- Conflitos globais em 2025 elevam preços de energia e commodities, aumentando volatilidade no comércio e pressão inflacionária no Brasil.
- Pesquisa indica que 72% dos brasileiros veem forte influência desses conflitos sobre a economia; relatório do WEF aponta “conflito armado entre Estados” como risco mais urgente.
- A Política Nacional de Defesa 2025 reforça preocupações sobre soberania, infraestrutura crítica e preparação para ameaças regionais.
- O país pode aproveitar oportunidades em segurança alimentar e energia, desde que combine diplomacia pragmática com previsibilidade econômica e reformas internas.
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Política internacional: como conflitos globais afetam o Brasil na economia real
A política internacional e como conflitos globais afetam o Brasil deixou de ser um tema distante de chancelerias e passou a entrar, com força, no bolso do contribuinte e na rotina das famílias. Em 2025, guerras e tensões geopolíticas — da Ucrânia ao Oriente Médio, passando pela rivalidade entre Estados Unidos, China e Rússia — pressionam preços de energia e commodities, elevam a volatilidade do comércio e trazem alertas sobre soberania e segurança no entorno regional. Ao mesmo tempo, abrem espaço para oportunidades diplomáticas e comerciais em um mundo mais fragmentado, onde as regras do jogo internacional parecem menos previsíveis.
Essa percepção não é apenas de especialistas. Pesquisa citada por análises recentes indica que 72% dos brasileiros acreditam que conflitos internacionais influenciam muito a economia nacional, e 66% enxergam impactos significativos ( Ipsos/Ipec, conforme compilado em cobertura de cenário internacional em 2025). Em paralelo, o Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, coloca o conflito armado entre Estados como o risco mais urgente do ano — à frente até de temas como desinformação e polarização social, segundo a Agência Brasil ao repercutir o relatório e o próprio documento do WEF.
A pergunta central, portanto, não é se o Brasil será afetado, mas como e com quais instrumentos o país pode proteger interesses nacionais com realismo econômico, previsibilidade institucional e uma diplomacia que evite aventureirismo.
Energia e inflação: quando o mundo conflagra, o frete sobe e o supermercado sente
O primeiro canal de impacto é direto: preço. Conflitos e tensões elevam a percepção de risco, alteram rotas logísticas, encarecem seguros, afetam oferta e demanda de combustíveis e fertilizantes e, como efeito dominó, atingem alimentos e transporte. O Brasil, como grande produtor e exportador de commodities, pode até se beneficiar de picos de preços em determinados momentos — mas a volatilidade cobra um custo e tende a penalizar o consumidor doméstico, especialmente quando a alta se transmite para o custo de vida.
O conflito no Oriente Médio, agravado desde 2023, tem sido citado como fator que aumenta a insegurança sobre petróleo e gás, elevando a volatilidade dos preços internacionais e pressionando custos logísticos. Mesmo quando o Brasil não depende integralmente de importação de petróleo bruto, a dinâmica global influencia preços e expectativas, afetando diesel, aviação, transporte de cargas e, por consequência, o preço final de alimentos e bens industriais.
Esse encadeamento tende a ser mais sensível em economias emergentes. Quando a inflação global sobe e os juros internacionais permanecem elevados por mais tempo, o fluxo de capitais pode ficar mais seletivo, encarecendo crédito e reduzindo espaço fiscal. Em termos práticos: o custo de financiamento de empresas e do próprio Estado aumenta, e o ajuste recai sobre o contribuinte, seja por juros, seja por menor capacidade de investimento público.
Commodities agrícolas, fertilizantes e custo de produção
A guerra na Ucrânia segue como um dos principais vetores de instabilidade. Avaliações publicadas em portais especializados destacam que ela pressiona exportações e mexe com preços globais de grãos, energia e insumos — com reflexos sobre o Brasil, grande produtor agrícola, mas também dependente de cadeias internacionais de fertilizantes e logística. O resultado é um equilíbrio delicado: o agro pode obter receitas maiores em dólar em certos ciclos, enquanto o custo de produção sobe e o consumidor enfrenta repasses.
