Da “Proteína de Deus” ao laboratório: a aposta da UFRJ para tratar lesão medular

Proteína de Deus
A estrutura da polilaminina remete a uma cruz (Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPT
  • A “Proteína de Deus” é um apelido de internet para a laminina.
  • A UFRJ pesquisa a polilaminina (uma forma polimerizada/derivada da laminina) para modular o microambiente após lesão medular.
  • Há evidência publicada em periódico revisado por pares (estudo longitudinal em cães) e um ensaio clínico registrado no ReBEC para lesão medular aguda.
  • O tema ganhou tração pública e política, chegando a audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado.
  • Entre esperança e evidência, o ponto central é: em que etapa estamos — e o que ainda falta para falar em tratamento consolidado.

Tempo de leitura estimado: 7–9 minutos

Nesta matéria

O que é a chamada Proteína de Deus

Antes de qualquer coisa, vale separar linguagem de rede social de linguagem científica. Proteína de Deus não é um termo técnico: é um apelido popular associado à laminina, proteína da matriz extracelular que ganhou viralização porque algumas representações estruturais lembram o formato de uma cruz.

O problema do apelido é simples: ele cria uma aura de “milagre” que não corresponde ao modo como a ciência avança. Laminina é importante — mas não por simbolismo. Ela participa da arquitetura dos tecidos e influencia o comportamento das células, afetando processos como adesão, migração e diferenciação.

É justamente nessa biologia (e em como ela pode ser “reaproveitada” para favorecer reparo tecidual) que a discussão fica interessante. E é aí que entra a pesquisa da UFRJ.

O que a pesquisa da UFRJ realmente investiga

A pesquisa liderada pela Dra. Tatiana Coelho de Sampaio (UFRJ) investiga o uso de laminina e, principalmente, de uma forma derivada/polimerizada conhecida como polilaminina. A hipótese é que a polilaminina possa modular o microambiente após uma lesão medular — em vez de depender apenas de estratégias que tentam “forçar” regeneração num cenário biologicamente hostil.

Por que lesão medular é tão difícil de tratar

Após um trauma na medula espinhal, ocorre uma cascata complexa: inflamação, morte celular, formação de cicatriz glial e a presença de barreiras químicas que inibem o crescimento axonal. Em termos práticos, mesmo quando a cirurgia estabiliza a coluna e a reabilitação avança, o sistema nervoso central tem limitações conhecidas de regeneração.

É por isso que propostas que tentam “reorganizar” o ambiente local chamam atenção: a pergunta deixa de ser só “como fazer o axônio crescer?” e passa a incluir “como tornar o território menos inóspito para reconexões?”.

O que é polilaminina (e onde entra o apelido)

É aqui que o debate público às vezes se confunde. A Proteína de Deus é o apelido associado à laminina; já a polilaminina é apresentada como uma forma polimerizada/derivada com propriedades que poderiam favorecer regeneração e recuperação funcional em modelos experimentais. Ou seja: o “meme” gira em torno de laminina, mas a aposta terapêutica costuma destacar a polilaminina.

O que diz o artigo científico publicado

Um dos pilares mais concretos do debate é a existência de artigo revisado por pares. O estudo “A laminin-based therapy for dogs with chronic spinal cord injury: promising results of a longitudinal trial” foi publicado na Frontiers in Veterinary Science e avalia uma terapia baseada em laminina/polilaminina em cães com lesão medular crônica.

O ponto editorial decisivo: resultados em modelo veterinário — mesmo quando animadores — não equivalem automaticamente a eficácia em humanos. Ainda assim, publicações revisadas por pares importam porque exigem descrição metodológica, desfechos mensuráveis e exposição ao escrutínio da comunidade científica.

Para o leitor, o melhor jeito de interpretar é: o paper é um degrau importante na escada translacional, não o último degrau.

