Destaques
- O Brasil vai a Milano Cortina 2026 com a maior delegação da sua história no inverno: 15 atletas (ou 14 + 1 reserva).
- A ampliação da equipe é resultado de estratégia de longo prazo, com atletas treinando no exterior e foco em modalidades com entrada mais factível.
- O esqui alpino, com Lucas Pinheiro, vira a maior aposta de performance; skeleton e bobsled podem justificar investimentos maiores se houver retorno.
- Delegação maior eleva a cobrança por resultados mensuráveis e obriga definição de prioridades e transparência na distribuição de recursos.
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Contexto e estratégia
O Brasil confirmou a maior delegação de sua história para uma Olimpíada de Inverno: 15 atletas (ou 14 + 1 reserva, dependendo do critério de contagem) em Milano Cortina 2026, superando o recorde anterior de Sochi 2014. Mais que o número em si, o que importa é onde o país conseguiu vagas e como essas vagas foram construídas.
A expansão — de 10 atletas em Pequim 2022 para 15 em 2026, um salto de cerca de 40% — reflete eficiência em um aspecto decisivo nos esportes de inverno: percorrer o caminho longo até os índices, pontuando nos circuitos certos durante janelas de qualificação que exigem logística e calendário caros.
Na prática, delegações maiores costumam resultar da combinação de três movimentos:
- Atletas-base no exterior: treinamentos na Europa ou América do Norte reduzem o custo de manter infraestrutura no Brasil.
- Foco em modalidades com porta de entrada mais realista: planejamento, ranking e consistência permitem mais classificações.
- Governança dividida e coordenação: a articulação entre confederações (neve e gelo) e o COB se mostra capaz de viabilizar mais vagas.
Onde o Brasil realmente pode “ganhar” (e onde é só presença)
A estratégia de distribuir recursos por até sete modalidades reduz o risco de um ciclo inteiro depender de um único nome. Ao mesmo tempo, diluição pode significar menos concentração de investimento por modalidade. É preciso distinguir a presença simbólica da chance concreta de superar marcas históricas.
Esqui alpino: o centro do projeto (e do potencial)
Lucas Pinheiro é o nome que eleva a expectativa: resultados de impacto no circuito — como o 2º lugar em etapa de Copa do Mundo em Wengen — fazem do alpino a modalidade com maior cobrança por performance. Além dele, classificaram-se Alice Padilha (18 anos), Giovanni Ongaro e Christian Oliveira. O retorno feminino no alpino após um hiato amplia a possibilidade de continuidade no ciclo seguinte.
O que muda na prática: o esqui alpino deixa de ser “classificar já é vitória” e passa a ser uma aposta por colocações históricas, com expectativa de visibilidade e resultados competitivos.
Cross-country: consistência como política
O Brasil vai com Manex Silva, Bruna Moura e Eduarda Ribera (esta em sua 7ª participação consecutiva). Cross-country exige regularidade e construção de projeto de longa duração em ambiente dominado por países com tradição na modalidade.
O que muda na prática: a modalidade garante presença constante do Brasil nos Jogos e sustenta o discurso de desenvolvimento, mesmo sem prometer manchetes de pódio imediatas.
Snowboard halfpipe: retorno com peso de marketing (e risco esportivo)
O retorno do snowboard halfpipe masculino, com Augustinho Teixeira e Pat Burgener, traz apelo visual e potencial de engajamento para o público jovem. É uma modalidade com alto poder de atração de imagem, mas com margem de erro pequena: uma queda elimina o atleta da final e interrompe a narrativa.
O que muda na prática: crescimento do potencial de audiência e patrocínio, enquanto o retorno esportivo permanece incerto no curto prazo.
Skeleton: caso isolado que pode virar ativo estratégico
A presença de Nicole Silveira, nomeada pelo COB, é um exemplo de atleta capaz de concentrar atenção em uma modalidade do gelo que exige estrutura, mas pode justificar investimento pela visibilidade que um bom resultado traz.
O que muda na prática: um resultado expressivo em skeleton pode abrir precedentes para alocação de recursos em trenós, apesar do alto custo.
Bobsled: o custo invisível e a dependência do “time certo”
No bobsled 4-man, liderado por Edson Bindilatti, as autoridades apontam titulares ainda pendentes e a presença de reserva. Bobsled exige conjunto, sincronia e equipamento adequado — fatores que tornam a execução mais sensível a falhas de logística e definição de equipe.
O que muda na prática: é a modalidade em que a delegação recorde pode evidenciar fragilidades operacionais. Sem titularidade bem definida e preparação apurada, o custo do fracasso é alto.
Quem ganha com o recorde — e quem passa a ser cobrado
O aumento da delegação altera distribuição de poder, narrativa e cobrança.
Quem ganha poder e dinheiro
- COB: delegação maior fortalece a narrativa de expansão e facilita prestação de contas do ciclo.
- CBDN e CBDG: mais atletas classificados são argumento direto para captação de patrocínio e manutenção de projetos.
- Atletas com calendário internacional ganham visibilidade, capacidade de negociação e convites para programas de treinos.
Quem perde margem para desculpas
- Gestores: a conversa sai do “somos poucos” para “estamos evoluindo?”, exigindo metas e indicadores claros.
- Modalidades de alto custo com baixo retorno: passam a ser comparadas internamente e podem perder prioridade se não justificarem investimento.
O que observar no calendário
Algumas datas destacadas pelo COB (horário de Brasília) funcionam como provas de conceito do ciclo:
- Slalom masculino: 16/02
- Slalom feminino: 18/02
- Bobsled 4-man: 21-22/02
Esses eventos servirão para avaliar tanto a performance individual (alpino) quanto a capacidade de gestão de equipe e equipamento (bobsled).
Conclusão: recorde é meio, não fim
A delegação recorde não é sinônimo de medalha nem de evolução técnica automática. O aumento do contingente muda o patamar de cobrança: o Brasil terá de provar que constrói um caminho repetível, que não dependa de talentos isolados a cada quatro anos.
O próximo passo necessário é transparência: definir quais modalidades são prioridade, estabelecer metas de performance por ciclo e explicar como os recursos são distribuídos entre neve e gelo. Sem isso, o recorde corre o risco de ser apenas uma foto bonita e um aprendizado caro.
Dois termômetros imediatos a acompanhar: a manutenção da fase de Lucas Pinheiro no circuito e a definição operacional do bobsled (titulares, treinos e execução). É nessas frentes que o “maior time da história” mostrará se estamos diante de crescimento sustentado ou de um pico estatístico.
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Perguntas Frequentes
- Por que há variação entre “15 atletas” e “14 + 1 reserva”?
- Alguns critérios de contagem separam reservas da delegação titular; por isso algumas contagens reportam 14 atletas mais um reserva, enquanto outras somam todos na lista final, chegando a 15.
- Isso significa que o Brasil terá medalhas em 2026?
- Não necessariamente. Maior delegação aumenta chances estatísticas e cobertura, mas medalhas dependem de performance em dia de competição, preparação específica e margem de erro reduzida nas modalidades de inverno.
- Quais são os indicadores que vão provar que o projeto evoluiu?
- Colocações em finais, presença consistente no top‑30/top‑20 das provas, manutenção de atletas em programas internacionais e clareza nas metas e investimentos por ciclo.
Fontes: nota do COB sobre a delegação, reportagens e levantamentos de veículos especializados e apurações locais (CNN Brasil, Superinteressante, Exame e Rede Fonte News).
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