Aqui vale o alerta econômico: ganhos setoriais não significam ganho social automático. Se a alta de alimentos se reflete no índice de preços, o Banco Central tende a ser mais cauteloso; se os juros ficam mais altos por mais tempo, o investimento recua e o crescimento perde tração. O país, portanto, precisa de previsibilidade — e previsibilidade é justamente o que conflitos prolongados corroem.
Comércio exterior e fragmentação: regras mais fracas, mais incerteza
Outro ponto sensível é o enfraquecimento da governança comercial. A Política Nacional de Defesa revisada em 2025 menciona tensões entre grandes potências e o enfraquecimento das regras da OMC, sinalizando um ambiente em que barreiras podem surgir com mais facilidade e disputas comerciais podem se intensificar. Quando regras multilaterais perdem força, aumenta o risco de decisões unilaterais, sanções, tarifas e exigências técnicas que funcionam como protecionismo.
Para um país que depende de exportações de commodities e busca ampliar participação em cadeias de valor, isso importa. Sem uma ordem comercial confiável, empresas planejam menos, investem menos e diversificam cadeias para reduzir exposição — o que pode deixar países fora do “núcleo” de confiança tecnológica em posição desfavorável.
Principais conflitos e tensões em 2025: o que muda para o Brasil
O cenário descrito por diferentes análises de 2025 converge em um diagnóstico: há mais instabilidade, mais competição por recursos e menos cooperação internacional. A seguir, os focos mais citados e seus efeitos prováveis.
Guerra na Ucrânia: neutralidade sob pressão e efeitos em energia e alimentos
A guerra no Leste Europeu continua influenciando preços de energia e alimentos, além de reorganizar alianças. Conforme análises de política internacional sobre 2025, a postura de neutralidade do Brasil é coerente com uma tradição diplomática de não alinhamento automático, mas pode ser questionada por países do Ocidente; ao mesmo tempo, a Rússia busca reforçar laços com o Sul Global.
Para o Brasil, o desafio é manter o pragmatismo: defender princípios, proteger canais de comércio e, sobretudo, evitar que escolhas diplomáticas gerem custo econômico desnecessário — como restrições comerciais indiretas, perda de acesso a mercados ou menor apetite de investimento. A neutralidade só funciona se acompanhada de clareza institucional e consistência: o país precisa ser previsível, respeitar contratos e preservar um ambiente de negócios confiável.
Israel-Palestina e o Oriente Médio: energia, logística e cadeias de suprimentos
No Oriente Médio, a escalada do conflito desde 2023 adiciona risco ao mercado de energia, com ramificações sobre o custo de transporte marítimo e seguro. Para o Brasil, o efeito não é apenas no preço do combustível. Há repercussões em fertilizantes, em importações industriais e no custo de exportar, sobretudo quando rotas ficam mais caras ou mais lentas.
Em um mundo no qual logística se torna arma estratégica, países exportadores precisam de redundância e eficiência interna. Isso recoloca na pauta brasileira temas como infraestrutura, simplificação regulatória e melhoria do ambiente de negócios — agendas que não dependem do exterior e fortalecem a resiliência nacional.
Rivalidade EUA–China–Rússia: fragmentação, tecnologia e investimentos
A competição entre Estados Unidos, China e Rússia é talvez o eixo mais estruturante. Ela envolve tecnologia, comércio, segurança e influência regional. Crises internas nos EUA, como polarização e desafios migratórios, podem reduzir previsibilidade de liderança e aumentar incerteza econômica global, afetando países dependentes de comércio e investimentos, como o Brasil.
Além disso, a redistribuição de poder, com maior centralidade de Índia e China, muda o centro de gravidade econômico e diplomático. Para o Brasil, isso significa oportunidades — mas também escolhas: como diversificar parceiros sem abrir mão de padrões mínimos de governança, segurança jurídica e acesso a tecnologia?
