Caso Master: Toffoli abre depoimentos e pressiona BC e BRB
Destaques
- Dias Toffoli, ministro do STF, determinou a retirada do sigilo de depoimentos de investigados no inquérito sobre o Banco Master — decisão atende pedido do Banco Central.
- A medida libera declarações de Daniel Vorcaro, Ailton de Aquino e Paulo Henrique Costa, aumentando transparência sem tornar públicos autos e diligências.
- Os depoimentos apontam riscos de governança e impacto prudencial: menção ao uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e estimativa de provisões próximas a R$ 5 bilhões para o BRB.
- O caso envolve possível fraude e operação com banco público (BRB), menção a valor agregado de até R$ 17 bilhões e deslocamento da investigação ao STF por prerrogativa de foro.
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Decisão de Toffoli e alcance
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou em 29 de janeiro a retirada do sigilo dos depoimentos prestados por investigados no inquérito que apura suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master e tentativa de aquisição pelo BRB (Banco de Brasília). A decisão atendeu a pedido do Banco Central para acesso ao teor do depoimento de Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC.
A abertura não equivale à publicação integral do inquérito: o núcleo investigatório (diligências, quebras de sigilo, relatórios técnicos) permanece sob sigilo, preservando margem de atuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF).
O que significa retirar o sigilo — e o que continua fechado
Segundo a cobertura, o sigilo foi removido apenas das declarações já colhidas pela PF, não do conjunto integral da investigação. A distinção é relevante: em investigações financeiras, o sigilo protege diligências em curso, estratégias investigativas, pedidos de cooperação e informações bancárias e fiscais sensíveis.
Ao liberar depoimentos, o STF cria uma janela de maior transparência sem desarmar a apuração. Na prática, a medida amplia a capacidade de fiscalização por órgãos de controle, parlamentares e sociedade, permitindo confrontar versões dos atores centrais com documentos e atos administrativos — sem depender de vazamentos.
Por que o Banco Central pediu acesso
O pedido formal do Banco Central pelo depoimento de Ailton de Aquino indica que as declarações podem ter efeitos prudenciais ou regulatorios relevantes — para supervisão ou para avaliação de risco de instituições com participação pública.
Três vetores explicam a relevância institucional do pedido:
- Governança e rastreabilidade: o BC precisa documentar atos e justificar eventuais intervenções.
- Precedente de coordenação: reforça o padrão de interação entre PF/STF e regulador em casos de risco sistêmico ou envolvendo banco público.
- Risco reputacional: declarações públicas transformam-se em insumo para questionamentos sobre timing, diligência e consistência da supervisão.
Caso Master: por que este inquérito é mais do que um conflito entre bancos
Conforme reportado pela imprensa, a investigação envolve suspeitas de fraude relacionadas ao Banco Master e à tentativa de aquisição pelo BRB, banco público do Governo do Distrito Federal. Em novembro de 2025, houve a Operação Compliance Zero, da PF, que apura emissão de créditos falsos pelo Banco Master.
O inquérito foi remetido ao STF por menção a um deputado federal nas investigações, o que atrai prerrogativa de foro e desloca a supervisão judicial para a Corte. Esse deslocamento centraliza decisões sensíveis (sigilo, competência), eleva o custo político do caso e tende a tornar a tramitação mais formal e contestada.
O que os depoimentos revelam — e por que as declarações importam mais pelo que implicam do que pelo que afirmam
Com a retirada de sigilo vieram a público trechos atribuídos aos depoimentos de atores centrais. As declarações importam não apenas pelos fatos afirmados, mas pelo que implicam em termos de governança, responsabilidade e custo para instituições públicas.
Depoimento de Daniel Vorcaro: interlocução política e fragilidade de liquidez
Segundo reportagem do Jornal de Brasília, Daniel Vorcaro afirmou que conversou mais de uma vez com o governador do DF, Ibaneis Rocha, sobre a venda do Master ao BRB e admitiu problemas de fluxo de caixa. Vorcaro também indicou que o modelo de negócios do banco se baseava em uso recorrente do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
As implicações institucionais são claras: quando há admissão de fragilidade de caixa e tentativa de enquadrar a operação em um banco público, surgem questões sobre due diligence, salvaguardas contratuais, métricas de risco e avaliação independente. A dependência do FGC como “pilar” do modelo de negócios converte risco privado em risco sistêmico potencial.
Depoimento de Paulo Henrique Costa: “ganhar tempo” para proteger o BRB
De acordo com reportagem do Itatiaia, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, disse que a operação ocorria durante substituição de ativos do Master e que precisava “ganhar tempo” no papel de proteger a instituição.
“ganhar tempo”
A formulação expõe percepção de urgência e ambiguidade: proteger o BRB pode significar evitar prejuízo técnico ou administrar um risco político. Há menção a anotação da ex-diretora de Controle e Risco do BRB, Luana Andrade Ribeiro, segundo a qual Costa teria determinado compra de carteiras para “salvar” o Banco Master — hipótese que, se confirmada por documentação colegiada, coloca no centro da discussão a accountability pública sobre uso de recursos e assunção de risco por um banco estatal.