Em que fase está o estudo clínico no Brasil (ReBEC e autorizações)

Outro eixo crucial — e menos “viralizável” do que um apelido — é a trilha regulatória. Há um ensaio registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) com o identificador RBR-9dfvgpm, sob o título “Polylaminin for Acute Spinal Cord Injury”. O registro descreve um recorte específico (por exemplo, critérios como lesão neurológica completa AIS A e janela temporal curta, como até 72 horas em alguns trechos do registro).

Registro no ReBEC, por si só, não prova eficácia — mas indica que existe um desenho proposto, critérios de inclusão/exclusão e um caminho de governança científica em curso.

O que dizem Anvisa e Ministério da Saúde

Além do ReBEC, houve comunicação pública sobre autorização/andamento de estudos clínicos, com repercussão em canais oficiais e veículos públicos. Isso adiciona uma camada importante de contextualização: a discussão não está apenas no nível de rede social, mas também no nível institucional e regulatório.

O impacto político e regulatório da discussão no Senado

O tema chegou ao Senado Federal: a Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) aprovou audiência pública para receber a pesquisadora e discutir avanços e desafios de pesquisa envolvendo lesão medular. Audiência pública não é “prêmio” nem “validação científica final”; é um sinal de que o assunto entrou no radar de políticas públicas.

Quando a ciência translacional chega ao Legislativo, geralmente emergem três debates paralelos:

  • Financiamento (como sustentar pesquisas longas e caras);
  • Regulação (como garantir rigor, segurança e transparência sem travar inovação);
  • Acesso (se um dia virar terapia aprovada, como evitar que vire privilégio de poucos).

O que já é evidência — e o que ainda é promessa

Para não cair nem no “milagre” nem no “deboche automático”, dá para organizar o cenário de forma objetiva.

O que já existe (fatos verificáveis)

  • Artigo revisado por pares em periódico internacional, com dados em modelo veterinário (cães, lesão crônica).
  • Registro de ensaio clínico no ReBEC (proposta em humanos para lesão medular aguda).
  • Repercussão institucional e política (incluindo audiência anunciada no Senado).
  • Comunicações públicas sobre autorizações/andamento regulatório em fontes oficiais e veículos públicos.

O que ainda não existe (lacunas típicas antes de “tratamento”)

  • Resultados clínicos robustos e replicados em humanos, com amostras maiores e desenho controlado.
  • Dados consolidados de segurança e eficácia de longo prazo para uso amplo.
  • Aprovação regulatória para disponibilização como terapia padrão.

Nesse ponto, linguagem importa. Evitar a palavra “cura” não é frieza: é rigor. A Proteína de Deus pode render cliques, mas o que decide o futuro do tema são dados clínicos, reprodutibilidade e avaliação regulatória.

O que mudaria na medicina se der certo?

Se a hipótese se confirmar com benefício clínico relevante em humanos, a implicação é grande. Hoje, a lesão medular tem opções limitadas e, em muitos casos, sequela permanente. Uma abordagem que consiga modular o microambiente e favorecer reorganização tecidual poderia, em tese, ampliar ganhos funcionais e potencializar reabilitação.

Mas a frase-chave continua sendo “se der certo”. Na prática, a medicina só muda quando uma promessa atravessa as etapas: hipótese → prova experimental → validação clínica → avaliação regulatória → incorporação responsável.

Conclusão: entre a esperança e a evidência

A história da Proteína de Deus começa como meme, mas não precisa terminar em caricatura. Existe uma linha de pesquisa real, com publicação revisada por pares, registro de ensaio clínico e repercussão institucional — e isso é, por si só, relevante para ciência brasileira.

O desafio agora é duplo: proteger o debate público do exagero (que transforma pesquisa em milagre) e do preconceito (que descarta pesquisa nacional por reflexo). O caminho mais honesto é acompanhar etapa por etapa, com transparência, método e a cautela que a própria ciência exige.

Fontes e referências

Essa e outras matérias você encontra aqui, no portal do Fio Diário.

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Marco Antonio Costa

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