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Economia sob Trump: tarifas, inflação e indústria em um ano
Destaques
- Donald Trump prometeu “liberar a economia” em um ano usando tarifas, pagamentos diretos e pressões sobre o Federal Reserve.
- Após ~1 ano, há sinais mistos: redução do déficit via queda de importações, mas inflação persistente e sem reindustrialização rápida.
- Tarifas geraram receita, mas não compensaram cortes de impostos; dívida seguiu em alta e emprego industrial caiu.
- Metas muito visíveis (gasolina a US$ 2/galão; eletricidade pela metade) não se concretizaram em escala nacional.
- 2026 será definido por três testes: repasse de tarifas a preços, retomada de investimento industrial e arranjo fiscal com o Congresso.
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Nesta matéria
- Promessas de campanha e disputa de narrativa
- Inflação e preços
- Gasolina e eletricidade
- Indústria automotiva
- Empregos industriais e salários
- Tarifas, arrecadação e dívida
- Déficit comercial e China
- Crescimento do PIB e “resiliência”
- Federal Reserve, juros e independência
- Popularidade e economia
- O balanço em uma frase
- O que observar em 2026
- Fontes e Referências
Trump disse que liberaria a economia em um ano: o que era promessa mensurável e o que virou disputa de narrativa
A campanha de 2024 apresentou um roteiro econômico com metas fáceis de comunicar e, em tese, verificáveis. Entre os objetivos declarados estavam:
- “Acabar com a inflação” e reduzir preços de bens e serviços.
- Gasolina abaixo de US$ 2 por galão e eletricidade pela metade em 12 a 18 meses.
- Revitalizar a indústria automotiva e retornar a níveis “recorde” de produção.
- Gerar “milhões” de empregos industriais e aumento de salários, por meio de tarifas e repatriação de cadeias.
- Usar tarifas como fonte de receita — de centenas de bilhões a trilhões — e financiar pagamentos em dinheiro às famílias.
Ao avaliar o primeiro ano de governo é preciso diferenciar: (i) resultados macro observados; (ii) efeitos setoriais e distributivos; e (iii) mudanças institucionais e de incentivos. Muitas medidas anunciadas ainda são projetos em tramitação ou precedentes políticos mais do que resultados consolidados.
Inflação e preços: promessa de “fim” versus realidade de persistência e risco tarifário
Segundo síntese publicada pelo InfoMoney, Donald Trump prometeu “acabar com a inflação” e reduzir “os preços de todos os bens”. O balanço indica que, embora a inflação já tivesse desacelerado desde o pico de 2022, houve reaceleração após a posse. O material menciona o maior aumento mensal de preços de supermercado em dezembro (o maior desde 2022) e que, em 2025, a inflação subiu 2,7%, número próximo aos 2,9% do ano anterior.
“acabar com a inflação”
Dois pontos práticos:
- A promessa de “acabar com a inflação” é mal definida: a âncora institucional nos EUA via Fed é cerca de 2% ao ano; atingir inflação muito baixa rapidamente costuma exigir custo real (recessão, desemprego) ou forte aperto monetário.
- Tarifas funcionam como choque de custo para importados e insumos, o que tende a pressionar preços ao consumidor e a indústria no curto prazo.
Se as ferramentas centrais do Executivo se tornam tarifas e protecionismo, o combate à inflação fica mais dependente do Federal Reserve e menos “executável” pelo governo, criando tensão entre promessa política e eficácia técnica.
Gasolina e eletricidade: promessas de preços administráveis versus limites do mercado
A meta de colocar gasolina abaixo de US$ 2 por galão e reduzir eletricidade pela metade em 12–18 meses não se verificou de forma geral. O balanço aponta algum avanço na gasolina, mas sem confirmação de que a meta foi atingida, e indica que não houve redução significativa na conta de eletricidade.
Duas observações relevantes:
- Preço de gasolina tem forte componente global (refino, estoques, risco geopolítico) — metas domésticas dependem de variáveis externas.
- Eletricidade depende de infraestrutura, contratos e regulação local; cortar tarifas pela metade em 12–18 meses exigiria medidas extraordinárias ou custos fiscais elevados.
Quando o governo transforma preços visíveis em metas, cria pressão para intervenções pontuais — subsídios, liberação de reservas ou incentivos fiscais — que têm custo posterior ou distorcem decisões de longo prazo.
Indústria automotiva: o choque protecionista não reverte tendência estrutural em 12 meses
A promessa de revitalizar a indústria automotiva por meio de tarifas não se traduziu em retorno a produção “recorde”. O balanço indica que a produção de veículos segue em declínio desde os anos 1980, sem reversão no primeiro ano.
Ilustra a diferença entre proteção e competitividade: tarifas podem reprecificar o mercado interno, mas não geram automaticamente produtividade, cadeias de fornecedores ou tecnologia em poucos trimestres. Cadeias globais (peças, semicondutores, baterias) exigem tempo e investimento previsível.
Empregos industriais e salários: estabilidade inicial, depois queda — e o teste do investimento
A promessa de “milhões de empregos industriais” exige tempo e previsibilidade. O balanço aponta que o emprego industrial ficou inicialmente estável e depois teve oito meses consecutivos de queda; o crescimento salarial desacelerou e o investimento em fábricas recuou.
Consequências práticas:
- Tarifa não é plano de investimento: investimento depende de custo de capital, energia, logística e qualificação; incerteza tarifária adia decisões.
