Pancreatite e mortes com Wegovy e Mounjaro acendem alerta regulatório

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Pancreatite e mortes com Wegovy e Mounjaro acendem alerta regulatório

Destaques

  • MHRA contabilizou relatos de pancreatite associados a Mounjaro (tirzepatida) e Wegovy (semaglutida), mas notificações não equivalem a prova de causalidade.
  • Dados apontam 181 relatos de pancreatite para Mounjaro (5 mortes) e 113 para Wegovy (1 morte) em registros citados.
  • O volume de notificações tende a acelerar investigação regulatória, revisão de bulas, triagem clínica e possíveis litígios.
  • O MHRA lançou estudo com o Yellow Card Biobank e a Genomics England para avaliar influência genética em casos notificáveis.

Tempo de leitura estimado: 5 minutos

Nesta matéria

O que os dados do MHRA sugerem sobre pancreatite e mortes ligadas a Wegovy e ao Mounjaro

Relatórios vinculados ao sistema de farmacovigilância britânico trouxeram à tona notificações de pancreatite associadas a medicamentos da classe GLP-1, com destaque para Mounjaro (tirzepatida) e Wegovy (semaglutida). As compilações citadas nas reportagens indicam:

  • Mounjaro (tirzepatida): 181 relatos de pancreatite aguda ou crônica, com 5 mortes.
  • Wegovy (semaglutida): 113 relatos, com 1 morte.
  • A classe GLP-1, de forma geral, soma pelo menos 10 mortes nos registros consultados, considerando outros fármacos.

Outros medicamentos da classe também aparecem na compilação mencionada pelas matérias: liraglutida (116 casos, 1 morte), exenatida (101 casos, 3 mortes), dulaglutida (52 casos) e lixisenatida (11 casos). Um ponto levantado pelos veículos é que o Mounjaro responde por parcela significativa dos relatos de pancreatite aguda entre os GLP-1 citados.

O que isso significa (e o que não significa) do ponto de vista institucional

Essas notificações não constituem, por si só, prova de que as mortes foram causadas pelos medicamentos. Em farmacovigilância, uma notificação indica que:

  • houve um evento grave (pancreatite, internação, óbito) em alguém que usava o medicamento;
  • o evento foi reportado ao sistema;
  • o regulador considera a hipótese de relação como algo que merece investigação, não como conclusão.

“notificações não são prova de causalidade”

A consequência prática é que o volume de registros pode alterar a prioridade do tema dentro da agência e acelerar medidas de gestão de risco — sem, entretanto, garantir uma conclusão causal imediata.

Por que sistemas como o Yellow Card geram sinais — mas não sentenças

O MHRA opera o sistema Yellow Card, equivalente ao esquema de notificação de eventos adversos usado em outros países. Esses bancos são essenciais para detectar riscos raros que não aparecem claramente em ensaios clínicos, mas têm limitações:

  • Subnotificação: nem todos os casos são reportados;
  • Notificação estimulada: cobertura midiática pode aumentar as notificações sem alterar o risco real;
  • Falta de denominador: dificuldade em saber exatamente quantos usuários expostos existem em cada perfil;
  • Viés de seleção: casos graves tendem a ser reportados com maior frequência.

Quando a narrativa pública confunde notificação com causa, há pressão por decisões regulatórias precipitadas ou por negações defensivas. A abordagem técnica responsável é distinguir sinal de conclusão, ampliando a coleta de evidência e gerindo riscos de forma proporcional.

O que pode mudar: regulação, bula, prescrição e responsabilização

O impacto prático tende a se desdobrar em quatro frentes principais:

  • Revisão de rotulagem e alertas (bulas, comunicados a profissionais e materiais para pacientes);
  • Reforço do monitoramento e coleta de evidências, incluindo iniciativas genômicas para identificar subgrupos de risco;
  • Alterações na prescrição e triagem clínica, com critérios mais rígidos para pacientes com risco pancreático;
  • Risco jurídico e reputacional para fabricantes e prescritores, especialmente em casos de uso fora da indicação ou sem acompanhamento adequado.

1) Rotulagem e dever de informação: o “custo” regulatório típico

Órgãos reguladores e sociedades médicas tendem a reforçar advertências existentes na bula — por exemplo, a NICE já lista pancreatite como efeito raro do Mounjaro. Medidas comuns incluem atualização de bula, comunicados técnicos e orientações para profissionais e pacientes, com impacto administrativo e na adesão ao tratamento.

2) Prescrição mais restritiva e triagem de risco: impacto no consultório

Médicos podem intensificar a triagem (histórico de pancreatite, litíase, consumo de álcool, hipertrigliceridemia), orientar sinais de alerta e documentar consentimento. Isso aumenta o ônus de monitoramento e, potencialmente, reduz prescrições em contextos de uso cosmético sem acompanhamento clínico.

