Governo Federal tem déficit primário em 2025

Déficit
Ricardo Stuckert/PR
Déficit primário de 2025 expõe pressão dos juros sobre a dívida
  • Déficit primário de R$ 55,021 bilhões em 2025 (0,43% do PIB) indica ajuste incompleto e maior necessidade de financiamento.
  • Resultado nominal foi de R$ 1,06 trilhão (8,34% do PIB), mostrando impacto relevante dos juros sobre a dívida.
  • O problema fiscal permanece concentrado no governo central, enquanto estados e municípios registraram superávit.
  • Ganhos financeiros (swaps cambiais) reduziram parte do impacto nominal, sem representar melhora estrutural.

Tempo de leitura estimado: 6 minutos

Contexto e resultado de 2025

O déficit primário no setor público em 2025 somou R$ 55,021 bilhões (valor arredondado de R$ 55 bilhões), equivalente a 0,43% do PIB, segundo números divulgados pelo Banco Central em 30 de janeiro de 2026. O dado mostra que, embora tenha havido melhora relevante desde o rombo de 2023, o Estado brasileiro ainda não voltou a gerar superávit primário suficiente.

Isso importa menos pelo simbolismo e mais pelo que implica: maior necessidade de financiamento, maior sensibilidade da dívida aos juros e menor margem de manobra para políticas públicas sem aumento de carga tributária ou corte de gastos.

Resultado primário e nominal

O que o primário mede

O resultado primário é a diferença entre receitas e despesas não financeiras, sem considerar os juros. Em 2025, o setor público consolidado — incluindo governo central (União), Estados, municípios e empresas estatais (excluídas Petrobras e Eletrobras) — fechou com déficit primário de 0,43% do PIB. Em 2024, o rombo havia sido 0,40% do PIB (R$ 47,553 bilhões).

Resultado nominal e o papel dos juros

O resultado nominal, que inclui juros, terminou 2025 com déficit de R$ 1,06 trilhão, ou 8,34% do PIB. Em 2024, o nominal fora R$ 998 bilhões (8,47% do PIB). Esse número explica por que um ajuste apenas no primário pode ser insuficiente quando a conta de juros permanece elevada.

Composição por níveis de governo

A decomposição do resultado em 2025 revela assimetrias entre os níveis de governo:

  • Governo central: déficit de R$ 58,687 bilhões (0,46% do PIB).
  • Estados e municípios: superávit de R$ 9,537 bilhões (0,07% do PIB).
    • Estados: superávit de R$ 5,453 bilhões (0,04% do PIB).
    • Municípios: superávit de R$ 4,084 bilhões (0,03% do PIB).
  • Empresas estatais: déficit de R$ 5,871 bilhões (0,05% do PIB).

A conclusão institucional é clara: o problema fiscal permanece concentrado no governo central, onde estão as maiores rubricas de gasto obrigatório e as políticas com impacto sistêmico. Estados e municípios atuaram como amortecedores do consolidado, mas isso não garante solução sustentável caso a União continue deficitária e pressione por transferências.

Por que “menor déficit desde 2023” não resolve

Houve melhora desde 2023, quando o déficit primário foi de R$ 249,123 bilhões (2,28% do PIB). Em 2024 caiu para R$ 47,553 bilhões (0,40%) e em 2025 ficou em R$ 55 bilhões (0,43%). Porém, títulos e mercados avaliam não só o nível atual, mas a persistência do primário, o custo médio da dívida e a credibilidade do arcabouço fiscal.

Déficits pequenos e recorrentes se acumulam; com juros elevados, o buraco nominal pode crescer mesmo com melhoria no primário; e a percepção de risco afeta o prêmio exigido pelos investidores.

Déficit nominal e impacto dos ganhos em swaps

O déficit nominal de R$ 1,06 trilhão em 2025 (8,34% do PIB) mostra a necessidade efetiva de financiamento. Parte desse resultado foi afetada por ganhos em swaps cambiais de cerca de R$ 105,9 bilhões em 2025 (ante perdas em 2024). Ganhos financeiros podem melhorar a “fotografia” do resultado sem representar melhora estrutural do orçamento primário.

Para a política fiscal, o risco é usar efeitos não recorrentes como argumento de normalização, sem atacar rigidez de gastos e imprevisibilidade de receitas.

Dezembro: superávit mensal e sinalizações

Em dezembro de 2025 houve superávit primário de R$ 6,251 bilhões, acima da mediana de projeções citada em reportagens (R$ 4,45 bilhões). A composição mensal foi:

  • Governo central: +R$ 21,572 bilhões.
  • Estados e municípios: -R$ 19,783 bilhões (Estados: -R$ 16,743 bilhões; municípios: +R$ 3,041 milhões).
  • Estatais: +R$ 4,463 bilhões.

