Kassab usa projeto ‘três em um’ para turbinar força do PSD em 2026
Destaques
- Gilberto Kassab busca transformar o PSD em polo de centro‑direita institucional, priorizando influência no Congresso e capacidade de barganha em 2027.
- Estratégia “três em um”: manter pré‑candidaturas de Ronaldo Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite para ampliar alternativas e controlar o timing da decisão.
- Prioridade em ampliar bancada de 47 para 70–80 deputados via capilaridade municipal e janela partidária para aumentar poder de negociação.
- Tarcísio de Freitas é tratado como não prioritário para 2026; o PSD prefere manter autonomia e preservar o tabuleiro político em São Paulo.
Tempo de leitura estimado: 7 minutos
Nesta matéria
- Contexto e objetivo da estratégia
- O que está em jogo de fato: influência no Congresso e poder de coalizão em 2027
- Por que Kassab aposta em uma eleição “sem Bolsonaro” — e quais os riscos
- Estratégias do PSD: o “projeto três em um”
- Os três nomes e o que cada um entrega
- Tarcísio fora do foco: cálculo sobre São Paulo, 2030 e controle do tabuleiro
- A máquina municipal como base
- O PSD como “centro‑direita institucional”: marketing ou mudança real?
- Custos e ganhos
- O que observar daqui para frente
- Avaliação final
- Fontes e Referências
Contexto e objetivo da estratégia
As estratégias do PSD do Kassab e a corrida presidencial de 2026 têm menos a ver com a escolha imediata de um nome e mais com a tentativa de transformar o partido em um polo de centro‑direita institucional — capaz de entrar competitivo no primeiro turno e, sobretudo, negociar influência real no segundo turno e no desenho do próximo governo.
Ao defender publicamente um cardápio de pré‑candidatos — Ronaldo Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite — e ao mesmo tempo reduzir Tarcísio de Freitas a um plano não prioritário, Gilberto Kassab sinaliza uma estratégia clássica de maximização de poder: aumentar alternativas, controlar o tempo da decisão e converter estrutura municipal em peso congressual.
O que está em jogo de fato: influência no Congresso e poder de coalizão em 2027
O PSD já opera como partido de geometria variável: participa de governos estaduais diversos, negocia pragmaticamente e, no plano federal, tende a maximizar acesso a orçamento, relatorias e cargos. A novidade é a tentativa de dar coerência eleitoral a esse pragmatismo, com discurso de centro‑direita moderada, distante do bolsonarismo radical, buscando linguagem de institucionalidade e previsibilidade.
Esse reposicionamento busca capturar um ativo raro em eleição presidencial — a viabilidade de coalizão. Não é apenas voto; é o “depois do voto”. Na prática, isso significa:
- Eleição: reduzir rejeição e buscar dois dígitos no primeiro turno com um candidato menos conflitivo.
- Governo: trocar apoio por ministérios, estatais, agências e comando de pautas no Congresso.
- Congresso: ambição de ampliar a bancada de 47 para 70–80 deputados via janela partidária e rearranjos, reconfigurando a correlação de forças.
Por que Kassab aposta em uma eleição “sem Bolsonaro” — e quais os riscos dessa premissa
A arquitetura descrita parte da hipótese de que Jair Bolsonaro estaria fora do jogo em 2026 por inelegibilidade, atuando mais como força de veto do que como candidatura. Essa premissa abre espaço para reorganização da direita em torno de governadores e partidos com estrutura — papel que o PSD busca ocupar —, mas traz riscos relevantes.
Vantagem: permite reorganizar a direita em torno de nomes com capilaridade municipal e capacidade de formar coalizões. Risco: mesmo inelegível, Bolsonaro pode continuar determinante via transferência de votos, poder de veto sobre nomes e ruptura de alianças, especialmente em bases mobilizadas nas redes e em segmentos religiosos.
Estratégias do PSD do Kassab e a corrida presidencial: o “projeto três em um” como método de negociação
A expressão “projeto três em um” corresponde à ideia de manter três pré‑candidaturas viáveis — Caiado, Ratinho e Leite — para dar ao PSD flexibilidade. Em política, flexibilidade não é indecisão: é método de acumulação de poder quando o sistema é fragmentado, a candidatura presidencial é cara e o partido ganha mais controlando o timing do que anunciando cedo.
