Turismo no Brasil bate recorde em 2025 e pressiona infraestrutura
Destaques
- Brasil registrou 9.287.196 turistas internacionais em 2025, maior volume da série histórica.
- Crescimento de 37,1% em relação a 2024; meta do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024–2027 foi superada antecipadamente.
- Concentração em hubs como São Paulo e Rio de Janeiro intensifica pressão sobre aeroportos e serviços locais.
- Projeções para o verão 2025/2026 variam (estimativas de R$ 218,77 bilhões e R$ 64 bilhões), mas dependem de câmbio, conectividade e segurança.
- Debate passa de comemoração para governança: infraestrutura, coordenação federativa e previsibilidade regulatória.
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Turismo no Brasil: dados e estatísticas de 2025 e o que eles significam (além do recorde)
O Brasil recebeu 9.287.196 turistas internacionais em 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério do Turismo. O volume representou avanço de 37,1% em relação a 2024 e antecipou a meta estabelecida pelo PNT 2024–2027, que previa 6,9 milhões de visitantes no período.
Embora o número seja um indicador positivo de demanda, a leitura institucional é mais complexa: aumento de fluxo implica pressão sobre infraestrutura pública, serviços urbanos e capacidade de atendimento local. Em outras palavras, o recorde é um sinal de demanda; a entrega depende de governança.
Recorde de estrangeiros: quem entrou no Brasil e por onde
A concentração logística é um ponto central para a compreensão do impacto operacional do recorde. As principais unidades da Federação que receberam turistas internacionais em 2025 foram:
- São Paulo: 2.753.869 visitantes internacionais
- Rio de Janeiro: 2.196.443
- Rio Grande do Sul: 1.535.806
Essa configuração reforça o papel de hubs e destinos âncora: onde o fluxo é maior, o custo de falha (filas, congestionamentos, perda de conectividade) também é maior, com impacto reputacional imediato.
Mercados emissores: dependência regional e risco de concentração
Até outubro de 2025, os mercados emissores líderes foram:
- Argentina: 2,94 milhões
- Chile: 662 mil
- Estados Unidos: 614 mil
Do ponto de vista de política pública, esses números destacam dois pontos: (1) o peso da vizinhança sul-americana, que aumenta sensibilidade a câmbio e choques regionais; (2) o desafio de diversificação para mercados com maior gasto médio, que exige conectividade aérea e previsibilidade regulatória.
Atividade econômica: faturamento vs. ganho líquido
Dados do IBGE indicam crescimento do setor de turismo de aproximadamente 6% entre janeiro e agosto de 2025, com impulso de transporte aéreo, hospedagem, alimentação e reservas online. Ainda assim, faturamento não é sinônimo de ganho líquido para a economia. Devem ser consideradas:
- custos de infraestrutura e manutenção urbana;
- pressão sobre serviços de saúde e segurança pública em picos sazonais;
- investimentos privados dependentes de crédito e estabilidade;
- efeitos de substituição do consumo doméstico.
Governos enfrentam o dilema de celebrar crescimento sem assumir despesas permanentes que atendam picos temporários.
Projeções para a alta temporada de verão 2025/2026
As estimativas para dezembro/2025 a fevereiro/2026 variam conforme metodologia: uma projeção cita R$ 218,77 bilhões, enquanto outra aponta cerca de R$ 64 bilhões. Projeções funcionam como expectativas de mercado e influenciam decisões reais (contratações temporárias, oferta aérea, preços), mas são condicionais a fatores como câmbio, renda, passagens e eventos climáticos.
O que explica o salto de 2025: incentivos econômicos e logística
O avanço observado em 2025 é explicado mais por incentivos concretos do que por slogans promocionais. Entre os fatores citados estão:
- Câmbio e competitividade relativa do destino;
- Oferta aérea e conectividade, com mais assentos e rotas;
- Normalização pós-pandemia e recomposição de hábitos de viagem;
- melhora no mercado doméstico de consumo e emprego em parte de 2025.
Promoção internacional ajuda na margem; a infraestrutura determina o teto.