O risco aqui é cair em dependência excessiva de um único destino de exportação ou de um único fornecedor tecnológico. Um país com vocação de potência agrícola e energética precisa também de uma estratégia industrial e tecnológica compatível com o século XXI — e isso passa por educação, inovação e estabilidade regulatória, não por improviso.
Segurança e soberania: por que a Defesa entrou no debate público
Um dos pontos mais relevantes de 2025 é a entrada do tema da segurança internacional no debate brasileiro com mais objetividade. A Política Nacional de Defesa revisada em 2025, segundo reportagens que repercutiram o documento, destaca:
- tensões entre grandes potências (EUA, China e Rússia);
- disputas por recursos na América Latina e na África;
- aumento global de gastos militares;
- maior instabilidade no entorno do Brasil;
- necessidade de preparo para ameaças externas e de inibir ameaças à soberania.
Esse conjunto de alertas não significa previsão de conflito imediato no território brasileiro, mas indica que o ambiente internacional está menos previsível. Em cenário de fragmentação, conflitos “regionais” podem ter efeitos globais — e o Brasil não está imune a impactos em fronteiras, crimes transnacionais, pressões sobre Amazônia e rotas estratégicas, além de crises humanitárias.
Do ponto de vista de responsabilidade fiscal, a discussão é sensível: defesa custa caro, e o orçamento é finito. O equilíbrio necessário é entre capacidade mínima crível (dissuasão, vigilância, tecnologia, inteligência, proteção de infraestruturas críticas) e gasto eficiente, com metas, auditoria e resultados. Segurança nacional não pode virar pretexto para desperdício; mas também não pode ser tratada como tema secundário em um mundo mais duro.
O que a opinião pública percebe — e por que isso importa
A percepção de que conflitos internacionais mexem com a vida do brasileiro aparece em pesquisas citadas por análises de 2025: 72% dizem que influenciam muito a economia, e 66% veem impactos significativos ( Ipsos/Ipec ). Esse dado é relevante por duas razões:
- Pressão por respostas: governos são cobrados quando o preço sobe, mesmo que a causa seja externa. Isso exige comunicação transparente e políticas domésticas consistentes para reduzir vulnerabilidades.
- Risco de simplificações: em tempos de tensão, cresce a tentação de soluções fáceis — controles artificiais, voluntarismo, “culpar o exterior” por problemas internos. A melhor defesa do consumidor é produtividade, previsibilidade e concorrência, não atalhos.
O Global Risks Report 2025 aponta o conflito entre Estados como risco mais urgente para 2025, projetando turbulência até 2035 por fragmentação da cooperação internacional.
A leitura prática, para o Brasil, é: o mundo deve continuar instável, e planejar com prudência será obrigatório.
Oportunidades para o Brasil em um mundo fragmentado: diplomacia, comércio e pragmatismo
Instabilidade não é só ameaça; pode ser oportunidade para países capazes de oferecer segurança alimentar, energia e previsibilidade. O Brasil tem vantagens naturais e produtivas, mas precisa combiná-las com estratégia.
Análises sobre o cenário de 2025 destacam que o Brasil pode atuar como mediador em soluções multilaterais, fortalecendo alianças regionais e sua diplomacia para proteger interesses em energia, alimentos e tecnologia. Essa mediação, porém, só ganha credibilidade quando acompanha coerência interna: respeito a contratos, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e política externa que evite oscilações bruscas.
Mediação e multilateralismo com os pés no chão
O Brasil tem tradição de diálogo e participação em fóruns multilaterais. Em um mundo com regras mais fracas, manter pontes pode ser útil. Mas “ser ponte” não significa relativizar interesses nacionais. Um caminho prudente inclui:
- defender a integridade do comércio internacional, com previsibilidade e redução de barreiras;
- priorizar acordos que tragam ganhos concretos (investimento, tecnologia, acesso a mercados);
- preservar autonomia decisória sem adotar alinhamentos automáticos que gerem custo ao país.