Na prática, o modelo permite ao PSD:
- Testar rejeição e potencial de crescimento nas pesquisas sem queimar um nome;
- Manter diálogo com múltiplos grupos (agronegócio, empresariado urbano, eleitorado de segurança pública, setor de serviços, classe média do Sul/Sudeste);
- Negociar alianças estaduais sem amarrar o nacional, liberando arranjos locais quando conveniente.
Os três nomes e o que cada um entrega: votos, alianças e risco de rejeição
A escolha por três governadores ou figuras de perfil executivo tem lógica institucional: governadores trazem máquina administrativa, alianças locais, visibilidade e controle de agenda regional. Cada nome oferece incentivos distintos e limites.
Ronaldo Caiado: segurança e agro como base, com risco de teto eleitoral
Ronaldo Caiado, recém‑filiado ao PSD, agrega a uma direita mais conservadora vínculos com o agronegócio e um discurso forte em segurança pública. Para o PSD, Caiado fornece eixo para o Centro‑Oeste e interiorização do projeto, além de tração em setores produtivos que valorizam previsibilidade regulatória e ordem pública.
Limites: o discurso conservador pode enfrentar teto em grandes centros e em contexto de polarização cultural nas redes. No Congresso, Caiado facilita diálogo com bancadas temáticas (agro, segurança), potencialmente rendendo poder legislativo independente do resultado presidencial.
Ratinho Junior: pragmatismo e gestão, com desafio de projeção nacional
Ratinho Junior aparece como perfil pragmático, ancorado no Paraná, com ênfase em governança gerencial. Esse perfil costuma performar bem frente à fadiga de polarização, oferecendo apelo à eficiência e ao serviço público.
Problema central: projeção nacional. Sem narrativa de país e presença em debates nacionais, corre o risco de permanecer como “bom gestor regional” sem musculatura eleitoral. Ainda assim, Ratinho serve como opção negociadora e pode compor chapa ou oferecer apoio condicionado a agendas econômicas.
Eduardo Leite: apelo ao eleitor urbano e ao empresariado, com fricções na direita
Eduardo Leite traz apelo à classe média urbana e ao empresariado, com perfil liberal e moderado. Pode reduzir resistência em setores do centro e em segmentos econômicos que priorizam previsibilidade institucional e responsabilidade fiscal.
Risco: em uma direita fragmentada, Leite pode ser atacado por setores mais ideológicos, o que encarece a campanha e exige coligações mais amplas. Ainda assim, reforça a narrativa de “centro‑direita civil” útil para atrair apoios fora do núcleo bolsonarista.
Tarcísio fora do foco: cálculo sobre São Paulo, 2030 e o controle do tabuleiro
Kassab tem indicado que o PSD deve focar em Caiado, Leite e Ratinho para 2026, descartando Tarcísio como prioridade e projetando para ele reeleição em São Paulo como ponte para 2030. À primeira vista, é paradoxal—Tarcísio é citado como nome com potencial nacional—mas a lógica institucional explica a escolha.
“Tarcísio teria mais chance”, disse Kassab sobre o cenário, segundo reportagens.
Motivações:
- São Paulo é o maior ativo político do país — orçamento, visibilidade e rede de prefeitos. Preservar laços no estado pode ser mais estratégico do que uma aventura presidencial incerta.
- Tarcísio está em outro partido (Republicanos): apoiá‑lo cedo transformaria o PSD em satélite.
- O PSD quer ser necessário, não coadjuvante — apoiar Tarcísio cedo reduziria o preço político do PSD em 2026/2027.
“Seria um privilégio receber convite para ser vice”, afirmou Kassab ao comentar eventual composição com Tarcísio.
O efeito prático: o PSD não rompe com Tarcísio, mas também não entrega o jogo — mantém a ponte e preserva autonomia.