Embora útil para observar sazonalidade e execução, um mês positivo não altera a restrição orçamentária anual. Em dezembro também houve déficit nominal de R$ 115,5 bilhões, pior que dezembro de 2024 (R$ 80,4 bilhões), evidenciando que a conta de juros pode impor custos pesados mesmo quando o primário melhora pontualmente.

Dívida bruta em 78,7% do PIB

A dívida bruta do governo geral fechou 2025 em 78,7% do PIB, abaixo de expectativas de 79,5%. No curto prazo, isso reduz o alarmismo, mas não garante tendência sustentável se o primário permanecer deficitário e os juros altos persistirem.

Fatores conjunturais — crescimento nominal do PIB, inflação, composição do endividamento e efeitos financeiros — podem melhorar a métrica temporariamente sem consolidar finanças públicas.

Implicações práticas

O resultado de 2025 traz várias implicações operacionais para 2026:

1) Menor margem para expansão de gasto sem aumento de impostos

Com déficit, o governo precisa tomar mais recursos emprestados. Ampliar programas ou investimentos sem cortar despesas obrigatórias implica buscar aumento de receita, o que desloca a disputa para decisões institucionais sobre quem e como paga.

2) Qualidade do ajuste importa mais que o número

O mercado tende a avaliar a qualidade do ajuste (se é estrutural ou não recorrente). Sem transparência sobre medidas permanentes, o custo de financiamento pode permanecer sensível a ruídos políticos.

3) Federação volta ao centro das negociações

Com Estados e municípios em superávit, aumenta o potencial de disputas federativas por transferências, compensações e renegociações, o que pode transformar superávit subnacional em variável de barganha.

4) Estatais como riscos fiscais marginais e recorrentes

O déficit das estatais não define o resultado agregado, mas mostra que elas podem ser instrumento de política fora do orçamento tradicional, criando tensões entre objetivos empresariais e fiscais.

Credibilidade fiscal em 2026

O resultado ficou próximo à mediana das projeções de mercado (R$ 56,2 bilhões), reduzindo o risco de surpresa no curto prazo. Ainda assim, credibilidade depende de capacidade de manter trajetória, consistência entre discurso e execução, governança do orçamento e disposição política para medidas necessárias.

Em um país com alto custo de dívida, credibilidade fiscal funciona como ativo econômico: reduz prêmios de risco, facilita rolagem e abre espaço para juros mais baixos no médio prazo.

Debates e incentivos

A diferença entre primário (0,43% do PIB) e nominal (8,34% do PIB) revela um dilema: mesmo com gasto não financeiro próximo do equilíbrio, juros podem dominar o resultado agregado. Isso cria dois incentivos políticos conflitantes:

  • Uso retórico do primário menor para sustentar controle.
  • Expansão com justificativas financeiras, recorrendo a efeitos contábeis ou operações pontuais.

O risco institucional é permanecer em um “meio-termo permanente”: déficits primários pequenos, porém persistentes; dívida estabilizada apenas em janelas favoráveis; e juros elevados por percepção de risco e rigidez do gasto.

Indicadores a observar nos próximos meses

Para que o resultado de 2025 seja interpretado com seriedade, algumas decisões e indicadores são determinantes:

  • Execução do orçamento de 2026: contingenciamentos, bloqueios e recomposição de despesas.
  • Evolução de receitas: medidas permanentes versus arrecadações pontuais.
  • Dinâmica dos gastos obrigatórios: indexações, benefícios, folha e despesas previdenciárias.
  • Política de crédito e subsídios: impactos indiretos e passivos contingentes.
  • Trajetória de juros e inflação: deterioração fiscal tende a elevar prêmio e dificultar queda sustentada de juros.

O equilíbrio primário define quanto do orçamento futuro ficará comprometido com juros e quanta liberdade o país terá para investir, reduzir impostos ou enfrentar crises sem improvisação.

Fontes e Referências

O resultado de 2025 coloca o Brasil numa zona intermediária: longe do descontrole de 2023, mas ainda sem superávit primário consistente para ancorar a dívida em ambiente de juros elevados. Metas fiscais factíveis, execução orçamentária transparente e decisões sobre despesas obrigatórias e arrecadação serão determinantes para saber se 2025 foi estabilização ou apenas uma pausa antes de nova pressão sobre o financiamento do Estado. Os leitores podem comentar, compartilhar este conteúdo e assinar a newsletter do Portal Fio Diário.

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Marco Antonio Costa

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