CPI do Banco Master emperra na fila de Motta e abre crise na Câmara
- Hugo Motta afirmou que o requerimento da CPI do Banco Master “vai para a fila”, alegando ordem cronológica e o limite de cinco CPIs em funcionamento.
- O requerimento foi protocolado em 2 de fevereiro de 2026 por Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e relaciona fraudes associadas a liquidação e um rombo estimado em R$ 47,2 bilhões.
- A decisão prática adia indefinidamente a CPI na Câmara e fortalece a alternativa de criação de uma CPMI no Congresso Nacional.
- O regimento e a “fila” oferecem justificativas procedimentais — mas também margem discricionária para gestão da pauta, com impacto sobre governança institucional.
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Introdução e contexto
A enrolação de Motta para pautar a CPI do Master tornou-se um teste de governança na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou em 3 de fevereiro de 2026 que o requerimento para investigar o Banco Master “vai para a fila”, atrás de outras solicitações, citando ordem cronológica e o limite regimental de até cinco CPIs simultâneas. Na prática, isso adia indefinidamente a instalação da CPI na Câmara e aumenta a probabilidade de o tema migrar para uma CPMI.
O que Motta disse e por que isso trava o assunto
Questionado por jornalistas na chegada à Câmara, Motta afirmou que o requerimento da CPI do Banco Master entraria na fila, atrás de pedidos protocolados no ano anterior, e destacou dois pilares: ordem cronológica de protocolo e o limite de até cinco CPIs em funcionamento.
“vai para a fila”
Ele também disse aguardar “o momento certo” para a decisão — expressão que, no jogo político, pode significar condicionamento da pauta a apoio de líderes e cálculo de riscos. A justificativa administrativa existe; o problema é político: se a fila não anda, passa a funcionar como instrumento de bloqueio permanente.
A CPI do Master: por que o caso pressiona por apuração política
O requerimento foi protocolado em 2 de fevereiro de 2026 por Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) para investigar supostas fraudes ligadas ao Banco Master, alvo de liquidação extrajudicial pelo Banco Central e associado a um rombo estimado em R$ 47,2 bilhões. Reportagens ligaram o episódio ao caso Will Bank e mencionaram prisões e operações envolvendo compra de carteiras de crédito.
A magnitude do suposto rombo cria três linhas de impacto:
- Risco fiscal indireto — pressão por soluções públicas via litígios, renegociações e custos de supervisão;
- Risco institucional — exposição de órgãos como Banco Central, CVM, Coaf, Ministério Público e TCU;
- Risco reputacional para o sistema financeiro — perda de confiança, impacto em mercado e regulação.
A cobertura citou que o banco era chefiado por Daniel Vorcaro, com relatos de prisão no aeroporto de Guarulhos, e investigações sobre operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB). Esses elementos tornam o caso politicamente atraente: há personagens, estatais e potenciais conflitos de governança.
“Fila de CPIs”: regra formal, prática política e margem de manobra
A Câmara organiza protocolos segundo ordem de registro, prática que cria previsibilidade. Porém, o regimento não transforma a fila numa obrigação estritamente automática; quando a fila é prática, também é instrumento político. Se a presidência sustenta que há 13–16 CPIs na frente, a CPI do Master só será instalada se a fila andar — o que exige coordenação política para instalar, arquivar ou substituir requerimentos.
O limite de cinco CPIs como moeda política
O teto de cinco CPIs simultâneas preserva a operação da Casa, mas cria escassez: quem define quais cinco ocupam o espaço tem poder sobre agenda e visibilidade. Assim, a “fila” pode ser usada para organizar ou para congelar investigações.
O que muda na prática com a decisão de empurrar para depois
As mudanças práticas são de tempo e de controle:
- Tempo favorece dispersão de pressão: adiar reduz custo político e janela de atenção;
- Sem CPI, apuração depende mais de órgãos técnicos: BC, MP, PF e CVM podem produzir resultados técnicos, enquanto CPI politiza e publiciza;
- A Câmara preserva pauta — e se expõe: admitir uma fila travada mostra uma limitação operacional e reduz a eficácia da ferramenta parlamentar;
- Alternativa CPMI: quanto mais a Câmara posterga, mais forte fica a opção de uma comissão mista no Congresso.
Quem ganha e quem perde
Quem ganha com o adiamento: presidência da Câmara e líderes que preferem controlar danos; potenciais alvos da investigação; e atores que veem vantagem em deixar o tema esfriar.
Quem perde: parlamentares autores do requerimento, a própria Câmara se a ferramenta for percebida como neutralizada, e a previsibilidade institucional para investidores e regulados.
A CPI é para investigar o banco — ou o Estado?
