Carnaval: cultura, poder e a captura de uma festa popular

Carnaval
fonte: Frank Kovalchek de Anchorage, Alasca, EUA

Destaques

  • As origens históricas do Carnaval.
  • A institucionalização da festa no Brasil.
  • A relação entre poder público, dinheiro privado e cultura.
  • O papel do jogo do bicho e das zonas cinzentas.
  • O caso da homenagem a Lula em ano eleitoral.
  • Propostas para repensar o modelo atual.

Tempo de leitura estimado: 9 min

Nesta matéria

O Carnaval brasileiro costuma ser apresentado como uma unanimidade cultural. Símbolo de alegria, identidade nacional e diversidade, a festa é frequentemente tratada como patrimônio intocável — algo que deve ser celebrado, financiado e defendido sem maiores questionamentos. No entanto, toda manifestação cultural de grande escala carrega consigo camadas históricas, disputas de poder e interesses econômicos que raramente aparecem no discurso oficial.

Este editorial não é um ataque à cultura popular nem um manifesto moralista contra a festa. É uma análise crítica de um fenômeno que mobiliza bilhões de reais, envolve diretamente o Estado, atrai capital privado e se tornou parte do jogo político e simbólico do país — especialmente no Rio de Janeiro.

Para compreender o modelo atual do Carnaval, é necessário voltar à sua origem.

A origem do Carnaval: excesso com prazo de validade

O Carnaval não nasceu no Brasil, tampouco surgiu como uma celebração cristã. Suas raízes mais antigas remontam a festas pagãs da Antiguidade, como as Saturnálias romanas e os cultos dionisíacos, marcados pela inversão de papéis sociais, pela suspensão temporária das normas morais e pelo excesso ritualizado.

Na Idade Média, a Igreja não conseguiu eliminar completamente essas práticas e optou por absorvê-las de forma estratégica. O Carnaval passou a anteceder a Quaresma, período de jejum, penitência e introspecção espiritual. A lógica era clara: permitir alguns dias de extravasamento antes da contenção moral. O próprio nome “Carnaval” costuma ser associado à expressão carne vale — “adeus à carne”.

Há um ponto fundamental nesse arranjo que hoje costuma ser ignorado: o Carnaval existia como exceção, não como regra. Era um intervalo simbólico, delimitado no tempo e no significado. Seu sentido dependia daquilo que vinha depois.

O Carnaval no Brasil: do Entrudo à institucionalização

No Brasil colonial, o Carnaval chegou por meio do Entrudo português, uma prática marcada por brincadeiras agressivas, uso de água suja, farinha e restos orgânicos. Era uma manifestação caótica, tolerada por alguns dias, mas frequentemente reprimida pelas autoridades.

A partir do século XIX, especialmente nos centros urbanos, o Carnaval passou por um processo de transformação. Bailes de máscara, desfiles organizados e influências europeias começaram a moldar a festa. No século XX, a contribuição afro-brasileira foi decisiva: o samba, os ritmos, as comunidades e as escolas de samba deram ao Carnaval brasileiro sua identidade própria.

Até esse ponto, estamos diante de um processo legítimo de construção cultural popular. O problema não está na criatividade artística nem na força comunitária. O ponto de inflexão ocorre quando o Carnaval deixa de ser expressão espontânea e passa a ser projeto institucional.

Quando a festa deixa de incomodar

Historicamente, o Carnaval incomodava. Incomodava porque ridicularizava o poder, satirizava autoridades, expunha contradições sociais e permitia ao povo dizer, em forma de riso, aquilo que não podia dizer o resto do ano.

No Brasil contemporâneo, esse papel foi progressivamente esvaziado.

A construção do Sambódromo, a oficialização dos desfiles, a criação de subvenções públicas, o envolvimento direto do poder público e a transformação do Carnaval em produto turístico e televisivo marcaram uma virada decisiva. O que antes era rua, improviso e crítica passou a ser arquibancada, jurado, patrocínio e cronograma.

O Carnaval deixou de zombar do poder e passou a ser protegido por ele.

Dinheiro, Estado e zonas cinzentas

A história das escolas de samba no Rio de Janeiro é inseparável da presença do jogo do bicho. Durante décadas, contraventores financiaram escolas, bancaram desfiles, definiram lideranças e operaram sob uma combinação de tolerância estatal e silêncio institucional.

Com o tempo, outros atores passaram a orbitar o evento: tráfico de drogas, milícias, intermediários políticos e financiadores informais. Não se trata de afirmar que “o Carnaval é do crime”, mas de reconhecer que ele se tornou um ambiente propício à convivência entre dinheiro público, capital privado e recursos de origem opaca, tudo isso legitimado pelo rótulo de cultura.

Quando o Estado injeta recursos em larga escala e a transparência é limitada, cria-se um efeito perverso: o dinheiro não precisa ser “lavado” no sentido jurídico clássico. Basta desfilar, aparecer na televisão e circular nos camarotes certos.

