Acareação Banco Master x BRB expõe falhas de governança e risco fiscal
Destaques
- Divulgação dos vídeos da acareação entre Daniel Vorcaro (Banco Master) e Paulo Henrique Costa (ex-BRB) reacende investigação sobre compra de carteiras pelo BRB.
- Divergência sobre a origem das carteiras — créditos de terceiros versus originadas pelo Master — pode indicar falha de diligência ou informação incompleta.
- A Polícia Federal apura possível omissão de gestores do BRB e falhas de governança; o Banco Central já requisitou provisões.
- Operação estimada em cerca de R$ 12 bilhões e participação relevante no balanço do BRB ampliam impacto financeiro, reputacional e político.
- Vídeos públicos reduzem espaço para versões elásticas e pressionam pela apresentação de documentos (e‑mails, atas, data room, etc.).
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Nesta matéria
- Contexto e divulgação dos vídeos
- Íntegra da acareação: o que está documentado em fontes abertas
- O que foi a acareação e por que ela pesa
- Contradição central: créditos de terceiros ou do próprio Master?
- Documentação, originador e padrão de due diligence
- O que a Polícia Federal investiga
- Dimensão financeira e provisões
- Incentivos e assimetrias na operação
- Papel do Banco Central e recado regulatório
- Defesa e narrativa de liquidez
- Consequências prováveis
- O que muda com a divulgação dos vídeos
- O que ainda precisa ser respondido
- Fontes e Referências
Contexto e divulgação dos vídeos
A busca pela íntegra da acareação na PF do Banco Master ganhou novo contorno após a divulgação dos vídeos do confronto de versões entre Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e Paulo Henrique Costa, ex‑presidente do BRB. O material foi publicado em 29 de janeiro de 2026 e, segundo reportagens, tornou‑se público por decisão do ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Íntegra da acareação: o que está documentado em fontes abertas (e o que não está)
É preciso distinguir entre (1) a existência de vídeos/trechos divulgados por veículo de imprensa e (2) a integralidade formal dos autos (termos, anexos, peças sigilosas e documentos exibidos durante a oitiva). Há registro jornalístico público de trechos e descrições da acareação; porém, reportagens não equivalem ao acesso direto aos autos completos.
Para verificação plena da “íntegra” em sentido estrito — termo de acareação, anexos e peças correlatas — o caminho institucional é a consulta ao processo no STF ou confirmação por documento oficial do tribunal. As reportagens reunidas não substituem esse acesso primário.
O essencial independentemente disso é que o conteúdo público é suficiente para identificar o núcleo institucional do conflito: a origem dos créditos e o padrão de documentação e diligência que sustentou uma transação de grande porte envolvendo um banco público.
O que foi a acareação e por que ela pesa mais do que uma entrevista
A acareação é um procedimento formal para confrontar depoimentos contraditórios. Neste caso, as oitivas teriam durado quase sete horas, realizadas com condução da delegada da Polícia Federal Janaína Palazzo, acompanhamento de juiz auxiliar do gabinete do relator e presença do Ministério Público. A presença institucional (PF, STF, MP e acompanhamento judicial) indica que a divergência tem potencial para redefinir responsabilidades.
Na prática, a acareação:
- fixa versões com compromissos claros;
- evidencia hesitações, mudanças de narrativa e “zonas cinzentas”;
- cria trilha objetiva para a investigação: que documentos precisam existir, quem os produziu, quem os recebeu e quais controles falharam.
Se o caso avançar para responsabilização penal, administrativa ou civil, o efeito mais relevante é o encadeamento probatório: a acareação reduz o espaço para explicações posteriores oportunistas.
Contradição central: créditos de terceiros ou créditos do próprio Master?
As reportagens descrevem divergência frontal entre as versões:
- Versão de Daniel Vorcaro (Banco Master): teria informado previamente ao BRB sobre um “novo formato de comercialização”, a partir de janeiro, em que o Master passaria a negociar créditos originados por terceiros, em vez de produtos internos. Questionado se avisou explicitamente sobre créditos de terceiros, teria respondido afirmativamente, sem recordar a data exata.
