Liquidação do Banco Master: depoimento de Vorcaro à Polícia Federal

Liquidação do Banco Master
Foto: Divulgação - Banco Master

Destaques

  • Daniel Vorcaro admitiu problemas de liquidez e dependência do Fundo Garantidor de Crédito como “modelo de negócio”, segundo depoimento à Polícia Federal.
  • O Banco Central liquidou o Banco Master em novembro de 2025, citando falta de liquidez, violações graves, gestão temerária, fraude contábil e operações simuladas.
  • Há suspeitas sobre operações com a empresa Tirreno, incluindo compra de carteiras de consignado possivelmente falsas e negociações envolvendo o BRB.
  • O Fundo Garantidor de Crédito iniciou ressarcimentos em 19 de janeiro de 2026, com cerca de 600 mil pedidos de credores; debate público cita impacto potencial e motiva revisão de incentivos regulatórios.

Tempo de leitura estimado: 8 minutos

Análise da liquidação do Banco Master: o que aconteceu e por que o Banco Central liquidou a instituição

A liquidação do Banco Master foi determinada pelo Banco Central em novembro de 2025. O supervisor entendeu que a instituição não tinha condições de seguir operando sem comprometer o sistema e os credores. O BC justificou a decisão citando um conjunto de razões: falta de liquidez, violações graves às normas financeiras, gestão temerária, fraude contábil e operações simuladas, conforme reportagens e transcrições do depoimento.

Esses termos importam do ponto de vista do contribuinte e do funcionamento do mercado:

  • Falta de liquidez: pode derrubar um banco se ele não consegue honrar saques e vencimentos no curto prazo.
  • Gestão temerária e violações graves: indicam falhas de governança e controles internos.
  • Fraude contábil e operações simuladas: se confirmadas, sugerem distorções deliberadas de informação, afetando supervisão e decisões de investimento.

No depoimento à PF, Vorcaro tentou caracterizar a crise como

“momentânea, e não estrutural”

afirmando que o banco honrou compromissos até 17 de novembro de 2025 e que a deterioração de liquidez teria sido agravada por mudanças em regras do FGC, segundo reportagens.

A controvérsia envolve também a forma de financiamento do banco, a qualidade dos ativos e o papel do FGC na estratégia de captação.

Depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal: liquidez, críticas ao BC e aportes pessoais

No depoimento de dezembro de 2025, Daniel Vorcaro afirmou que a crise de liquidez teria sido conjuntural e relacionada a mudanças no ambiente de captação, com impacto direto das regras do FGC. Ele criticou o Banco Central por suposto escrutínio excessivo e mencionou divergências internas no regulador entre áreas que defendiam uma “solução de mercado” e outras que optaram pela liquidação, o que teria inviabilizado negociações.

Elementos específicos citados nas reportagens:

  • Aporte pessoal: Vorcaro disse ter colocado cerca de R$ 6 bilhões do próprio patrimônio para sustentar o banco.
  • Redução da originação: relatou ter reduzido a originação de crédito de R$ 400–500 milhões por mês para preservar caixa, após comunicação do BC em novembro de 2024.

A alegação de aporte pessoal aponta para tentativa de conter danos; a redução de originação sugere percepção antecipada de pressão sobre a liquidez, reforçando a importância de limites prudenciais. Contudo, elemento central do depoimento é a dependência do FGC.

O papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC): garantia legítima, uso como “modelo” e riscos de incentivos

Segundo reportagens e trechos de depoimento, o Banco Master teria operado com um modelo descrito como

“100% baseado no FGC”

, usando a garantia de até R$ 250 mil por CPF/CNPJ para atrair investidores, mesmo com ativos ilíquidos, como carteiras “fabricadas” e precatórios.

O FGC reduz corridas bancárias e protege pequenos depositantes, mas o caso Master reacende um dilema: quando existe garantia, aumenta o incentivo à tomada de risco se não houver controles rígidos, porque parte do mercado enxerga o produto como “quase soberano”.

E o “impacto de R$ 50 bilhões” no Fundo Garantidor de Crédito?

A cifra de R$ 50 bilhões circula no debate público, mas as reportagens não confirmam um impacto específico nesse valor. Há indicação de prejuízos bilionários ao sistema financeiro e menção à fraude envolvendo Tirreno/BRB e a liquidação, mas é preciso separar o custo efetivo ao fundo do volume total de passivos problemáticos.

