IA e empregos no Brasil: automação amplia risco de desigualdade
Destaques
- IA reorganiza tarefas: risco maior para atividades rotineiras e repetitivas do que para ocupações inteiras.
- Impacto real depende de decisões institucionais — quem captura ganhos, regulação e políticas de qualificação.
- Estimativa de até 9,7 milhões de empregos automatizáveis é sensível ao horizonte temporal, definição de “automatizável” e estrutura do mercado brasileiro.
- A transição para contratação por habilidade e a centralidade de governança (LGPD, auditoria de modelos) serão decisivas para não ampliar desigualdades.
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Ameaça IA aos empregos: o problema não é “a IA”, é a substituição de tarefas com baixa defesa econômica
Grande parte do debate trata “ocupações” como blocos inteiros, quando na prática empresas automatizam tarefas, não profissões inteiras. Funções com alta repetição, baixa variabilidade e regras claras são alvos naturais; funções com ambiguidade, interação humana e responsabilidade tendem a ser aumentadas, mantendo o humano como responsável final.
A adoção de IA altera a unidade econômica do risco: a decisão é sobre tarefas que entregam retorno mensurável, menor risco jurídico imediato e escalabilidade. No Brasil, isso cria uma zona cinzenta entre “demissão por automação” e “demissão por reestruturação”, dificultando a leitura estatística e o debate público.
O que os dados de percepção mostram — e o que não mostram
Pesquisas de percepção mapeiam expectativas e incentivos, mas não provam causalidade. Um levantamento citado indica que 61% dos brasileiros acreditam que a IA levará à eliminação de postos de trabalho (contra 67% global) e que 50% veem potencial de criação de oportunidades (46% global). O resultado é ambivalente: medo de perda e expectativa de compensação.
Houve recortes geracionais: a reportagem da Forbes Brasil registrou maior preocupação entre jovens; já uma reportagem do Times Brasil (citando pesquisa repercutida com participação da CNBC) aponta que 89% de líderes seniores de RH preveem impacto nos empregos em 2026 e 67% dizem que a IA já afeta o dia a dia das equipes.
- Impactos práticos: pressão sobre negociação salarial em funções comoditizadas; aumento da demanda por requalificação; gestão reputacional ao reduzir pessoas em nome de tecnologia.
- Limitações das pesquisas: não permitem quantificar perdas “por IA”; não separam impacto tecnológico de ciclo econômico; não definem saldo líquido no mercado de trabalho.
A automação como risco “assimétrico”: 9,7 milhões em perspectiva
Há estimativa citada de que até 9,7 milhões de empregos possam ser automatizados nas próximas décadas, sobretudo em funções repetitivas e de análise de dados. Números desse tipo exigem três clarificações: horizonte temporal (10, 20 ou 30 anos), diferença entre “automatizável” e “automatizado” e a estrutura do mercado brasileiro (alta presença de micro e pequenas empresas e informalidade).
O efeito institucional mais provável é um deslocamento assimétrico: o setor formal tende a ser pressionado por eficiência e compliance; o setor informal pode absorver trabalhadores, ampliando precarização se não houver qualificação acompanhando a transição.
Cortes por custo versus cortes por tecnologia
Pesquisas repercutidas apontam que cortes de pessoal previstos para 2026 podem estar mais ligados à pressão por redução de custos do que à eficiência pura gerada pela IA. Em ciclos de aperto financeiro, empresas usam congelamento de contratações, terceirização e automação como instrumentos para reduzir despesas — e a IA pode servir como justificativa organizacional.
Para formulação de políticas, essa distinção importa: medidas simbólicas contra “demissão por IA” tendem a falhar se o motor real for custo, produtividade e competição. O foco deve incluir ambiente de negócios, custo de capital e carga regulatória.
Profissões “automatizadas” e “aumentadas”: quem ganha poder dentro das empresas
O Barômetro Global de Empregos em IA 2025 distingue ocupações entre “automatizadas” e “aumentadas”. Exemplos setoriais indicam forte crescimento de vagas “aumentadas” no agronegócio e de vagas “automatizadas” no varejo.
Quem captura ganhos tende a ser: áreas de tecnologia e dados (maior orçamento e centralidade); operações medidas por produtividade; e RH, que passa a gerir capacidades e métricas de skills. Sem governança adequada há riscos aumentados de discriminação algorítmica, vazamento de dados e disputa trabalhista por intensificação de metas.
Contratar por habilidade: impacto sobre credenciais e formação
A transição para contratações baseadas em habilidades reduz o peso do diploma genérico e aumenta a procura por formações curtas, certificações e portfólios de entrega. No Brasil, isso conflita com conselhos profissionais e exigências legais de registro em certas áreas.