CPIs sobre colapsos bancários frequentemente deslizam do setor privado para a atuação estatal, por três motivos:
- Supervisão e timing regulatório: quando os órgãos perceberam o problema e como reagiram — atingindo o Banco Central e outras autarquias;
- Exposição de estatais: operações envolvendo o BRB transferem o foco para governança pública;
- Arquitetura de responsabilização: CPIs recomendam indiciamentos e propostas legislativas, podendo moldar narrativas de culpa e defesa.
“Não é blindagem, é regimento”: o argumento e seus limites
Motta negou blindagem e invocou obediência ao regimento. Mesmo sendo institucionalmente prudente, a aplicação do regimento raramente é neutra: é ferramenta pela qual decisões políticas são operacionalizadas. Diante de uma fila travada, a presidência pode tratar o problema como burocracia inevitável ou como falha de governança a ser destravada.
CPMI do Master: por que o caminho misto muda o jogo
A alternativa da CPMI desloca o eixo para o Congresso Nacional e para outra presidência. Se um requerimento de CPMI for protocolado, caberia ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), fazer a leitura em sessão conjunta e permitir a instalação.
Vantagens e custos da CPMI:
- Vantagens: contorna a fila da Câmara, dilui controle individual e amplia peso político;
- Custos: maior partidarização, possibilidade de acordos para engavetar pela maioria e logística mais complexa.
O que uma CPI (ou CPMI) poderia produzir — e o que não produz
Entregáveis típicos de comissões parlamentares:
- Pode produzir: requisição de documentos, convocações, quebras de sigilo (sujeitas a controle judicial), relatórios finais com recomendações, pedidos de indiciamento e propostas legislativas;
- Não produz: condenação penal ou civil, recuperação automática de valores ou substituição das investigações técnicas do MP, PF ou BC.
A fila como tecnologia de poder: precedentes e risco de normalização
Se a “fila de CPIs” se tornar argumento-padrão para adiar temas sensíveis, três efeitos institucionais podem ocorrer: protocolar CPI passa a ser ato simbólico; o presidente concentra poder por omissão; e a oposição perde um instrumento de fiscalização parlamentar. Por outro lado, a proliferação de CPIs também pode tornar a ferramenta ineficaz se usada indiscriminadamente.
O que ainda precisa ser esclarecido
Perguntas que uma investigação, parlamentar ou técnica, deveria responder:
- Qual a cronologia institucional da intervenção/liquidação e quais sinais foram detectados?
- Houve decisões de gestão de risco questionáveis envolvendo estatais, como o BRB, e sob quais autorizações?
- Quais mecanismos de proteção a clientes e ao sistema foram acionados e com quais custos diretos e indiretos?
- Que falhas de governança e compliance o caso revela e quais mudanças regulatórias seriam proporcionais?
Conclusão e próximos passos
Não há nas fontes citadas prova direta de manobra explícita além da justificativa regimental apresentada por Hugo Motta. Há, porém, um fato mensurável: uma fila de CPIs represada e a decisão de manter o requerimento do Master nela. A consequência imediata é a perda de tração da CPI na Câmara e a ascensão da CPMI como rota alternativa.
Próximos passos a observar: se líderes vão pressionar para instalar CPIs antigas; se o requerimento de CPMI será formalizado e lido em sessão conjunta; e se órgãos técnicos — Banco Central, Ministério Público, Polícia Federal e tribunais de contas — tomam medidas que alterem a urgência política.
O Portal Fio Diário seguirá acompanhando os desdobramentos institucionais e o impacto regulatório e fiscal do caso. O leitor pode comentar, compartilhar e assinar a newsletter para receber atualizações.
Fontes e referências
- reportagem do Poder360 sobre a posição de Motta
- reportagem do O Tempo sobre a fila de CPIs
- reportagem do G1 com declarações de Motta
- reportagem do Brasil247 sobre a CPI do Banco Master
- reportagem da Gazeta do Povo sobre prioridades e análise parlamentar
- registro em vídeo (YouTube — ID 8b__8-mqagg)
- registro em vídeo (YouTube — ID _f6r3AYqKqU)
Perguntas Frequentes
- O que significa a “fila de CPIs”?
- É a ordem prática de protocolo adotada pela Câmara para priorizar requerimentos. Não é uma obrigação automática, mas uma norma administrativa que pode ser aplicada de forma discricionária.
- Qual a diferença entre CPI e CPMI?
- Uma CPI atua dentro de uma das Casas (Câmara ou Senado). Uma CPMI é mista e envolve deputados e senadores, deslocando a decisão para o Congresso Nacional, com outra dinâmica de composição e presidência.
- Uma CPI pode prender ou condenar?
- Não. CPIs podem recomendar indiciamentos e requisitar informações, mas não condenam. A responsabilidade penal cabe ao Ministério Público e ao Judiciário.




