Destaques
- O Banco Central manteve a Selic em 15% em 28 de janeiro de 2026; mercado projeta cortes a partir de março, dependendo de sinais fiscais.
- Projeções para a Selic no fim de 2026 variam entre 11% e 13,25%, refletindo diferenças em inflação, prêmio de risco e trajetória fiscal.
- Um início de cortes em março funciona como teste: o ciclo só será sustentado se expectativas, câmbio e curva longa reagirem positivamente.
- O risco fiscal é a variável crítica: sem sinal fiscal crível, a queda da Selic pode ser parcial ou interrompida.
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Nesta matéria
- Banco Central pode reduzir Selic: por que o “sim” depende do fiscal e da credibilidade
- O que o Copom sinaliza ao manter a Selic em 15% em janeiro de 2026
- Cenários de mercado: de 11% a 13,25% no fim de 2026
- O que muda na economia se a Selic cair a partir de março
- O fiscal como variável de controle
- Eleição em 2026 e a curva de juros
- Por que março é mais do que uma data
- O que observar para saber se o ciclo é sustentável
- Consequências institucionais
- Síntese
- Fontes e Referências
- Perguntas Frequentes
Banco Central pode reduzir Selic: por que o “sim” depende do fiscal e da credibilidade
O Banco Central pode reduzir a Selic a partir de março de 2026, segundo projeções predominantes de analistas e instituições financeiras, após a manutenção da taxa em 15% na reunião de 28 de janeiro de 2026. O ponto central não é apenas quando o corte começa: é quais condições institucionais permitem que ele continue sem reverter expectativas de inflação e quanto do alívio nos juros depende de uma sinalização fiscal crível.
O mercado migrou de expectativa de corte imediato para um compasso de espera com março como marco provável. Essa opção reflete uma lógica de preservação de credibilidade: depois de um ciclo de aperto que reancorou expectativas, o BC tende a preferir prudência diante de risco fiscal.
“não corta juros para atender pressão”
A liderança do BC sob Gabriel Galípolo é citada como fator de credibilidade, descrita por algumas reportagens como capaz de consolidar um “choque de credibilidade” após expansão fiscal no início do terceiro mandato. Na prática, credibilidade reduz o prêmio de risco exigido para financiar o Brasil; sem ela, juros longos sobem, câmbio piora e o BC perde margem de manobra.
O que o Copom sinaliza ao manter a Selic em 15% em janeiro de 2026
A manutenção em 15% na reunião de 28 de janeiro é um recado de dois níveis:
- Nível técnico: indica que ainda há riscos — internos ou externos — para não iniciar o ciclo imediatamente, refletindo cautela com a velocidade de desinflação, expectativas ou condições financeiras globais.
- Nível institucional: em ambiente fiscal sensível, manter por mais tempo funciona como seguro reputacional; cortar cedo e depois reverter pode reduzir previsibilidade.
O efeito prático desse atraso é mais tempo de custo financeiro elevado para famílias, empresas e Tesouro. O contraponto é que a espera pode melhorar ancoragem de expectativas e reduzir turbulência em juros longos e câmbio quando o corte ocorrer.
Cenários de mercado: de 11% a 13,25% no fim de 2026 (e o que esses números significam)
As projeções para a Selic no fim de 2026 variam por premissas sobre (i) velocidade de convergência da inflação, (ii) comportamento fiscal e (iii) prêmio de risco no segundo semestre. Entre as estimativas reportadas:
- 11,50%: projeção do JP Morgan e do Banco Pine (com cortes sequenciais).
- 12,00%: Bradesco.
- 12,25%: Boletim Focus, Itaú (início sugerido em 0,25 p.p. em março), Rio Bravo.
- 12,50%: XP (com sequência de cortes de 0,50 p.p. até setembro).
- 13,25%: Blue3.
- Hipótese mais agressiva: 11% ao fim do ano, atribuída a Bruno Serra, da Itaú Asset, em reportagem.
Tradução institucional desses intervalos
Um fim de 2026 em 13,25% sugere alívio parcial, possivelmente porque risco fiscal e/ou expectativas não cederam. Um fim entre 11%–11,5% indica melhora inflacionária e compressão do prêmio de risco — o que normalmente depende de sinais fiscais críveis.
A dispersão mostra que o mercado está precificando múltiplos cenários possíveis para o segundo semestre de 2026.
O que muda na economia se a Selic cair a partir de março
A Selic é o preço-base que organiza crédito, custo de capital, remuneração de títulos públicos e precificação do risco. Quando começa um ciclo de cortes, os efeitos são assimétricos no tempo e por segmento.
1) Crédito: o alívio não é instantâneo — e não é igual para todos
Mesmo com corte na Selic, o juro final ao consumidor depende de spread bancário, inadimplência, competição e custo de captação dos bancos. O crédito melhora primeiro para quem já tem acesso (empresas maiores, linhas com garantia). Para consumidores de maior risco, o spread tende a permanecer elevado; cortar Selic melhora o ambiente, mas não resolve crédito caro sozinho.
2) Atividade: a desaceleração pode ser administrada, mas não eliminada
Moderação da atividade pode abrir espaço para cortes porque reduz pressões inflacionárias. Para governo e setor privado, porém, é o custo do aperto: menos investimento e consumo financiado. Um ciclo bem comunicado reduz risco de “pouso duro”, mas o BC precisa calibrar o ritmo para não reacender inflação via demanda ou câmbio.
