Fim do New START eleva risco de corrida nuclear global
Destaques
- New START expira em fevereiro de 2026, eliminando o teto formal de 1.550 ogivas estratégicas implantadas por lado e a infraestrutura de inspeções.
- A falta de verificação aumenta incentivos à expansão rápida dos arsenais e cria dinâmica de ação e reação entre EUA e Rússia.
- A crescente capacidade da China e sistemas russos “exóticos” complicam previsões e pressionam Washington por contramedidas.
- O fim do tratado enfraquece o regime de não proliferação e pode estimular pedidos de autonomia nuclear entre aliados vulneráveis.
- Sem mecanismos verificáveis, a opção realista é buscar medidas parciais de transparência em vez de grandes tratados bilaterais.
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Nesta matéria
- Contexto e resumo
- O que o fim do New START significa na prática
- Corrida armamentista nuclear: motivos institucionais
- Pressões externas: China, sistemas russos e defesas americanas
- Europa no centro do problema
- Efeito dominó na não proliferação
- Doomsday Clock e simbolismo
- Por que acordos bilaterais ficam obsoletos e alternativas
- Quem ganha e quem perde
- O que Washington e Moscou podem fazer agora
- O que está em jogo para o Brasil
- Avaliação final
- Fontes e Referências
- Perguntas Frequentes
Contexto e resumo
“corrida nuclear acelera com o fim do tratado Rússia–EUA”
A frase acima deixou de ser apenas hipótese de longo prazo e passa a descrever um novo ambiente institucional: com a expiração do New START em fevereiro de 2026, desaparecem as travas formais que limitavam ogivas estratégicas implantadas e, sobretudo, a infraestrutura de transparência (inspeções e troca de dados) que reduzia incentivos à escalada por erro de cálculo.
Na prática, o que muda não é apenas o “tamanho potencial” dos arsenais, mas o mecanismo de verificação que permitia decisões com algum lastro empírico — um elemento central de estabilidade em um domínio onde a incerteza é, por si só, um multiplicador de risco.
O que o fim do New START significa na prática: menos verificação, mais incentivos à escalada
O tratado impunha um teto de 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas por cada lado e previa inspeções mútuas. Sem esse arcabouço, EUA e Rússia — que concentram mais de 90% das ogivas nucleares do mundo — passam a operar num cenário em que aumentar capacidade pode ser feito com mais rapidez, enquanto a detecção do aumento do outro lado se torna mais difícil.
Mudanças institucionais imediatas
- Some o teto negociado de ogivas implantadas (1.550 por lado).
- Cai a transparência operacional proporcionada por inspeções e trocas de dados.
- O planejamento militar passa a depender mais de inteligência, estimativas e inferências — que nunca substituem o efeito disciplinador de um mecanismo aceito por ambas as partes.
O risco é de mais decisões tomadas no escuro, com incentivos para “errar por excesso”: supor que o adversário possui mais capacidade e, por isso, acelerar produção, alterar posturas de alerta ou deslocar forças. Politicamente, aumenta o espaço para justificar gastos de modernização com base em “necessidade estratégica”, com menor fiscalização externa e menos dados compartilhados.
Corrida armamentista nuclear: por que a ausência de limites pode virar expansão rápida
Quando o limite desaparece, o custo político de elevar números diminui e o benefício de parecer superior aumenta. Com estoques em reserva e capacidade industrial existente, ambos os países podem expandir rapidamente arsenais implantados, desencadeando respostas em cadeia.
Mecanismo institucional
- Capacidade latente: ogivas não implantadas, plataformas e infraestrutura permitem crescimento sem recomeçar o ciclo.
- Incerteza: reduz confiança em sinais de moderação.
- Doutrina e reputação: não responder pode ser visto como fraqueza.
Burocracias e complexos industriais-militares reforçam esse mecanismo; um compromisso político de expansão pode ser tomado rapidamente e depois ganhar vida própria por contratos, empregos e cadeias produtivas.
Pressões cruzadas: China em ascensão, sistemas “exóticos” russos e defesas antimísseis americanas
A corrida nuclear contemporânea ocorre num ambiente de multipolaridade. Segundo análises citadas, a China teria ampliado seu arsenal de cerca de 200 ogivas em 2020 para 600 em 2024, com perspectiva de chegar a 1.000 até 2030. Esse crescimento funciona como fator de pressão sobre Washington.
Do lado russo, sistemas descritos como “exóticos” — incluindo torpedos estratégicos e mísseis hipersônicos — complicam previsões e podem desestabilizar defesas. A Rússia alega que programas americanos de defesa antimísseis e o avanço de armas de precisão da OTAN nas proximidades ameaçam sua capacidade de retaliação, criando incentivos para compensação por meio de mais ogivas, sistemas menos interceptáveis ou dispersão de plataformas.
Em termos simples: defesas podem ser percebidas como ofensa quando mexem no equilíbrio de retaliação.
Europa no centro do problema: opacidade do arsenal russo e decisões baseadas em presunções
Sem o fluxo institucionalizado de informações, a leitura do arsenal russo se torna menos verificável, forçando decisões baseadas em estimativas. Para a Europa, isso pesa em três dimensões:
- Militar: aumento de alertas, exercícios e postura de prontidão.
- Orçamentária: pressão por gastos de defesa, inclusive em capacidades estratégicas.
- Política: maior dependência das decisões americanas e maior interesse por autonomia estratégica.
O controle de armas funcionava como um amortecedor; sem ele, o tempo de decisão pode encolher — e janelas menores historicamente ampliam a chance de erro.
