percepção pública é negativa.

Tarifas, arrecadação e dívida: receita existe, mas não “paga” a conta — e a conta política cresce

As tarifas geraram receita, mas não compensaram os efeitos fiscais de cortes de imposto e a dívida continuou subindo. O governo também anunciou propostas de pagamentos em dinheiro (por exemplo, cheques de até US$ 2.000 por pessoa para aliviar famílias), mecanismo que lembra cheques de estímulo anteriores, porém com justificativa política distinta.

“pagamentos em dinheiro”

Pontos institucionais:

  • Tarifa é imposto indireto: arrecadação sobre importações tende a ser repassada a consumidores e empresas.
  • Prometer “pagar a dívida” com tarifas é, na prática, contabilidade política; para ser verdade exigiria arrecadação extraordinária sem comprometer crescimento ou inflação.
  • Pagamentos em dinheiro têm efeito temporário sobre consumo e percepção e custo fiscal direto; se financiados por tarifas, o custo econômico permanece.

Déficit comercial e China: “algum avanço” que vem com trade-offs

Houve redução do déficit comercial com a China por queda acentuada das importações após tarifas. Isso pode ocorrer por substituição produtiva doméstica (cenário desejado) ou por contração das importações devido ao encarecimento e queda de demanda (cenário ambíguo).

Tarifas ampliam poder de barganha do país em negociações, mas elevam risco de retaliação e incerteza para cadeias que dependem de insumos importados.

Crescimento do PIB e “resiliência”: quando o macro não confirma o micro

As fontes citam crescimento de PIB de 2,1% em 2025 (projeção mencionada pelo Banco Mundial via reportagem da Veja), enquanto a retórica do governo falava em “explosão nunca vista”. Crescimento agregado moderado pode conviver com piora na percepção pública se itens do custo de vida — supermercado, energia — sobem.

Além disso, pacotes tarifários amplos criam volatilidade nos preços relativos, o que pode inibir investimento apesar de crescimento agregado.

Federal Reserve, juros e o teste da independência: promessa de “juros muito menores” como sinal político

A promessa de juros “muito menores” após mudança no Fed sinaliza tentativa de alinhar política monetária a objetivos políticos. A credibilidade do banco central é um ativo institucional; a percepção de politização pode aumentar prêmio exigido pelos mercados em títulos e elevar custo de financiamento do Tesouro.

Juros artificiais mais baixos com inflação persistente tendem a gerar correções futuras mais duras, sacrificando a coerência entre promessa de desinflação e desenho institucional.

Popularidade e economia: aprovação baixa como restrição política

As análises citadas mencionam aprovação econômica em cerca de 31% e aprovação geral em 40%. Popularidade reduzida aumenta o incentivo a medidas de impacto imediato e alta visibilidade (cheques, cortes pontuais, ações executivas) e reduz espaço para reformas estruturais que exigem negociação e tempo.

O balanço em uma frase: tarifas entregam alavanca política, mas não entregam — em um ano — o pacote prometido

Consolidando as fontes, o quadro no primeiro ano aponta:

  • Inflação: não “acabou”; persistiu e houve sinais de reaceleração em itens sensíveis.
  • Gasolina: algum avanço, sem confirmação de US$ 2/galão.
  • Eletricidade: sem cortes expressivos nacionais.
  • Automóveis: sem reversão estrutural na produção.
  • Emprego industrial: sem “milhões” de vagas; houve sequência de queda.
  • Tarifas e dívida: receita crescente, mas não suficiente para fechar contas após cortes fiscais; dívida segue em alta.
  • Déficit comercial: queda por redução de importações, com trade-offs econômicos.

O instrumento central — tarifas — tem baixa capacidade de entregar, em 12 meses, simultaneamente desinflação, barateamento de energia, reindustrialização e ganhos salariais. Na ausência dessas entregas, o governo tende a recorrer a transferências diretas e pressão por juros menores, com riscos fiscais e monetários.

O que observar em 2026: três testes que definem se a estratégia se sustenta

  1. Repasse de tarifas para preços: se o repasse aumentar, a promessa de custo de vida menor fica em conflito direto com a política comercial.
  2. Investimento industrial: sem retomada de investimento, a narrativa de reindustrialização perde sustentação.
  3. Arranjo fiscal e relação com o Congresso: atrasos ou medidas sem compensação fiscal elevam risco de deterioração orçamentária e de aumento de juros de longo prazo.

Em resumo, o primeiro ano indica que “liberar a economia” virou mais slogan do que resultado mensurável e que a estratégia depende de um equilíbrio instável entre protecionismo, estímulos e credibilidade monetária. O Portal Fio Diário acompanhará os dados e decisões seguintes.

Fontes e Referências

As análises e dados citados neste balanço foram baseados nas seguintes reportagens e documentos:

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Marco Antonio Costa

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