Caso Banco Master expõe falhas na fiscalização do Banco Central

Banco Central
Agência Brasil
Caso Banco Master expõe falhas na fiscalização do Banco Central

Destaques

  • Liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025 expôs falhas na cadeia de fiscalização entre reguladores, auditorias e controles internos.
  • Problemas apontados: suspeitas de títulos falsos, supervalorização de ativos, controles internos fracos e limitação de auditoria em janelas curtas.
  • Debate central: ampliar poderes do Banco Central ou reforçar coordenação com a CVM e responsabilização de auditorias independentes.
  • Risco de reação regulatória que eleve custo de conformidade sem resolver capacidade operacional e coordenação.

Tempo de leitura estimado: 8 minutos

Nesta matéria

Fragilidade do sistema de fiscalização do Banco Central do Brasil: por que o caso Master importa mesmo sendo “pequeno”

A relevância institucional do caso Banco Master não está no seu peso relativo — estimado em cerca de 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional — mas em seu caráter de teste de estresse ao modelo de supervisão. Três razões principais explicam por que um caso de “baixo impacto” gera debate intenso:

Assimetria de atenção regulatória

Grandes bancos recebem supervisão contínua e equipes dedicadas; instituições médias e pequenas podem operar em zonas de menor visibilidade, onde estratégias de contorno passam despercebidas, ampliando o risco sistêmico quando essas estratégias se expandem.

Interdependência entre reguladores

Fundos, estruturas de distribuição, previdência e crédito estruturado exigem coordenação entre BC, CVM, Previc e outros órgãos. Falhas de coordenação criam lacunas exploráveis.

Custo reputacional e político da liquidação

A liquidação extrajudicial é uma medida extrema. Quando utilizada, pressiona politicamente o regulador e estimula demandas por blindagem técnica e mudanças institucionais.

O que se sabe, com base em relatos públicos, sobre a liquidação do Banco Master

Relatos públicos indicam que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025. O caso envolveu alegações de fraudes e distorções contábeis — incluindo supostos títulos falsos, supervalorização de ativos e operações com créditos descritos como “insubsistentes” — e investigação com participação da Polícia Federal, segundo reportagens.
Também foi noticiado que o banco captava recursos por meio de CDBs com retornos acima da média e distribuía produtos fora do circuito dos grandes bancos, o que ampliou sua capacidade de atração de investidores e dificultou a leitura de risco por parte do público.

Nota de prudência editorial: as informações acima derivam de reportagens e análises de imprensa. Em fontes abertas, reportagens podem indicar linhas de apuração e alegações, mas não substituem documentos oficiais completos do processo administrativo de liquidação, relatórios de fiscalização ou decisões judiciais que detalhem responsabilidades.

Onde o sistema de fiscalização falha na prática: quatro pontos expostos pelo caso

A leitura institucional do episódio sugere pelo menos quatro fragilidades estruturais que merecem atenção.

1) Supervisão limitada por recursos humanos

Uma crítica recorrente é a insuficiência de pessoal para fiscalizar um mercado complexo. Reportagens apontam que a CVM teria cerca de 500 funcionários para fiscalizar R$ 16,7 trilhões em ativos, quadro incompatível com supervisão intensiva e granular. A criação formal de estruturas não resolve o problema se não vier acompanhada de orçamento, contratações e qualificação técnica.
A resposta institucional anunciada incluiu, em janeiro de 2026, a criação de novas superintendências e cargos na CVM, mas resta avaliar se isso se traduzirá em capacidade operacional efetiva.

2) Coordenação BC–CVM: o problema clássico da fronteira regulatória

O debate sobre ampliar o papel do Banco Central na fiscalização de fundos foi reacendido, com posições públicas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, indicadas nas reportagens. A ampliação de competência pode reduzir arbitragem regulatória, mas exige recursos e processos concretos de integração; sem isso, o ganho permanece simbólico.

3) Dependência de auditorias independentes

Alegações de que auditorias externas validaram balanços com ativos posteriormente contestados, se confirmadas, abalam a confiança no sistema. Auditorias funcionam como terceira linha de defesa e, quando falham, elevam o custo de captação e o prêmio de risco no mercado.
Há também limitação operacional relatada: verificações trimestrais não captam “giros rápidos” de recursos em janelas mensais, intervalo explorado por esquemas que usam circularidade e reclassificações de curto prazo.

4) Governança e controle interno

Relatos descrevem governança frágil, omissões deliberadas e opacidade. O regulador não substitui a governança cotidiana; quando esta falha, o banco pode operar como “fábrica de passivos”, ampliando risco e exigindo respostas regulatórias que penalizam todo o setor.