Fortalecer a região: segurança e integração econômica
Se documentos de defesa apontam risco de conflitos regionais e disputas por recursos, faz sentido reforçar mecanismos de cooperação no entorno. Isso envolve integração econômica, infraestrutura fronteiriça, combate ao crime transnacional e coordenação diplomática. Segurança regional também é ambiente de negócios: fronteiras frágeis e rotas inseguras elevam custo e reduzem competitividade.
Resiliência econômica: menos vulnerabilidade, mais competitividade
Conflitos globais expõem fragilidades. Para reduzir impacto no Brasil, algumas linhas de ação são quase consensuais no debate econômico responsável:
- diversificar mercados de exportação e reduzir dependência de poucos compradores;
- melhorar infraestrutura logística (portos, ferrovias, armazenagem);
- ampliar acesso a insumos estratégicos e buscar alternativas para fertilizantes e tecnologia;
- manter a política macroeconômica previsível, com âncora fiscal crível e combate firme à inflação.
Essas medidas não eliminam choques externos, mas diminuem sua capacidade de virar crise doméstica.
O dilema da neutralidade: equilíbrio entre tradição e assertividade
A neutralidade brasileira em conflitos, apontada por análises sobre a guerra na Ucrânia, dialoga com uma tradição diplomática de busca por diálogo. Ainda assim, o cenário atual pressiona países a “tomarem lado” em disputas estratégicas, sobretudo quando tecnologia, sanções e cadeias produtivas entram em jogo.
O ponto central, para o Brasil, é evitar duas armadilhas:
- Neutralidade passiva: ficar em cima do muro sem estratégia, perdendo credibilidade e oportunidades.
- Alinhamento automático: escolher um bloco sem contrapartidas claras, sacrificando autonomia e mercados.
Uma postura compatível com interesses nacionais tende a combinar princípios (direito internacional, solução negociada) com pragmatismo: proteger comércio, energia, insumos e acesso a tecnologia, sem retórica desnecessária.
O que observar daqui para frente
Para acompanhar como a política internacional e como conflitos globais afetam o Brasil nos próximos meses, alguns indicadores merecem atenção:
- Preço internacional do petróleo e seus reflexos no diesel (impacto direto em frete e alimentos);
- volatilidade de grãos e fertilizantes, com reflexos na produção agrícola;
- evolução de sanções e disputas comerciais entre grandes potências, afetando cadeias globais;
- sinais de enfraquecimento adicional da governança comercial (OMC) e aumento do protecionismo;
- implementação prática de diretrizes da Política Nacional de Defesa 2025, especialmente em vigilância e proteção de infraestruturas críticas.
Em um mundo com mais competição e menos confiança, o país que melhor protege sua população é o que combina diplomacia profissional, estabilidade macroeconômica, respeito às instituições e reformas que aumentem produtividade.
Conclusão
A escalada de guerras e tensões em 2025 mostra, com nitidez, que o Brasil não vive em uma bolha. Conflitos globais afetam o Brasil sobretudo pelo canal econômico — energia, alimentos, logística, investimentos — e também por riscos de soberania e instabilidade regional, como alertam análises e documentos de defesa repercutidos neste ano. A resposta mais responsável não é alarmismo nem improviso: é fortalecer a resiliência interna, preservar o equilíbrio fiscal, garantir segurança jurídica e exercer uma diplomacia pragmática que proteja interesses nacionais sem radicalismos.
O mundo pode seguir turbulento até a próxima década, como sugerem relatórios internacionais e o debate público. Resta saber se o Brasil escolherá o caminho da previsibilidade, do planejamento e da eficiência — ou se continuará reagindo aos choques externos apenas quando o impacto chega ao preço do supermercado.
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