- Versão de Paulo Henrique Costa (ex-BRB): negou que essa tenha sido a compreensão do banco; segundo ele, o entendimento era que os ativos tinham origem no próprio Master, ainda que pudessem ter sido negociados com terceiros antes da revenda.
“o entendimento… é que eram carteiras originadas pelo Master… e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente”
A diferença não é apenas semântica. Em cessões e operações de crédito estruturado, a origem impacta rastreabilidade, auditoria, qualidade da informação para modelagem de risco e responsabilidades sobre garantias e inadimplência. Se o BRB acreditava comprar ativos “do Master” e, na prática, adquiriu carteiras com origem final em terceiros, isso pode indicar falha de diligência do comprador — ou informação incompleta do vendedor.
Documentação, “originador” e o padrão real de due diligence
Trechos das reportagens tratam da documentação que identificaria o originador do crédito. Segundo o noticiário, ao ser questionado se o documento que identifica o originador fazia parte do material entregue, Vorcaro teria afirmado não ter conhecimento detalhado do procedimento e que essa informação não seria relevante para a análise de risco.
“[essa informação] não seria relevante para a análise de risco”
Já Paulo Henrique Costa teria explicado que a identificação do originador final não costuma integrar os documentos usados nas análises de risco, o que dificultou a detecção imediata do problema.
Se a cadeia de originação não for considerada relevante na diligência, o mercado pode estar normalizando uma zona de baixa transparência onde o risco moral é maior. Mesmo que modelos estatísticos aceitem um ativo pela performance agregada, a falta de rastreabilidade complica disputas sobre inadimplência concentrada, lastro, duplicidade e créditos com documentação frágil — riscos que, em bancos públicos, costumam traduzir‑se em custo político e potencial custo fiscal.
O que a Polícia Federal parece investigar: omissão, governança e possível socorro disfarçado
As reportagens apontam que a Polícia Federal apura suspeita de irregularidades nas negociações e investiga se houve omissão de gestores do BRB e falhas de prudência e governança na aquisição de carteiras que representariam parcela relevante do balanço do banco.
O enquadramento institucional crítico é o seguinte: se a compra de carteiras em valor elevado serviu para aliviar crise de liquidez do vendedor, a operação deixa de ser mera negociação comercial e passa a ser investigação sobre uso de um banco público como amortecedor de risco de instituição privada. A PF considera a hipótese de que o BRB tenha auxiliado irregularmente o Master em sua pressão de liquidez — hipótese sensível porque, mesmo sem transferência direta do Tesouro, um banco controlado pelo Estado pode internalizar perdas e gerar efeitos políticos e fiscais.
Dimensão financeira: R$ 12 bilhões em disputa, provisões e o custo institucional
Os números reportados são relevantes para avaliar materialidade e efeitos:
- Operação estimada em cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito.
- Conjunto de R$ 12,7 bilhões em carteiras problemáticas, com cerca de R$ 10,2 bilhões substituídos por novos créditos (consignados, imobiliários e corporativos).
- Deságio médio de 30% aplicado pelo BRB, estimado gerar uma margem de segurança de cerca de R$ 2 bilhões.
- Mapeamento atual indicaria R$ 2,6 bilhões em problemas; o Banco Central requisitou provisionamento correspondente e indicou que pode ser maior devido à baixa qualidade dos ativos.
Esses números elevam o debate por três razões: materialidade, impacto real das provisões sobre resultado e capital e risco reputacional mesmo quando há deságio. Deságio agressivo pode ser interpretado tanto como prudência quanto como indicação de alta questionabilidade dos ativos — o que, em bancos públicos, exige ainda mais governança.
Incentivos e assimetrias: por que a origem do crédito importa
A origem do crédito define incentivos:
- Para o vendedor, vender créditos de terceiros pode reduzir exposição e resolver liquidez, mas também aumentar opacidade.
- Para o comprador, aceitar carteira sem rastreabilidade completa acelera fechamento, mas aumenta risco de surpresas e reduz capacidade de responsabilização posterior.
- Para administradores, pressa em fechar operação grande pode conflitar com deveres de diligência — especialmente em instituição pública sujeita a controle externo.