Consequências práticas: a carteira de valor do trabalhador passa a ser “portfólio + prova de competência”; para o Estado, a necessidade é por programas de requalificação vinculados a resultados (colocação, empregabilidade, renda) e não apenas por volume de cursos.
Valor do trabalho humano: responsabilidade, erro e accountability
Em setores regulados (bancos, saúde, setor público), a IA produz recomendações, mas alguém responde por auditoria, erro, fraude e discriminação. Isso mantém demanda por perfis que combinem domínio técnico com responsabilidade institucional — perfis híbridos (negócio + dados + compliance) tendem a valorizar-se.
O otimismo brasileiro e riscos de autoengano
O material cita que 80% dos brasileiros esperam que 2026 seja melhor que 2025 e que o país tem menor expectativa de recessão. Otimismo é um termômetro social, mas pode levar à subestimação do ajuste necessário: transições tecnológicas exigem investimento em capital humano, adaptação regulatória e modernização do setor público.
Quem está mais exposto no Brasil
Exposição maior em atividades com alta repetição, padrões claros, baixo poder de barganha e alta mensuração de produtividade — tipicamente atendimento, backoffice, rotinas administrativas, varejo e serviços padronizados.
O processo tende a ocorrer em três movimentos: menos vagas novas (substituição via não reposição), rebaixamento salarial em funções comoditizadas e aumento de informalidade se a transição for desorganizada. Em contrapartida, há demanda por profissionais em dados, segurança, engenharia de processos e supervisão de modelos.
Indicadores que governo e instituições devem observar
Para tratar a ameaça com seriedade, é preciso focar em métricas e governança, não em slogans. Indicadores práticos incluem:
- Taxa de rotatividade e tempo médio de recolocação por setor.
- Evolução salarial real nas ocupações expostas à automação.
- Abertura/fechamento de vagas formais por família ocupacional (dados do Caged).
- Aumento de litigância trabalhista associada a metas, monitoramento e demissões em massa.
- Adoção de IA no setor público e capacidade de fiscalização inteligente.
No campo regulatório, são cruciais a LGPD, normas de transparência e auditoria de decisões automatizadas e segurança cibernética como custo estrutural. Para um país com restrição fiscal, a prioridade deve ser políticas de custo-efetividade: requalificação com prova de resultado, incentivos ao investimento produtivo e redução de barreiras ao crescimento formal.
O que muda para empresas
A IA tende a se tornar commodity; a vantagem competitiva será dada por qualidade de dados, processos, governança, integração com sistemas legados e capacidade de treinar equipes e medir resultados. Estruturalmente, muda-se de contratação “para volume” para contratação “para desenho e controle”.
O balanço realista
Resumo defensável a partir das fontes:
- Sim: existe ameaça concreta na forma de redução de tarefas rotineiras e reestruturação de funções.
- Não: as evidências não permitem afirmar desemprego em massa inevitável nem estimar saldo líquido no Brasil.
- O impacto dependerá de ambiente macroeconômico, capacidade de qualificação, governança de IA (incluindo LGPD) e competitividade — se a produtividade vira expansão ou apenas corte.
Fontes e Referências
- reportagem do iA Brasil Notícias
- reportagem da Forbes Brasil
- reportagem do Times Brasil
- análise do ICARDB
- artigo no Alo Ibirapuita
- coluna no RH Pra Você
Perguntas Frequentes
- IA vai causar desemprego em massa no Brasil?
- As evidências não suportam uma afirmação definitiva de desemprego em massa. O efeito mais provável é reorganização produtiva: redução de tarefas rotineiras, mudança de perfil de vagas e deslocamento de trabalhadores se políticas de qualificação e governança falharem.
- O número de 9,7 milhões significa que essas vagas sumirão imediatamente?
- Não. Esse número refere-se a empregos potencialmente automatizáveis ao longo de décadas e depende de janela temporal, custo econômico de automação e decisões empresariais. “Automatizável” não é sinônimo de “automatizado”.
- O que o governo pode fazer para mitigar riscos?
- Focar em políticas com custo-efetividade: requalificação vinculada a colocação, incentivos ao investimento produtivo, medição granular de ocupações (Caged por família ocupacional), e normas de governança e transparência sobre decisões automatizadas.
- Como as empresas devem se posicionar?
- Encarar IA como parte de processos (qualidade de dados, integração, governança) e investir em treinamento que gere métricas mensuráveis; priorizar controle e desenho de processos em vez de apenas adquirir ferramentas.
A partir de 2026, o debate tende a migrar de “IA vai tirar empregos?” para “quais setores convertem IA em produtividade com expansão e quais usam IA para cortar custos?”. Para acompanhar com foco em consequências concretas — e não em slogans — comente, compartilhe este artigo e assine a newsletter do Portal Fio Diário.




