TSE quer “censura prévia” contra críticas às urnas em 2026 — e a democracia brasileira paga a conta
Entre o avanço de resoluções ambíguas do Tribunal Superior Eleitoral, o cancelamento de uma visita politicamente simbólica de Tarcísio a Jair Bolsonaro e a “caminhada” de Nicolás Ferreira ganhando corpo, o Brasil entra em 2026 com um problema central: o poder não quer ser questionado — quer ser obedecido.
Introdução
O Brasil está se acostumando ao inaceitável. E quando o inaceitável vira rotina, a democracia deixa de ser um regime político e passa a ser um termo decorativo — útil apenas para discursos oficiais e para enquadrar adversários.
Nos últimos dias, três episódios se cruzaram e revelam uma mesma dinâmica: instituições e lideranças se movem para controlar o debate público, enquanto parte da oposição hesita, calcula ou recua. O resultado é um ambiente em que a crítica vira “ataque”, a cobrança vira “extremismo” e a divergência vira “crime digital”.
Minha posição é clara: não existe democracia sem o direito de questionar — inclusive (e principalmente) o sistema eleitoral, desde que sem violência e com argumentos. Transformar o tema em tabu é a senha clássica do autoritarismo.
O TSE e a tentação da “lei por resolução”: quem define o que é “ataque às urnas”?
O Tribunal Superior Eleitoral sinaliza a intenção de obrigar plataformas a removerem conteúdos que “ataquem o sistema eletrônico de votação” mesmo sem ordem judicial, sob o guarda-chuva das resoluções para as eleições de 2026.
Aqui está o nó: o que é “ataque”?
Uma crítica técnica? Um questionamento sobre auditoria? Uma defesa do voto impresso? Uma denúncia? Um debate acadêmico?
Quando o critério é elástico, a aplicação vira política.
“A urna eletrônica se tornou uma nova ‘arca da aliança’: não pode tocar, não pode questionar, ou vira crime.”
O problema não é apenas de liberdade de expressão. É institucional: resolução não pode virar atalho para legislar. A Justiça Eleitoral tem atribuições administrativas e regulatórias do processo — mas quando entra no terreno da censura de conteúdo por conceito vago, o risco de abuso não é uma hipótese: é uma probabilidade.
“Interpretação” virou poder ilimitado
A própria justificativa — “não podemos avançar além da lei, mas podemos interpretar” — é exatamente o tipo de raciocínio que, na prática, permite avançar além da lei.
E aqui mora o ponto essencial: democracia não é ausência de crítica; é convivência com crítica. Se o sistema é confiável, ele aguenta escrutínio. Se ele não aguenta debate, algo está profundamente errado — ou alguém quer impedir que se descubra.
Tarcísio, Bolsonaro e a política do gesto: quando a ausência fala mais do que a presença
Outro episódio expõe a fragilidade da coordenação no campo conservador: Tarcísio de Freitas teria cancelado uma visita a Jair Bolsonaro, mesmo após autorização judicial e após declarar publicamente que iria “visitar um amigo” e “manifestar apoio”.
O cancelamento com justificativa genérica (“compromissos”) e sem transparência clara na agenda pública gerou a crise óbvia: por que recuar justamente quando o gesto teria valor político máximo?
Em política, sinais importam. E o recado emitido — intencionalmente ou não — é que o compromisso com Bolsonaro tem condicionantes, ou que há medo de vinculação.
Isso não é “dividir a direita”. É apontar um fato: ambiguidade em ano pré-eleitoral custa caro.
O eleitor não exige unanimidade; exige clareza. E, hoje, o que se vê é um movimento perigoso: o campo conservador quer união, mas parte das lideranças quer união sem cobrança — o que, na prática, é submissão.
A “caminhada pela liberdade” de Nicolás Ferreira: a rua volta a existir apesar do cerco
Enquanto Brasília debate censura por resolução e a direita discute hesitações internas, Nicolás Ferreira iniciou uma caminhada rumo a Brasília, com foco em liberdade, críticas a prisões e apoio a Bolsonaro.
O fato político não é apenas o ato em si — é o que ele desencadeou: adesão crescente, deputados e figuras públicas se juntando, visibilidade forçada na imprensa e um elemento que o sistema teme: mobilização orgânica.
A grande imprensa, inclusive, muda o vocabulário quando é obrigada a cobrir algo que cresce: sai o clichê automático do “ato antidemocrático” e entra a moldura mais neutra de “mobilização política”. Não é boa vontade. É pragmatismo diante do tamanho.
E aqui está a lição: o poder pode controlar muitas coisas, mas tem dificuldade de controlar uma imagem viral de povo caminhando, caminhoneiro buzinando, apoio espontâneo, adesão crescente.
O caso do “resort com cassino” e a degradação moral das instituições
Há ainda um pano de fundo corrosivo: denúncias jornalísticas sobre empreendimentos e relações envolvendo figuras do topo do sistema, com menções a resort, estrutura de luxo e presença de jogos (cassino/caça-níquel). O ponto, aqui, não é antecipar culpa de ninguém — é olhar o efeito político.
Quando a sociedade percebe que:
- para alguns há sigilo, blindagem e narrativa protetora;
- para outros há punição, censura e enquadramento por conceito vago;
…o resultado é a implosão da credibilidade institucional.
Não se sustenta “defesa da democracia” com dois pesos e duas medidas.
Key Highlights
- Resoluções do TSE para 2026 indicam impulso de remoção de conteúdo sobre urnas com conceitos vagos como “ataque” — risco de censura e arbitrariedade.
- Crítica ao sistema eleitoral tende a ser tratada como tabu, substituindo debate público por punição.
- Tarcísio recua de visita a Bolsonaro, gesto que amplia suspeitas de ambiguidade política em momento decisivo.
- Caminhada de Nicolás Ferreira mostra capacidade de mobilização e muda o enquadramento midiático pela força do fato.
- Clima institucional é de assimetria: uns são blindados, outros são silenciados — e isso alimenta descrença generalizada.
Conclusão
O Brasil de 2026 não enfrenta apenas uma disputa eleitoral. Enfrenta uma disputa mais profunda: quem tem o direito de falar, de criticar, de questionar e de organizar-se politicamente.
Quando um tribunal flerta com a remoção de conteúdo por “interpretação” de termos vagos, quando lideranças calculam gestos óbvios por medo de custo, e quando a sociedade recorre à rua para existir, o diagnóstico é duro: há um projeto de controle do debate público em andamento.
Democracia não é unanimidade. Democracia é conflito regulado por leis claras — não por conceitos nebulosos aplicados conforme conveniência.
CTA
O que você pensa sobre a tentativa de enquadrar críticas às urnas como “ataque” em 2026? E sobre o recuo de Tarcísio na visita a Bolsonaro?
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