O problema do “baixo impacto sistêmico”: por que o custo pode ser alto mesmo em casos pequenos

Mesmo representando 0,57% dos ativos do SFN, o caso pode gerar custo agregado significativo por três canais: impacto sobre mecanismos de garantia (como o FGC), custo político-regulatório de novas obrigações e custo reputacional que eleva o prêmio de risco.

O que o Banco Central diz que faz — e onde ficam os limites práticos

O Banco Central descreve seu papel como monitoramento contínuo de riscos à estabilidade financeira, com uso de indicadores prudenciais e monitoramento de liquidez, solvência e interconexões. Na prática, os limites residem na qualidade e tempestividade dos dados, capacidade analítica e de campo e integração com outros reguladores quando instrumentos de risco migram entre perímetros.

Respostas em discussão: mais poder ao BC resolve ou apenas transfere responsabilidade?

Três modelos estão em debate:
  • Expansão de competência do BC: melhora coordenação se vier com orçamento e pessoal; caso contrário, aumenta risco reputacional do BC.
  • Reforço da CVM e integração operacional: ganhos reais dependem de dados compartilhados, protocolos de supervisão conjunta e gatilhos objetivos de intervenção.
  • Aprimoramento das obrigações privadas (auditorias, governança): pode reduzir carga estatal quando bem calibrado, mas eleva custos para instituições menores.
A reforma eficaz tende a ser menos visível politicamente e mais focada em processos, dados, pessoal e coordenação.

Fraudes digitais e Pix: por que o tema aparece na discussão

A menção à Resolução BC nº 507/2025 e ao “Novo Manual de Penalidades do Pix” integra o debate porque mostra que normas existem, mas a eficácia depende de detecção rápida e capacidade operacional das instituições para bloquear fraudes e identificar contas laranjas.
O paralelo com o caso Master é a mesma fragilidade: desenho regulatório atualizado no papel contrasta com capacidade operacional limitada na prática.

O risco de respostas erradas: quando o Estado “reage” e piora o ambiente de negócios

Reações típicas incluem ampliação administrativa, novos cargos e regras mais duras de forma generalizada. Efeitos colaterais possíveis:
  • Aumento de custo para instituições regulares, reduzindo competição e elevando o preço do crédito.
  • Falsa sensação de controle se o problema real for capacidade investigativa e supervisão em tempo hábil.
Uma agenda eficiente combina supervisão baseada em risco, interoperabilidade de dados, auditoria com accountability real e reforço de quadros técnicos com avaliação de efetividade.

Precedentes e accountability: quem perde e quem ganha no pós-Master

Forças reorganizam-se em três níveis:
  • Banco Central: pressão por mais atribuições e recursos, mas maior exposição política.
  • CVM e demais supervisores: justificativa para expansão estrutural mas cobrança por resultados mensuráveis.
  • Mercado: potencial para ambiente mais robusto ou custo regulatório maior e insegurança se a resposta for pouco calibrada.
O teste decisivo será a transparência institucional sobre falhas identificadas, controles que não funcionaram, medidas previstas e prazos cumpridos.

O que observar daqui para frente

Sinais objetivos a acompanhar:
  1. Medidas formais de integração BC–CVM: acordos operacionais e protocolos de ação conjunta.
  2. Reforço efetivo de quadros: contratações e capacitação, não apenas criação de cargos.
  3. Mudanças em exigências de auditoria e reporte para bancos pequenos e médios: periodicidade, escopo e responsabilização.
  4. Evolução das apurações e responsabilizações de gestores e agentes, conforme decisões oficiais sejam divulgadas.
  5. Impacto sobre o FGC e precificação de risco: custo de captação e seletividade em produtos com retorno acima da média.
A lição institucional é clara: arcabouço regulatório sofisticado só funciona se a capacidade estatal e privada de execução acompanhar.

Fontes e Referências

Perguntas Frequentes

O que motivou a liquidação do Banco Master?
Relatos públicos indicam suspeitas de fraudes contábeis, supostos títulos inexistentes, supervalorização de ativos e créditos insubsistentes. Apurações oficiais e decisões administrativas detalharão causas e responsabilidades.
O caso exige mudança legal imediata?
O caso pressiona por reformas, mas o desafio prático é equilibrar alterações legais com reforço da capacidade operacional, coordenação entre órgãos e responsabilização de auditorias, evitando respostas que elevem custo sem aumentar efetividade.
Como acompanhar os desdobramentos?
Acompanhe medidas formais anunciadas pelo Banco Central, pactos operacionais com a CVM, mudanças em exigências de auditoria e as decisões resultantes das apurações administrativas e judiciais. Assine a newsletter do Portal Fio Diário para atualizações especializadas.
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Marco Antonio Costa

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