3) Dívida pública: a conta de juros pode aliviar — mas o risco fiscal pode anular o ganho
Juros altos afetam a dinâmica da dívida. Se a Selic cai, a trajetória de gasto com juros pode melhorar — com uma condição: o prêmio de risco não pode subir. O BC controla a Selic curta; o fiscal influencia fortemente a curva longa. Se a curva longa não acompanha, o estímulo é menor e o Tesouro não colhe todo o benefício.
4) Câmbio e inflação: o canal externo pode impor limite ao corte
Um ambiente externo favorável — dólar estável e expectativa de cortes pelo Fed — aumenta o espaço para o BC reduzir a Selic. Os riscos são: (i) o Fed não cortar como esperado; (ii) piora fiscal doméstica que deprecie o real. Câmbio fraco tende a contaminar preços e limitar cortes.
O fiscal como variável de controle: por que a trajetória de juros pode virar refém do Orçamento
Fontes destacam a dependência do ciclo de cortes em relação à disciplina fiscal. Fiscal crível não é discurso: envolve metas factíveis, execução que não dependa de receitas extraordinárias, controle do crescimento de despesas obrigatórias e transparência contábil.
Medidas vistas como temporárias ou criativas elevam o prêmio de risco, que aparece antes em câmbio e juros longos. Há debate sobre “quanto ajuste basta”: algumas avaliações citam hipótese de ajuste de 1,5 ponto percentual que, teoricamente, poderia permitir Selic próxima de ~8% dependendo do rumo pós-eleição; outras consideram 1,5 p.p. insuficiente.
Eleição em 2026 e a curva de juros: o mercado precifica governança futura, não intenção presente
O resultado eleitoral no fim de 2026 será decisivo para saber se o fiscal permitirá continuar os cortes. O mercado tenta responder se haverá compromisso com regras fiscais, previsibilidade suficiente para reduzir prêmio de risco e disposição institucional para enfrentar despesas rígidas.
Com incerteza, o BC pode iniciar cortes, mas com ritmo mais lento, linguagem condicional e disposição para interromper o ciclo se expectativas se desancorarem — o que significa menos crescimento via crédito e investimento e mais custo de juros para o Tesouro.
Por que março é mais do que uma data: é um teste de reação, não uma promessa
A expectativa de início em março indica que o BC quer verificar o cenário antes de agir. Implicações práticas:
- Empresas e consumidores podem errar o timing ao antecipar queda rápida para decisões de investimento e endividamento.
- O governo pode tentar politizar o corte; ruído político pode levar o BC a reforçar compromisso e o mercado a exigir prêmio adicional.
- O primeiro corte é um evento de sinalização: 0,25 p.p. ou 0,50 p.p. comunica graus diferentes de confiança do Copom.
O que observar para saber se o ciclo é sustentável (além do “vai cortar?”)
- Expectativas de inflação (horizontes de 12 a 24 meses): mais relevantes do que inflação passada.
- Curva de juros longos: queda conjunta indica que o mercado está comprando o cenário.
- Câmbio: depreciação persistente pressiona inflação e impõe freio.
- Sinais fiscais concretos: execução e qualidade das medidas, não apenas anúncios.
- Comunicação do BC: linguagem condicional (“se”, “caso”, “dependerá”) revela fragilidade do cenário.
Consequências institucionais: autonomia do BC, responsabilidade do Executivo e custo do ruído
A disputa sobre juros é também disputa sobre responsabilidades. O BC responde pela inflação; o Executivo e o Congresso respondem por orçamento e regras fiscais. Quando o fiscal piora, o custo surge como juros mais altos ou cortes mais lentos. Em termos de incentivos, isso cria risco de o governo tentar transferir o ônus ao BC, que, para se proteger, endurece comunicação e exige mais evidência.
O resultado possível é um equilíbrio ruim: juros mais altos por mais tempo, custo econômico real e ausência de enfrentamento das responsabilidades fiscais.
Síntese: por que o corte é provável — e por que o ritmo é a notícia principal
Com base nas informações reportadas, há cenário-base de manutenção em janeiro e início de cortes em março de 2026, com Selic terminando o ano entre 11,5% e 13,25%, dependendo do ritmo e, sobretudo, do fiscal.
O relevante não é apenas que o corte é provável, mas se o país combinar: desinflação e expectativas ancoradas; ambiente externo benigno; e um fiscal que não reintroduza prêmio de risco. Se essa combinação falhar, a Selic pode cair menos ou ser interrompida, deixando juros estruturalmente elevados por mais um ciclo político.
Fontes e Referências
- reportagem do InfoMoney sobre projeções da Selic em 2026
- reportagem do NeoFeed sobre a relação entre situação fiscal e cortes da Selic
A partir de março, o Copom terá de transformar expectativa em trajetória: o teste será se a queda de juros vem acompanhada de melhora consistente em expectativas, câmbio e curva longa — variáveis que reagem mais ao fiscal executado do que ao discurso. O Portal Fio Diário continuará acompanhando os comunicados do Copom, a evolução das projeções e os sinais fiscais que podem sustentar — ou interromper — um ciclo de queda da Selic.
Perguntas Frequentes
Quando devem começar os cortes da Selic?
As projeções predominantes apontam para início em março de 2026, após a manutenção em 28 de janeiro.
Quanto dependerá do fiscal?
Muito. A continuidade e a profundidade do ciclo de cortes dependem de sinais fiscais críveis que comprimam o prêmio de risco e permitam queda da curva longa.
O que indica que o ciclo é sustentável?
Queda coordenada das expectativas de inflação, da curva de juros longos e estabilidade do câmbio, além de medidas fiscais com execução e transparência.




