Juros abusivos!
Destaques
- O Brasil iniciou 2026 com cerca de 73 milhões de adultos com contas em atraso — cerca de 43,88% da população adulta.
- Inadimplência mostra traço de cronicidade: crescimento de 34,30% nas dívidas com atraso entre 4 e 5 anos.
- Juros elevados, desenho de produtos de crédito caros e renda pressionada formam um circuito que transforma atrasos pequenos em passivos duradouros.
- Parte relevante das dívidas é de baixo valor (43,42% até R$ 1.000), indicando problemas de fluxo de caixa doméstico, não apenas “apostas financeiras”.
O que os números mostram (e por que isso importa para a economia real)
Levantamento divulgado por entidade ligada ao varejo e ao crédito indica que o país alcançou aproximadamente 73 milhões de inadimplentes no início de 2026 — cerca de 43,88% da população adulta. Nesse patamar, a inadimplência funciona como um “imposto invisível”: pessoas negativadas pagam mais caro quando conseguem crédito, têm acesso restrito a parcelamentos e recorrem a soluções menos eficientes (empréstimos informais, rolagem de contas).
Recortes relevantes
- A faixa de 30 a 39 anos tem 52,71% de inadimplentes — cerca de 17,87 milhões — afetando diretamente setores dependentes de consumo financiado.
- A dívida média por inadimplente é estimada em R$ 4.898,02, com cerca de 2,26 empresas credoras por pessoa, indicando pulverização do passivo.
- 43,42% dos devedores têm dívidas de até R$ 1.000, o que sugere que muitos atrasos nascem de desorganização do fluxo de caixa doméstico.
Quando a inadimplência alcança massa crítica, o sistema precifica o risco de forma mais dura — afetando não só quem atrasou, mas elevando o custo do crédito para empresas e consumidores.
Juros altos: o “multiplicador” do endividamento
Taxas de juros elevadas têm dois efeitos cumulativos: (1) aumentam o custo de rolagem de dívidas existentes; (2) pioram a porta de entrada do crédito, empurrando consumidores para modalidades de curto prazo e alto custo em choques de renda. Juros altos não criam a inadimplência sozinhos, mas transformam pequenos desequilíbrios em atrasos maiores.
“Apesar de indicadores positivos de emprego e renda, a taxa elevada dificulta o acesso ao crédito e encarece as dívidas.”
CNDL foi citada como origem do comentário acima por interlocutores ouvidos pelas fontes consultadas.
Por que os juros sobem
Juros básicos oscilam em resposta a inflação, risco fiscal e expectativas. Quando o país transmite insegurança sobre inflação futura ou trajetória das contas públicas, o custo do dinheiro sobe — é precificação de risco, não punição moral.
Gastos do governo e o canal técnico para juros
A tese simplificada de que “gastos públicos geram inflação” precisa de precisão. Gastos tendem a ser inflacionários quando não são financiados de modo crível e elevam a demanda sem oferta correspondente. Mesmo sem inflação imediata, podem aumentar o risco fiscal percebido e, por consequência, prêmios de risco e juros.
O efeito relevante para inadimplência é: risco macro → juros → custo do crédito → inadimplência.
O desenho do crédito no Brasil: caro na ponta, punitivo no atraso
Dados indicam que 65,59% das dívidas em atraso estão concentradas no setor bancário, sinalizando forte ligação com produtos financeiros formais — cartões, empréstimos, cheque especial e financiamentos. Isso significa que a inadimplência frequentemente configura um passivo financeiro que cresce por juros, multas e encargos.
Assimetria de informação e contratos complexos
Contratos complexos e dificuldade do consumidor em entender o custo efetivo total alimentam o ciclo. A renegociação complica-se quando há múltiplos credores e modalidades distintas.
Cartão e cheque especial: por que viram “bola de neve”
Cartões de crédito e cheque especial são linhas pré-aprovadas, acionadas em emergências sem planejamento, com custos elevados. No rotativo, a dívida se renova com encargos altos, deteriorando rapidamente a capacidade de pagamento.
A dívida cara “come” renda disponível, reduz consumo e aumenta o risco de atraso em outras contas essenciais — espalhando o impacto para além do sistema financeiro.
Inadimplência de longo prazo: quando a dívida deixa de ser “fase” e vira estrutura
Houve crescimento de 34,30% nas dívidas com atraso entre 4 e 5 anos, indicando que parte dos inadimplentes não consegue “limpar” o passivo e recomeçar. Três hipóteses institucionais explicam a dificuldade de normalização:
- Custo de renegociação: acordos que exigem entradas e parcelas incompatíveis com a renda real.
- Fragmentação de credores: coordenação difícil quando há várias empresas credoras.
- Reincidência: uso recorrente de crédito caro para cobrir o mês, recriando o passivo.
O resultado é um ciclo de baixa mobilidade financeira, com menos consumo, menos crédito de qualidade e maior vulnerabilidade a choques.
Renda, inflação e orçamento doméstico: a conta não fecha no fim do mês
Mesmo com melhora do emprego, a experiência do consumidor pode ser de aperto se o crescimento de renda não acompanha custos essenciais (alimentação, energia, transporte, moradia) ou se há aumento de despesas incomprimíveis (saúde, educação).