Efeito dominó na não proliferação: quando as superpotências deixam de dar o exemplo
Pela primeira vez em meio século, não há restrições formais aos arsenais estratégicos de EUA e Rússia, o que pode minar a credibilidade do Tratado de Não Proliferação (TNP). O argumento é institucional: se as grandes potências mantêm liberdade total, por que outros Estados aceitariam limitações permanentes?
A imprevisibilidade de figuras políticas — como Donald Trump — pode aumentar dúvidas sobre garantias de defesa estendidas, levando aliados vulneráveis a reavaliar a busca por autonomia nuclear. Movimentos relevantes num país tendem a provocar reações regionais (por exemplo, impactos na Coreia do Sul, Japão e demais atores na Ásia).
Doomsday Clock a 85 segundos: indicador simbólico com recado operacional
O Doomsday Clock foi ajustado para 85 segundos da meia-noite em 2026; o ajuste cita o fim do New START como fator principal. Embora simbólico e não técnico, o relógio traduz para o debate público a ideia de que menos controle, mais atores e mais incerteza compõem um cenário mais perigoso.
Por que acordos bilaterais ficam obsoletos num mundo multipolar (e o que poderia substituí-los)
Tratados bilaterais funcionam bem em uma ordem bipolar; com a ascensão da China e novas aproximações geopolíticas, arranjos apenas entre dois atores perdem aderência. Um limite aceito por EUA e Rússia pode ser visto como vantagem relativa para a China, e vice-versa.
Alternativas possíveis:
- Acordos trilaterais envolvendo a China — teoricamente ideais, mas politicamente difíceis.
- Medidas de transparência parciais (troca de dados, notificações, limites por categorias) — mais realistas que um grande tratado abrangente.
- Arranjos regionais em torno de vetores e bases — improváveis para o núcleo estratégico, mas possíveis em outras frentes.
Quem ganha e quem perde com o fim do New START: poder, orçamento e margem de manobra
Do ponto de vista institucional, há vencedores e perdedores claros:
Ganhadores de margem de manobra
- Burocracias de defesa, que podem propor programas sem o constrangimento de um teto formal.
- Setores industriais ligados à modernização e manutenção de arsenais.
- Políticos com discurso de força, que justificam aumento de gastos com base em ameaças menos verificáveis.
Perdedores em previsibilidade e autonomia
- Aliados europeus e asiáticos, que dependem de sinais claros entre superpotências.
- O regime de não proliferação, que perde sua âncora simbólica e prática.
- Gestão de crises, já que canais de inspeção funcionavam como amortecedores.
Em termos fiscais, a tendência é por mais gasto em defesa — em um contexto de dilemas sobre dívida, juros e envelhecimento populacional — com risco de desperdício e retorno econômico difuso.
O que Washington e Moscou podem fazer agora (e o que é ruído)
Gestos de continuidade voluntária do New START têm valor limitado sem verificação, porque promessas sem inspeções são baratas. Movimentos institucionais relevantes incluem:
- Mudanças de postura nuclear (nível de alerta, deslocamento de plataformas, doutrina declaratória).
- Orçamentos e programas de modernização aprovados por parlamentos e executivos.
- Pressões sobre aliados para sediar capacidades ou reforçar defesas antimísseis.
- Sinais vindos da China: ritmo de expansão, construção de silos, submarinos e doutrina serão variáveis-chave.
Ruído típico inclui retórica de culpa e provocações sem lastro documental; o tema é regido por capacidade e verificação, não por discursos.
O que está em jogo para o Brasil: impactos indiretos, mas relevantes
O Brasil não faz parte do New START e não tem arsenal nuclear, mas é afetado por canais indiretos:
- Regime internacional: enfraquecimento da não proliferação complica a diplomacia multilateral onde o Brasil busca previsibilidade.
- Economia e risco global: maior tensão estratégica eleva prêmios de risco, afetando energia, cadeias logísticas e investimentos.
- Precedentes: abandono de mecanismos de verificação reduz força de argumentos “rule-based” em outros temas.
Para um país de renda média, previsibilidade é um ativo; instabilidade sistêmica cobra conta por meio de volatilidade e necessidade de reposicionamento diplomático.
Avaliação final: um mundo com menos regras e mais incentivos para “errar por excesso”
O fim do New START em fevereiro de 2026 reorganiza o tabuleiro ao retirar limites e remover verificações num domínio em que a informação é parte da segurança. O resultado mais plausível, se nada substituir o tratado, é um período prolongado de modernização e possível expansão — com risco crescente de erros de cálculo.
A variável que pode alterar essa trajetória não é retórica, mas a criação de algum mecanismo verificável (bilateral, trilateral ou parcial) que devolva previsibilidade ao sistema. Sinais a acompanhar: propostas orçamentárias, mudanças de postura nuclear, iniciativas de transparência e, sobretudo, o comportamento da China.
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Fontes e Referências
- reportagem da CNN Portugal sobre o impacto do fim do New START
- reportagem da Exame sobre a expiração do tratado nuclear
Perguntas Frequentes
O que é exatamente o New START?
O New START era um tratado entre EUA e Rússia que estabelecia limites verificáveis para ogivas estratégicas implantadas e mecanismos de inspeção e troca de dados. Sua expiração removeu tanto os tetos quanto a infraestrutura de transparência.
O fim do tratado aumenta o risco de um conflito nuclear?
Não significa automaticamente um conflito, mas amplia incentivos a decisões baseadas em presunções e reduz mecanismos que evitam escaladas por erro de cálculo. Isso eleva a probabilidade de corridas de expansão e de decisões tomadas com menos informação.
O Brasil tem motivos para se preocupar diretamente?
De forma indireta: enfraquecimento da não proliferação, maior volatilidade estratégica e impactos econômicos e diplomáticos são canais relevantes para o Brasil, apesar de o país não participar do tratado nem possuir arsenal nuclear.