Quem monta a carteira controla a informação; quem compra depende de documentos, trilhas e garantias. A consequência provável é pressão por revisão de políticas internas: checklists de cessão, padrões mínimos de comprovação de originação, auditoria de amostras e cláusulas contratuais de indenização.
O papel do Banco Central e o recado regulatório
O noticiário menciona que o Banco Central requisitou provisões e que o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, indicou que o valor deverá ser maior devido à baixa qualidade dos ativos — ele também teria prestado depoimento e sido dispensado da acareação.
Ao exigir provisionamento, o BC reconhece risco material no balanço do BRB, impõe custo imediato (resultado e capital) e pressiona governança interna. Para um banco público, provisão maior reduz espaço para expansão de crédito e pode afetar dividendos ao controlador — um custo político e econômico relevante.
Defesa e narrativa de liquidez: o que importa
A defesa de Vorcaro, conforme reportagem do Jornal de Brasília, sustenta que o Master permaneceu operacional e teria honrado cerca de R$ 10 bilhões em resgates entre março e novembro de 2025, embora tenha reconhecido pressão sobre a liquidez.
Esse contexto ajuda a explicar incentivos para monetizar carteiras. Estresse de liquidez tende a aumentar o risco de operações estruturadas com transparência reduzida ou validações aceleradas — exatamente quando bancos públicos deveriam elevar o nível de diligência.
Consequências prováveis: responsabilização, controles e precedentes
Efeitos práticos esperados, independentemente do desfecho final:
- Risco de responsabilização individual: investigação sobre quem aprovou, quem assinou e que comitês validaram a operação.
- Mudança de padrão de diligência: tendência a exigir documentação mais granular, auditoria independente e cláusulas de recompra/indenização.
- Pressão por transparência e controle externo: órgãos de controle mapearão favorecimento indevido, falhas de controle ou uso político de instrumentos financeiros.
- Reprecificação de risco: mercado poderá exigir mais deságio, garantias e menor apetite para carteiras reempacotadas.
O que “muda” com os vídeos: menos espaço para versões elásticas
A divulgação pública dos vídeos reduz espaço para versões adaptativas porque fixa declarações em contexto, permite confrontar contradições com documentos objetivos (e‑mails, atas, apresentações, data rooms) e cria custo reputacional para recuos. A acareação transforma narrativas em hipóteses testáveis: ou havia aviso formal sobre créditos de terceiros, ou não; ou os documentos indicavam originador, ou não; ou comitês tinham ciência, ou não.
O que ainda precisa ser respondido (e quais documentos fariam diferença)
Perguntas-chave que dependem de evidência documental primária:
- Houve comunicação formal ao BRB sobre mudança de modelo (créditos originados por terceiros)? — documentos-chave: e‑mails, apresentações comerciais, minutas e atas de comitês.
- O data room da operação incluía trilha de originação e cessões anteriores? — documentos-chave: inventário do data room, checklist de diligência e relatórios de auditoria interna/externa.
- Quais instâncias aprovaram a operação no BRB e quais ressalvas foram registradas? — documentos-chave: atas de comitês, pareceres jurídicos, relatórios de risco e votos da diretoria.
- Como o Banco Central avaliou a qualidade dos ativos e por que o provisionamento tende a ser maior? — documentos-chave: ofícios do BC e relatórios de supervisão.
Sem esse conjunto documental, conclusões categóricas sobre dolo, omissão deliberada ou irregularidade comprovada seriam prematuras. O que existe hoje é um conflito de versões com consequências institucionais relevantes e uma investigação em curso que já produziu impactos regulatórios via provisões.
Fontes e Referências
O caso deve seguir produzindo efeitos em duas frentes: (1) no campo investigativo, com busca por documentos que confirmem ou desmintam a comunicação sobre a origem dos créditos e a suficiência da diligência; e (2) no campo institucional, com ajustes de governança e reforço de provisões sob supervisão do Banco Central. Se a investigação avançar para responsabilização formal, o precedente mais importante será o padrão exigido de administradores de bancos públicos ao assumir risco em operações estruturadas de grande escala.
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