Depoimento de Ailton de Aquino: potencial custo prudencial para o BRB
O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, teria afirmado que as reservas que o BRB precisaria constituir para cobrir perdas do Master poderiam se aproximar de R$ 5 bilhões. Essa ordem de grandeza pressiona indicadores de capital, capacidade de crédito e política de dividendos do banco público, podendo gerar necessidade de aporte do controlador.
Transparência seletiva e custo reputacional: por que a decisão de Toffoli altera incentivos
A abertura dos depoimentos altera a matriz de incentivos:
- Investigados e gestores: maior custo de contradições, porque versões públicas podem ser confrontadas com documentos e comunicações.
- Autoridades e reguladores: exigência aumentada por documentação cronológica que fundamente decisões supervisórias.
- Atores políticos: menor espaço para narrativas vagas e maior pressão por respostas objetivas sobre autorizações e responsabilidades.
No longo prazo, a medida tende a transformar o caso em evento com consequências institucionais, reduzindo a chance de normalização e de tratamento como ruído político.
O STF como arena: críticas sobre parcialidade e o problema institucional do “juiz sob holofotes”
A cobertura menciona críticas à atuação de Dias Toffoli, com alegações de possível parcialidade e de vínculo com Daniel Vorcaro. Em 29 de janeiro, o ministro declarou que foi escolhido relator por sorteio e condicionou eventual envio do caso à primeira instância ao término das investigações.
“só decidirá sobre eventual envio do caso à primeira instância após a conclusão das investigações.”
Há duas camadas na questão: a processual (sorteio, competência, sigilo) e a da confiança pública. Percepções sobre imparcialidade afetam a legitimidade do desfecho, ainda que não determinem, por si, a correção jurídica. A abertura parcial de depoimentos pode funcionar como redução de assimetria e aumento da verificabilidade das decisões.
O que ainda não dá para afirmar: limites das fontes e o que depende de documentos oficiais
Apesar da divulgação de depoimentos, o núcleo do inquérito permanece sob sigilo e a manifestação da PGR é decisiva. Com base nas informações públicas, ainda não é possível confirmar integralmente:
- Quais contratos específicos foram firmados ou propostos entre BRB e Master;
- Se houve deliberação colegiada formal no BRB sobre compra de carteiras e quais salvaguardas foram exigidas;
- As premissas e o cálculo que sustentam a estimativa de R$ 5 bilhões em reservas;
- A composição exata das suspeitas que resultam na menção a R$ 17 bilhões;
- Quais autoridades com foro foram efetivamente implicadas e em que termos.
Para conclusões fechadas serão necessários autos completos, manifestações formais do Banco Central, comunicações oficiais do BRB/GDF e relatórios técnicos e de auditoria.
Quem ganha e quem perde com a abertura dos depoimentos
Ganha o Banco Central: fortalece sua posição institucional para justificar ações com base em informações que deixaram de ser exclusivamente internas. Ganha o controle externo (parlamentos, tribunais de contas), que passa a dispor de material público para convocação e fiscalização.
Perdem atores que dependiam do sigilo para manter o tema em baixa temperatura — reduz-se o espaço de manobra reputacional. Pode perder também a governança do BRB, caso se consolide a percepção de decisões tomadas para “ganhar tempo” sem trilha técnica e jurídica robusta.
O precedente mais importante: banco público como “amortecedor” de crise privada
O caso levanta a questão central sobre o papel do Estado na contenção de crises privadas. Se o limite institucional for frouxo, cria-se incentivo para risco privado com expectativa de resgate; se for rígido e bem documentado, o precedente pode reforçar disciplina de mercado e governança.
A retirada de sigilo dos depoimentos empurra o debate para essa arena: além de investigação criminal, trata-se de discutir limites, incentivos e quem arca com perdas quando intervenções ocorrem.
Próximos passos: PGR, competência e impacto regulatório
Os movimentos a seguir que definirão o rumo institucional são:
- Manifestação da PGR: pode pedir diligências, oferecer denúncia ou reorientar linhas de apuração.
- Decisão sobre remessa de competência: Toffoli afirmou que avaliará eventual envio à primeira instância após conclusão das investigações.
- Repercussão prudencial: o Banco Central pode intensificar exigências de capital, controles e governança caso autos indiquem necessidade.
- Governança no BRB e no GDF: revisões internas, responsabilização administrativa e respostas formais para reduzir riscos reputacionais e legais.
O desfecho relevante será institucional: clareza de responsabilidades e de critérios para operações envolvendo bancos públicos poderá definir se o precedente contém ou amplia incentivos ao risco moral.
Fontes e Referências
As informações e reportagens citadas nesta matéria incluem:
- reportagem do Itatiaia
- reportagem da Agência Brasil
- reportagem do Brasil247
- reportagem do Jornal de Brasília
A partir daqui, o caso tende a avançar em duas frentes: a jurídica, com a PGR e o STF definindo escopo e competência, e a institucional, com reguladores e controladores sob pressão para demonstrar que decisões envolvendo bancos públicos obedeceram a critérios técnicos e trilhas formais verificáveis. Para acompanhar desdobramentos institucionais, comentários e informações adicionais com documentação verificável são bem-vindos.