A auditoria, liquidação e investigação devem distinguir: (1) o que será ressarcido pelo FGC dentro do limite garantido; (2) o que ficará sujeito ao processo de liquidação; (3) o que, se houver fraude, poderá ser objeto de ações de responsabilização.

Esquema com a empresa Tirreno: suspeita de “empresa de fachada” e carteiras de consignado

Trechos do depoimento e análise de vídeo indicam que a empresa Tirreno teria sido considerada uma empresa de fachada criada por pessoas ligadas ao grupo Master. O Banco Master teria comprado da Tirreno carteiras de crédito consignado que depois teriam sido vendidas ao BRB em operação bilionária, gerando suspeitas de fraude.

Reportagens também apontam fragilidades de controles internos durante negociações com o BRB, com menções a emissões de títulos sem lastro.

Por que carteiras de consignado são tão relevantes nessa história?

Crédito consignado costuma ser tratado como ativo de risco relativamente baixo por ter desconto em folha/benefício, o que o torna atraente para securitizações, cessões e funding. Carteiras consignadas “falsas” ou inconsistentes podem transformar um lastro considerado seguro em um buraco contábil, comprometendo instrumentos como CCBs e cessões.

O caso envolve emissão de CCBs, cessão de ativos e originadores terceirizados — práticas usuais no mercado, mas que exigem controles rigorosos para evitar simulações e circularidade de ativos.

Negociações com o BRB e as conversas com Ibaneis Rocha: dimensão política e risco institucional

Vorcaro confirmou conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda do Master ao BRB, ocorridas entre 2024 e 2025, segundo depoimento repercutido em vídeo e reportagens. As negociações teriam sido discutidas em residências em Brasília.

O material indica que a negociação foi construída tecnicamente dentro do BC, mas expôs irregularidades no BRB, incluindo emissão de títulos sem lastro, o que levou a afastamentos e alertas de autoridades.

O ponto crítico é preservar a separação entre o papel técnico do regulador, a atuação de bancos públicos/regionais e a responsabilização individual caso investigações apontem irregularidades.

O ponto central: liquidez não nasce do FGC — nasce de ativos bons, governança e transparência

Um banco não se sustenta apenas com funding garantido; precisa de ativos líquidos e confiáveis e de controles internos que impeçam fraudes e operações simuladas. Dependência excessiva de um mecanismo de garantia como o FGC torna a instituição vulnerável a mudanças de regra, humor de mercado ou incremento do escrutínio regulatório.

O descompasso entre prazos também é crítico: captar em instrumentos de curto prazo e investir em ativos ilíquidos (precatórios, carteiras difíceis de validar) expõe a instituição a choques que podem levar à incapacidade de honrar compromissos.

O que permanece em aberto: investigação, responsabilização e efeitos sobre regulação

Com base no que foi publicado, há questões objetivas que devem orientar os próximos capítulos:

  1. Qual foi a extensão real das “operações simuladas” e da “fraude contábil” citadas pelo BC?
  2. O que, exatamente, a Tirreno vendeu ao Master e como isso foi parar em operações com o BRB?
  3. Houve falha de governança e compliance compatível com “gestão temerária”?
  4. Como o FGC absorverá o episódio e que lições regulatórias surgirão?
  5. Quais serão os efeitos institucionais das tratativas envolvendo o governador do DF e o BRB?

Conclusão: entre a proteção ao poupador e o dever de disciplina de mercado

A análise da liquidação do Banco Master destaca o equilíbrio entre proteger o pequeno investidor (função do FGC) e preservar a disciplina de mercado, para que garantias não substituam governança e ativos de qualidade. O depoimento de Daniel Vorcaro e os apontamentos do Banco Central colocam o caso em um nível que exige investigação minuciosa e responsabilização.

Os próximos passos devem seguir três trilhos: (1) apuração técnica com transparência; (2) proteção efetiva dos credores dentro das regras; (3) correção de incentivos regulatórios para evitar repetição. Sem clareza sobre o que foi falha, fraude ou risco assumido, o custo será pago em confiança — um ativo caro para o sistema financeiro.

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Fontes e Referências

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Marco Antonio Costa

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