Camarotes: o retrato da promiscuidade institucional

Os camarotes do Carnaval sintetizam esse modelo. Ali se encontram autoridades públicas, empresários, celebridades, patrocinadores e figuras cuja relação com o poder raramente é questionada. Não é que todos ali sejam criminosos. O problema é mais profundo: ninguém pergunta de onde veio o dinheiro.

Essa convivência naturalizada revela um pacto silencioso. Questionar o Carnaval virou tabu. A crítica é imediatamente rotulada como preconceito, moralismo ou ataque à cultura popular. O debate é interditado antes mesmo de começar.

Quando a cultura encontra o calendário eleitoral

Esse debate deixou de ser apenas histórico ou teórico e ganhou um exemplo concreto recente. Em ano eleitoral, a escola de samba Acadêmicos de Niterói anunciou um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, narrando sua trajetória pessoal, sindical e política.

A escolha provocou reação imediata fora do universo carnavalesco. Parlamentares acionaram órgãos de controle, questionando se a homenagem poderia configurar propaganda eleitoral antecipada, especialmente diante do fato de que escolas do Grupo Especial recebem recursos públicos diretos e indiretos, além de apoio institucional de estatais e órgãos federais ligados ao turismo.

Independentemente da simpatia ou antipatia que se tenha pelo homenageado, o episódio escancara um dilema que o discurso oficial costuma evitar: é legítimo usar dinheiro público — ainda que parcialmente — para financiar enredos que exaltam um agente político em exercício, às vésperas de uma disputa eleitoral?

Liberdade cultural ou privilégio institucional?

Defensores do enredo afirmam que se trata de liberdade artística e que o Carnaval sempre homenageou figuras públicas. A afirmação é verdadeira apenas em parte. Há uma diferença fundamental entre homenagear personagens históricos já consolidados e exaltar um ator político ativo, com influência direta sobre o Estado que financia o evento.

O problema não está na existência da homenagem em si, mas na estrutura que a viabiliza. Quando o Estado financia, chancela ou promove um evento cultural, ele assume a obrigação constitucional de agir com impessoalidade. Ao permitir — ou financiar — narrativas que favorecem simbolicamente um lado do espectro político, o poder público atravessa uma linha perigosa, ainda que o faça sob o guarda-chuva da cultura.

Nesse contexto, o Carnaval deixa de ser apenas expressão popular e passa a ocupar um espaço ambíguo: nem propaganda oficial, nem manifestação totalmente privada. Essa zona cinzenta é o terreno fértil para disputas judiciais, acusações de aparelhamento e desgaste institucional da própria festa.

Um modelo alternativo: escolas como clubes culturais

Se o problema é estrutural, a solução também precisa ser.

Uma alternativa viável — ainda que politicamente impopular — seria a retirada progressiva do Estado do financiamento e da operação do Carnaval. Isso incluiria a concessão ou privatização do Sambódromo, o fim de subvenções públicas e a adoção de um modelo integralmente privado.

As escolas poderiam funcionar como clubes culturais, à semelhança dos clubes de futebol: associações privadas, com sócios contribuintes, venda de fantasias, camarotes, patrocínios transparentes, receitas de mídia e governança clara.

Esse modelo não é perfeito. Ele traria desigualdade entre escolas, exigiria profissionalização real e encerraria estruturas inviáveis. Mas teria uma virtude essencial: responsabilidade.

Conclusão: cultura não pode ser álibi permanente

O Carnaval continuará existindo. Ele é forte demais culturalmente para desaparecer. A questão não é acabar com a festa, mas parar de tratá-la como intocável.

Cultura não pode ser álibi permanente para opacidade, privilégio e promiscuidade institucional. Quando isso acontece, ela deixa de ser expressão popular e passa a ser instrumento de poder.

Talvez o maior gesto de respeito ao Carnaval não seja financiá-lo indefinidamente, mas permitir que ele sobreviva — ou se transforme — pelos próprios méritos.

Nenhuma festa deveria ser grande demais para ser questionada.

Gostou da matéria? Confira essas e outras notícias no portal Fio Diário.

Referências e links para consulta

Origem do Carnaval

Carnaval no Brasil

Jogo do bicho e escolas

Verbas públicas

Caso Acadêmicos de Niterói / Lula

Compartilhe:

Publicidade

Banner 300x250 00000 1
Marco Antonio Costa

Assine o fio diário+

Venha fazer parte dessa luta pela liberdade e pelo fim do monopólio da comunicação do consórcio que hoje domina e manipula a mente de milhões de brasileiros.

Receba dicas e recursos gratuitos diretamente na sua caixa de entrada, inscreva-se, agora!

Envie-nos sua sugestão ou crítica.

Preencha corretamente o formulário abaixo.

Anuncie no Fio Diário

Preencha os dados abaixo e receba informações sobre formatos, valores e alcance do portal.