A predominância de atrasos de valores baixos reforça que muitos casos decorrem da falta de margem no orçamento, e não necessariamente de consumo excessivo.
Educação financeira ajuda — mas não substitui um mercado de crédito menos assimétrico
Educação financeira pode reduzir decisões ruins na margem (uso do rotativo, cheque especial) e melhorar o timing de negociação. Porém, não altera por si só a estrutura de juros do país, o spread bancário ou as assimetrias contratuais.
Portanto, educação financeira é parte da solução, não a solução única; tratá-la como explicação principal pode deslocar a responsabilidade institucional.
O dado dos “57 milhões que não sabem” e o problema de governança do próprio CPF
Reportagens mencionam que dezenas de milhões teriam pendências e “sequer saberiam”, por falta de monitoramento do CPF. Isso aponta falhas de governança individual e de comunicação no ecossistema de crédito.
“Não saber” costuma significar dívidas antigas e pulverizadas que viram negativação silenciosa, ou falta de rotina de verificação e alertas — aumentando os custos de transação para o consumidor.
“Juros abusivos”: o que é crítica legítima e o que exige evidência
A expressão “juros abusivos” combina dois planos: a constatação econômica de modalidades muito caras e a acusação jurídica que exigiria análise contratual e regulação. Com base nas fontes, é defensável afirmar que existem modalidades com custo elevado e potencial destrutivo; a caracterização legal de abusividade demanda avaliação caso a caso.
O ponto prático: independentemente do rótulo, o desenho do produto cria incentivos ruins quando linhas emergenciais de alto custo viram renda recorrente.
O que muda na prática: quem ganha e quem perde com 73 milhões negativados
Quem perde
- Famílias: acesso a crédito mais barato reduzido; maior custo para parcelamentos; queda na capacidade de investimento e consumo.
- Varejo e serviços: queda do consumo e aumento do custo para vender a prazo.
- Pequenas empresas: demanda fraca e crédito caro para capital de giro.
Quem ganha ou reduz perdas
- Instituições com melhor capacidade de precificação e cobrança, que protegem margens via juros e políticas de risco.
- Intermediários e estruturas de renegociação que operam em grande escala (nem sempre com custo baixo para o consumidor).
O que pode reduzir a inadimplência: um pacote de incentivos
As fontes apontam para uma agenda combinada entre políticas públicas, educação financeira aplicada e melhorias na oferta de crédito. Três frentes centrais:
1) Estabilização macro: inflação sob controle e previsibilidade fiscal
- Inflação convergindo para a meta de forma consistente.
- Menos ruído sobre trajetória da dívida e sustentabilidade fiscal.
- Credibilidade que reduza o prêmio de risco.
2) Melhoria do mercado de crédito: transparência, competição e desenho de produto
- Regras para migração do rotativo para linhas parceladas com custo menor.
- Contratos mais simples e comparáveis, com custo efetivo total evidente.
- Maior concorrência e eficiência para reduzir spreads onde possível.
3) Educação financeira aplicada: prioridade para decisões de alto impacto
- Priorizar pagamento de dívidas mais caras.
- Evitar rotativo e cheque especial como renda recorrente.
- Monitorar CPF e organizar renegociação com foco em liquidação.
Critério de sucesso: aumentar a taxa de saída do negativo e reduzir reincidência — em especial diminuir a inadimplência de 4–5 anos.
O que observar a partir de agora: sinais de melhora ou consolidação do problema
- Se a inadimplência de longo prazo (4–5 anos) recua ou continua crescendo.
- Se o custo do crédito ao consumo cai de forma consistente.
- Se a renda real recupera capacidade de absorver despesas sem depender de crédito caro.
- Se políticas públicas trazem previsibilidade fiscal ou ampliam incerteza.
Fontes e Referências
A matéria baseia-se na análise e dados disponíveis nas seguintes referências: uma publicação da CDL-SP sobre inadimplência no varejo (análise da CDL-SP sobre inadimplência), cobertura jornalística da Agência Brasil (relato da Agência Brasil sobre o número de devedores) e levantamento noticioso do Tribuna Hoje (reportagem do Tribuna Hoje).
O tema permanecerá central no debate econômico porque afeta consumo, crédito e confiança — três engrenagens determinantes para crescimento e estabilidade social. Os próximos passos institucionais a acompanhar são a evolução dos juros e da inflação, o sinal fiscal e a capacidade do mercado de crédito de oferecer rotas de renegociação que reduzam reincidência.
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Perguntas Frequentes
Por que 73 milhões de brasileiros estão endividados?
Não há um único culpado: é resultado de juros elevados, desenho de crédito caro, renda pressionada e falhas institucionais que dificultam a normalização da dívida.
Como se reduz a inadimplência crônica?
A combinação necessária envolve estabilização macro (redução de juros via inflação controlada), reformas no desenho e na transparência do crédito e educação financeira aplicada para priorizar decisões de alto impacto.
Como o consumidor fica informado sobre pendências no CPF?
É recomendável rotina de verificação em consultas a cadastros e atenção a comunicações das empresas credoras; a falta de monitoramento é um problema reconhecido nas fontes citadas.




