Diamante Energia e Kassab: contratos bilionários e riscos institucionais

Diamante Energia e Kassab
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Diamante Energia e Kassab: contratos bilionários e riscos institucionais

Destaques

  • Diamante Energia controla os complexos termelétricos Jorge Lacerda (740 MW) e Energia Pecém (720 MW), com contratos de longo prazo que podem gerar receitas bilionárias.
  • Contrato para o Jorge Lacerda foi reportado como cerca de 62% acima do preço médio, com potencial de até R$ 1,89 bilhão por ano até 2040.
  • A conexão familiar com Pedro Grünauer Kassab (sobrinho de Gilberto Kassab) eleva o padrão de escrutínio, embora não comprove, por si só, influência política.
  • A aquisição da participação remanescente do Pecém e parcerias com capital estrangeiro (Nebras/QWEC) mudam controle e perfil de risco dos ativos.

Tempo de leitura estimado: 6 minutos


O que é, de fato, a Diamante Energia e quais ativos estão no centro do negócio

A Diamante Energia é identificada nas comunicações corporativas como operadora e controladora de dois complexos termelétricos relevantes no Brasil: o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (CTJL), em Santa Catarina, com 740 MW de capacidade instalada, e a Energia Pecém, no Ceará, com 720 MW.

Termelétricas oferecem capacidade firme importante para a segurança do sistema, mas também dependem de contratos de suprimento e de regras regulatórias que podem socializar custos via tarifa. A composição de combustível (carvão, gás) e os contratos de longo prazo tornam esses ativos sensíveis do ponto de vista de governança e precificação.

A associação da empresa a Pedro Grünauer Kassab — apontado por reportagens como sobrinho de Gilberto Kassab, presidente do PSD — elevou questionamentos públicos sobre risco institucional. A existência de vínculo familiar, porém, não prova influência política por si só; o que muda é o nível de diligência exigível das autoridades regulatórias.

Onde está o dinheiro: contrato até 2040 e a lógica de receita recorrente

Fontes jornalísticas relataram que o Ministério de Minas e Energia (MME) aprovou um contrato para o Jorge Lacerda com preço reportado como cerca de 62% acima do preço médio de outras usinas, com potencial de R$ 1,89 bilhão por ano até 2040. Essa informação foi noticiada em reportagem da Gazeta do Povo.

A matéria cita que o MME baseou o cálculo em parâmetros legais (custos operacionais, combustível e remuneração de capital) e que a obrigatoriedade de contratação foi respaldada por legislação sancionada no governo passado. Para avaliar o mérito dessa precificação, seriam necessárias as notas técnicas e os atos integrais das entidades técnicas (EPE, Aneel, entre outras).

Perguntas centrais

  • Por que o contrato está 62% acima da média?
  • Qual é a base legal que permite prazos até 2040?
  • Qual o impacto sobre tarifa, concorrência e precedentes regulatórios?

O que muda em incentivos quando há contrato longo e preço acima da média

Contratos longos e preços elevados tendem a:

  • Reduzir o risco do investidor, ao garantir fluxo de caixa previsível.
  • Aumentar a rigidez do sistema, limitando espaço para concorrência de fontes alternativas no curto prazo.
  • Elevar o custo sistêmico se houver alternativas mais baratas disponíveis.
  • Criar precedentes para outros ativos pleitearem tratamento semelhante.

Nesse contexto, a discussão correta é sobre governança e accountability: transparência metodológica, análise de custo-benefício e salvaguardas institucionais devem estar disponíveis para avaliação pública.

Vínculo familiar, política e padrão de escrutínio

As fontes indicam que a ligação familiar motivou questionamentos, enquanto a empresa negou interferência na precificação. A distinção jornalística essencial é clara:

  • Vínculo familiar gera risco percebido e demanda maior transparência.
  • Afir­mar existência de influência política requer provas documentais específicas.

“A empresa negou interferência na precificação”, conforme reportado pela imprensa.

O teste institucional é se os procedimentos (consultas públicas, notas técnicas, declarações de impedimento) são suficientes para resistir a uma auditoria independente.

A compra da Energia Pecém: consolidação de ativo e reforço de posição em carvão

Segundo reportagem do Diário do Nordeste, a Diamante adquiriu os 20% restantes da Energia Pecém da EDP por R$ 200 milhões, passando a deter 100% do ativo. A operação exigiu análise e aprovação pelo Cade.

Assumir o controle integral altera a governança (sem minoritário com veto), concentra o fluxo de caixa e aumenta o risco reputacional ligado ao carvão. Grandes players tendem a vender ativos “marrom” como parte de estratégias de descarbonização, enquanto compradores podem apostar em contratos e capacidade firme.

Parceria com o Catar (Nebras Power/QWEC): capital estrangeiro e aposta em gás

Anúncios locais mencionaram uma joint venture com a Nebras Power, subsidiária da Qatar Electricity & Water Company (QWEC), visando projetos bilionários e uma nova unidade a gás de 440 MW no complexo Jorge Lacerda, conforme cobertura do Sul Agora.