Destinos mais buscados no verão: pressão urbana e risco de “crescimento desordenado”
Entre os destinos mais procurados para o verão aparecem Recife, Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. A sazonalidade cria o dilema clássico: dimensionar capacidade para picos implica potencial ociosidade no resto do ano, a menos que haja políticas para reduzir sazonalidade (eventos, turismo de negócios).
Duas alternativas práticas:
- Gestão inteligente do pico (contratos temporários, reforço de transporte e coordenação operacional).
- Expansão permanente de gasto, com risco de desequilíbrio fiscal quando o fluxo retorna ao normal.
A pergunta central é quem paga: visitante, investidores privados ou o contribuinte local?
Impactos federativos: quem ganha e quem paga a conta do turismo em expansão
O turismo exige coordenação entre entes federativos. Em geral:
- Municípios assumem limpeza urbana, trânsito, ordenamento, saúde de urgência e fiscalização;
- Estados respondem por policiamento, rodovias e parte da mobilidade;
- União atua em política setorial, promoção internacional, regulação e investimentos em aeroportos via concessões ou estatais.
Sem mecanismos claros de cooperação e redistribuição, o custo imediato recai sobre cidades turísticas enquanto parte da arrecadação federal e estadual não retorna na mesma proporção.
Risco regulatório e previsibilidade: o que o setor privado observa
Hotéis, companhias aéreas e operadores tomam decisões com horizonte de médio prazo. Para transformar demanda em investimento permanente, o setor exige:
- segurança jurídica em concessões e licenças;
- estabilidade tributária ou previsibilidade fiscal;
- clareza regulatória para plataformas e economia digital;
- qualidade dos serviços públicos essenciais nos destinos.
Sem previsibilidade institucional, crescimento de demanda pode não se converter em oferta sustentável e competitiva.
O que muda para a política pública após bater a meta do PNT
Superar a meta do PNT antes do prazo exige ajustes de governança. Três escolhas principais:
- Recalibrar metas para refletir a nova realidade;
- Redirecionar foco para qualidade (gasto por turista, permanência média, dispersão regional);
- Fortalecer métricas de capacidade (tempo de processamento em aeroportos, indicadores de segurança e saneamento).
Sem métricas de capacidade, o recorde pode ser estatisticamente verdadeiro e institucionalmente frágil.
2026 no radar: oportunidades e condições para sustentar o ciclo
Para transformar o recorde de 2025 em tendência, o país precisa:
- manter conectividade aérea e reduzir gargalos logísticos;
- assegurar padrão mínimo de segurança e ordenamento;
- evitar expansão fiscal permanente para atender sazonalidade;
- melhorar coordenação federativa e previsibilidade regulatória.
O turismo pode gerar tração rápida em serviços e emprego, mas cobra em troca investimentos em infraestrutura, governança e previsibilidade.
Fontes e Referências
- reportagem do Hotelier News sobre salto histórico no verão 25/26
- reportagem da Panrotas sobre o melhor ano da história no turismo
- reportagem da Panrotas sobre projeção da CNC para a alta temporada
- nota oficial do Ministério do Turismo
- matéria do Diário do Turismo com dados do IBGE
- nota da Secom sobre destaque do Brasil segundo a ONU Turismo
- reportagem da Agência Brasil (EBC) sobre relatório da ONU
- coluna da Veja sobre origem dos turistas
- reportagem do DM sobre impacto econômico em Goiás
Perguntas Frequentes
R: Não automaticamente. Sustentabilidade depende de capacidade de atendimento (aeroportos, segurança, saneamento), previsibilidade regulatória e de modelos de financiamento que evitem transformar sazonalidade em despesa permanente.
R: Na prática, custos de limpeza urbana, saúde e ordenamento recaem sobre municípios; estados respondem por policiamento e mobilidade; a União participa via política setorial e investimentos em infraestrutura. A assimetria entre arrecadação e gasto demanda mecanismos de cooperação e redistribuição.
R: Projeções são cenários condicionais que influenciam decisões de mercado, mas não substituem dados consolidados. Devem ser usadas para planejamento, considerando variáveis como câmbio, passagens, clima e eventos imprevistos.
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