3) Risco jurídico e disputa de causalidade

A visibilidade do tema aumenta a probabilidade de litígios. As disputas costumam centrar-se em se houve alerta adequado, se o prescritor seguiu padrões de triagem e se existia nexo causal individual — questões que exigem perícia técnica e podem resultar em acordos ou decisões judiciais mesmo sem prova científica consolidada.

O estudo com Yellow Card Biobank e Genomics England: por que o regulador olha para genética

O MHRA anunciou parceria com o Yellow Card Biobank e a Genomics England para avaliar susceptibilidades genéticas em pacientes hospitalizados por pancreatite após uso de GLP-1. A ideia é identificar subgrupos de risco que permitam ações mais cirúrgicas do que restrições amplas.

Se correlações genéticas robustas forem encontradas, as consequências podem incluir recomendações de triagem genética, atualizações mais específicas de bula e mudanças no balanço risco-benefício para perfis determinados — com implicações de custo, privacidade e acesso.

Ensaios clínicos e a disputa da “incidência rara”: por que a dúvida persiste

Ensaios clínicos registraram casos raros de pancreatite com tirzepatida e semaglutida, sem evidência clara de causalidade direta — a incidência não superaria a observada com alternativas. No entanto, ensaios podem não detectar eventos muito raros ou de ocorrência tardia, enquanto a prática clínica amplia perfis com comorbidades e polimedicação.

A comunicação responsável deve dizer que existe um sinal monitorado e investigação ativa, sem declarar nem a inexistência total de risco nem a confirmação plena de causalidade.

Sintomas e conduta: o que é pancreatite e por que a resposta precisa ser rápida

Pancreatite pode ser grave. Sintomas frequentes incluem:

  • Dor intensa na parte superior do abdômen, irradiando para as costas;
  • Náuseas e vômitos;
  • Febre e taquicardia;
  • Incapacidade de reter alimentos.

A orientação prática é: ao surgirem sintomas compatíveis, interromper o medicamento e procurar avaliação médica imediatamente; não reiniciar sem orientação. Pacientes com histórico prévio de pancreatite devem discutir risco e alternativas com o médico.

Incentivos e distorções: risco do uso amplo para emagrecimento

A popularização dos GLP-1 gerou alta demanda e incentivos que podem reduzir prudência clínica: maior pressão por perda de peso rápida, mercado paralelo e falsificações, e prescrição para fins estéticos sem acompanhamento. Isso tende a empurrar o regulador a reduzir assimetrias de informação e a sistemas de controle mais rigorosos.

O que ainda falta para uma conclusão sólida: evidência necessária

Para converter sinal em conclusão, são necessários:

  • Taxas reais de incidência por população exposta, estratificadas;
  • Comparação com controles adequados e risco basal;
  • Dados de temporalidade e reexposição;
  • Mecanismo biológico plausível;
  • Avaliação da qualidade clínica dos relatos (critérios diagnósticos, exames).

Até que isso ocorra, a narrativa defensável é que há notificações relevantes e investigação ativa, mas sem confirmação pública de causalidade caso a caso.

Leitura para o Brasil: por que o tema importa a reguladores, médicos e pacientes

Embora os dados citados sejam do Reino Unido, as implicações são transponíveis: reguladores nacionais monitoram sinais internacionais; gestores de saúde precisam considerar custo-efetividade e custos de eventos adversos; prescritores devem aperfeiçoar triagem e monitoramento; pacientes devem entender que “raro” não é “impossível”.

Conclusão

Os registros associados ao MHRA sobre pancreatite e mortes relacionadas a Wegovy e Mounjaro funcionam como um sinal de farmacovigilância que exige investigação aprofundada. O movimento institucional mais notável é a investigação ampliada — incluindo genética — e a expectativa de atualizações de bula, comunicados técnicos e ajustamentos na prática clínica. Para pacientes, a orientação imediata é conhecer sintomas e procurar atendimento rápido.

Perguntas Frequentes

As notificações no Yellow Card provam que os medicamentos causam pancreatite?

Não. As notificações sinalizam ocorrências que merecem investigação, mas não estabelecem causalidade isoladamente. Fatores como comorbidades e viés de notificação precisam ser avaliados.

O que devo fazer se estiver usando Wegovy ou Mounjaro e sentir dor abdominal?

Interrompa o medicamento e procure atendimento médico imediatamente. Não reinicie sem orientação profissional.

O que as autoridades estão investigando agora?

O MHRA está investigando notificações, realizando estudos com o Yellow Card Biobank e a Genomics England para identificar fatores genéticos e subgrupos de maior risco, além de revisar evidências e a qualidade dos relatos.

Fontes e Referências

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Marco Antonio Costa

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