A mudança de matriz do carvão para gás reduz emissões locais em tese, mas mantém dependência de combustível e logística. Parcerias com capital estrangeiro aumentam capacidade de investimento e acesso a financiamento, mas ampliam a necessidade de clareza regulatória sobre contratos e garantias.

Negociação citada com a Eletrobras: sinal de ambição e disputa por ativos

Uma publicação de mercado mencionou negociações de cerca de R$ 8 bilhões entre Diamante/QWEC e a Eletrobras, competindo com empresas como a Eneva. Essa apuração, feita pelo Relatório Reservado, deve ser tratada como sinal estratégico, não como fato concluído.

Se confirmada, a estratégia indica preferência por expansão via aquisições, o que implica maior pressão por transparência caso crescimento se apoie em contratos regulados ou em exceções legais.

O eixo jurídico-regulatório: “transição justa” como instrumento de extensão e custo

As reportagens conectam a extensão de operação de plantas a carvão até 2040 à legislação de Transição Energética Justa. Na prática, esse tipo de norma pode buscar amortecer impactos sociais e evitar choques de oferta, mas também pode transferir custos aos consumidores se resultar em contratação obrigatória a preços elevados.

O precedente é relevante: se um polo obtém contratação com preços superiores por lei, outros podem pleitear tratamento similar, o que altera disciplina tarifária e fiscal do setor.

O que não é possível concluir com as fontes disponíveis — e o que seria necessário para confirmação institucional

As fontes consultadas — majoritariamente reportagens e comunicados corporativos — permitem mapear ativos, aquisições e declarações públicas, mas não bastam para afirmar favorecimento ou irregularidade técnica. Para confirmar formalmente seria necessário acesso a:

  • Atos oficiais e notas técnicas integrais do MME, EPE e Aneel que sustentem preços e premissas.
  • Documentos da consulta pública (contribuições e respostas).
  • Decisões e votos do Cade no caso do Pecém.
  • Registros formais de governança: declarações de impedimento, agendas e comunicações oficiais.

Sem esses documentos, a distinção entre análise defensável e inferência arriscada não pode ser ultrapassada.

Quem ganha e quem paga: o mapa de custos e benefícios mais provável

Beneficiários diretos

  • Controladores e investidores: capturam fluxo de caixa previsível e valorização do ativo.
  • Regiões locais: manutenção de empregos e arrecadação.
  • Fornecedores de combustível e serviços: cadeia associada a carvão/gás e operação térmica.

Potenciais pagadores

  • Consumidores de energia, se o custo entrar na folha tarifária do sistema.
  • O sistema elétrico, pela perda de eficiência alocativa em cenário de renováveis mais baratas.

Risco reputacional e institucional

  • Governo e reguladores: decisões percebidas como politizadas corroem confiança pública.
  • Setor: precedentes de contratação obrigatória podem gerar insegurança jurídica e litígios.

O centro do caso: não é “polêmica”, é governança em um setor onde a lei pode criar receita

O ponto estrutural é que, em energia, a combinação de lei + ato administrativo pode criar receitas de longo prazo com impacto tarifário. Perguntas públicas essenciais:

  • Quais premissas justificam o diferencial de preço?
  • Quais contrapartidas foram exigidas (modernização, transição para gás, manutenção de empregos)?
  • Qual o custo comparado de alternativas (outras térmicas, armazenamento, reforço de transmissão)?
  • Como o processo foi blindado contra conflito de interesses real ou aparente?

Próximos passos: o que observar para acompanhar o caso

  • Publicização e obtenção das notas técnicas e contratos integrais do processo.
  • Atuação de órgãos de controle (auditorias, pedidos de informação, fiscalizações).
  • Movimentos no Cade e eventuais judicializações concorrenciais.
  • Execução efetiva do plano de transição de carvão para gás ou para alternativas, com investimentos concretos.

O teste político e institucional é se o governo e os reguladores sustentam as exceções com justificativas replicáveis e custo mensurável, evitando precedentes de “contrato por lei”.

Perguntas Frequentes

Contrato de 2040: isso já está assinado?

Reportagens indicam aprovação e regras que permitem prazos até 2040, mas o documento integral do contrato e as notas técnicas que detalham premissas financeiras são necessários para confirmar cláusulas específicas.

Parentesco com Kassab prova influência política?

Não. O vínculo familiar gera risco percebido e aumenta a necessidade de transparência, mas prova de influência requer documentação formal de atos, comunicações ou decisões em que tenha havido favorecimento comprovado.

Os consumidores vão pagar a conta?

Depende do desenho tarifário e da forma como o custo do contrato é alocado no sistema. Se a contratação for socializada no custo sistêmico, há risco de repasse; se couber ao investidor, o impacto direto ao consumidor será menor.

Fontes e Referências

Confira as notícias do Portal Fio Diário.

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Marco Antonio Costa

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