- Emprego industrial tende a responder tardiamente à demanda; se tarifas elevam preços e comprimem renda real, a demanda por bens pode cair.
- Salários reais não sobem por decreto; se inflação resiste e alta nominal é contida, percepção pública é negativa.
Tarifas, arrecadação e dívida: receita existe, mas não “paga” a conta — e a conta política cresce
As tarifas geraram receita, mas não compensaram os efeitos fiscais de cortes de imposto e a dívida continuou subindo. O governo também anunciou propostas de pagamentos em dinheiro (por exemplo, cheques de até US$ 2.000 por pessoa para aliviar famílias), mecanismo que lembra cheques de estímulo anteriores, porém com justificativa política distinta.
“pagamentos em dinheiro”
Pontos institucionais:
- Tarifa é imposto indireto: arrecadação sobre importações tende a ser repassada a consumidores e empresas.
- Prometer “pagar a dívida” com tarifas é, na prática, contabilidade política; para ser verdade exigiria arrecadação extraordinária sem comprometer crescimento ou inflação.
- Pagamentos em dinheiro têm efeito temporário sobre consumo e percepção e custo fiscal direto; se financiados por tarifas, o custo econômico permanece.
Déficit comercial e China: “algum avanço” que vem com trade-offs
Houve redução do déficit comercial com a China por queda acentuada das importações após tarifas. Isso pode ocorrer por substituição produtiva doméstica (cenário desejado) ou por contração das importações devido ao encarecimento e queda de demanda (cenário ambíguo).
Tarifas ampliam poder de barganha do país em negociações, mas elevam risco de retaliação e incerteza para cadeias que dependem de insumos importados.
Crescimento do PIB e “resiliência”: quando o macro não confirma o micro
As fontes citam crescimento de PIB de 2,1% em 2025 (projeção mencionada pelo Banco Mundial via reportagem da Veja), enquanto a retórica do governo falava em “explosão nunca vista”. Crescimento agregado moderado pode conviver com piora na percepção pública se itens do custo de vida — supermercado, energia — sobem.
Além disso, pacotes tarifários amplos criam volatilidade nos preços relativos, o que pode inibir investimento apesar de crescimento agregado.
Federal Reserve, juros e o teste da independência: promessa de “juros muito menores” como sinal político
A promessa de juros “muito menores” após mudança no Fed sinaliza tentativa de alinhar política monetária a objetivos políticos. A credibilidade do banco central é um ativo institucional; a percepção de politização pode aumentar prêmio exigido pelos mercados em títulos e elevar custo de financiamento do Tesouro.
Juros artificiais mais baixos com inflação persistente tendem a gerar correções futuras mais duras, sacrificando a coerência entre promessa de desinflação e desenho institucional.
Popularidade e economia: aprovação baixa como restrição política
As análises citadas mencionam aprovação econômica em cerca de 31% e aprovação geral em 40%. Popularidade reduzida aumenta o incentivo a medidas de impacto imediato e alta visibilidade (cheques, cortes pontuais, ações executivas) e reduz espaço para reformas estruturais que exigem negociação e tempo.
O balanço em uma frase: tarifas entregam alavanca política, mas não entregam — em um ano — o pacote prometido
Consolidando as fontes, o quadro no primeiro ano aponta:
- Inflação: não “acabou”; persistiu e houve sinais de reaceleração em itens sensíveis.
- Gasolina: algum avanço, sem confirmação de US$ 2/galão.
- Eletricidade: sem cortes expressivos nacionais.
- Automóveis: sem reversão estrutural na produção.
- Emprego industrial: sem “milhões” de vagas; houve sequência de queda.
- Tarifas e dívida: receita crescente, mas não suficiente para fechar contas após cortes fiscais; dívida segue em alta.
- Déficit comercial: queda por redução de importações, com trade-offs econômicos.
O instrumento central — tarifas — tem baixa capacidade de entregar, em 12 meses, simultaneamente desinflação, barateamento de energia, reindustrialização e ganhos salariais. Na ausência dessas entregas, o governo tende a recorrer a transferências diretas e pressão por juros menores, com riscos fiscais e monetários.
O que observar em 2026: três testes que definem se a estratégia se sustenta
- Repasse de tarifas para preços: se o repasse aumentar, a promessa de custo de vida menor fica em conflito direto com a política comercial.
- Investimento industrial: sem retomada de investimento, a narrativa de reindustrialização perde sustentação.
- Arranjo fiscal e relação com o Congresso: atrasos ou medidas sem compensação fiscal elevam risco de deterioração orçamentária e de aumento de juros de longo prazo.
Em resumo, o primeiro ano indica que “liberar a economia” virou mais slogan do que resultado mensurável e que a estratégia depende de um equilíbrio instável entre protecionismo, estímulos e credibilidade monetária. O Portal Fio Diário acompanhará os dados e decisões seguintes.
Fontes e Referências
As análises e dados citados neste balanço foram baseados nas seguintes reportagens e documentos:
- reportagem do InfoMoney sobre o balanço do primeiro ano
- reportagem da Veja sobre defesa de resultados e comentários sobre o Fed
- reportagem do InfoMoney sobre propostas de pagamentos em dinheiro
- reportagem da CNN Portugal sobre críticas a medidas tarifárias iniciais
- vídeo no YouTube citado nas referências
- vídeo no YouTube citado nas referências (trecho adicional)