A máquina municipal como base: por que prefeitos importam mais do que o debate nacional
O PSD tem histórico de força municipal e liderou em número de prefeitos eleitos em 2024. Isso importa por três razões concretas:
- Capilaridade de campanha: prefeitos organizam base, palanque, logística e alianças locais, reduzindo custo de mobilização presidencial.
- Transferência para o Congresso: prefeitos influenciam eleição de deputados federais; ampliar bancada para 70–80 depende desse ecossistema.
- Orçamento e governabilidade: mais deputados significam mais relatorias e comissões, e maior capacidade de travar ou acelerar agendas do Executivo.
Se o PSD crescer no Legislativo, poderá impor condições sobre regras fiscais, reformas administrativas, regulação de infraestrutura e agenda de segurança pública — o que representa “poder de verdade” menos visível no discurso de campanha.
O PSD como “centro‑direita institucional”: marketing político ou mudança real?
A tentativa de posicionar o PSD como uma centro‑direita defensora da democracia deve ser lida com cautela: partidos no Brasil raramente se comportam como blocos ideológicos consistentes. O critério para avaliar a mudança não é a etiqueta, mas as consequências observáveis nas votações e na defesa de instituições.
Perguntas relevantes: o PSD entregará compromisso fiscal em votações? Sustentará reformas que reduzam gasto obrigatório? Apoiaria marcos regulatórios com segurança jurídica? Sem respostas claras, o rótulo de “moderado” pode ser ferramenta de negociação — e ainda assim produzir efeito prático ao reduzir resistência no centro.
Custos e ganhos: quem ganha poder com a estratégia de Kassab — e quem perde
Quem ganha:
- Kassab e a direção do PSD, que concentram controle do timing e do preço do apoio.
- A bancada do PSD, se a expansão para 70–80 deputados se concretizar.
- Os três governadores, que se tornam ativos nacionais capazes de negociar cabeça de chapa, vice, ministérios e pactos federativos.
Quem perde ou corre risco:
- A direita que busca unificação precoce — a multiplicidade do PSD eleva o custo de convergência.
- Candidatos dependentes só de carisma e redes, sem estrutura congressual — o PSD se oferece como alternativa “governável”.
- O próprio PSD, se errar o tempo — demorar demais pode transformá‑lo em mero partido de negociação, sem voto relevante.
O que observar daqui para frente: sinais concretos de viabilidade
Para separar estratégia consistente de movimento tático, há indicadores verificáveis:
- Janela partidária e migrações: se o PSD atrair deputados até alcançar 70–80, a estratégia ganha densidade.
- Definição de palanques estaduais: apoiar arranjos locais pode aumentar capilaridade, mas diluir identidade nacional.
- Pesquisas com cenários estáveis que mostrem sinergia entre nomes condicionam a escolha final.
- Relação com Tarcísio e Republicanos: convergência pode levar a composição; competição fragmenta a direita.
- Posicionamento sobre agenda econômica: sem compromisso crível com responsabilidade fiscal, o discurso de centro‑direita tende a ser rótulo negociador.
Avaliação final: um partido tentando transformar incerteza em ativo
As estratégias do PSD indicam um objetivo operacional claro: transformar a incerteza de 2026 — especialmente no campo pós‑Bolsonaro — em ativo de negociação, elevando o PSD a um patamar de pivô nacional. O desenho é coerente com incentivos do sistema político brasileiro: partidos com musculatura municipal e bancada grande preferem controlar a escolha e precificar apoio em vez de apostar tudo em um nome cedo.
O ponto de tensão será a credibilidade. Eleitores que buscam alternativa à polarização exigem clareza mínima de rumo, o que pressiona Kassab a transformar o “três em um” em decisão em tempo útil. O desfecho institucionalmente mais relevante será se o PSD conseguirá ampliar bancada e consolidar coalizão de centro‑direita com compromisso verificável com responsabilidade fiscal e segurança jurídica. Se sim, entrará em 2027 com poder real de agenda; se não, poderá ficar como coadjuvante bem posicionado, mas dependente do vencedor.
Fontes e Referências
- Reportagem da Gazeta do Povo sobre o xadrez político de Kassab
- Análise do PlatoBR sobre a chegada de Caiado ao PSD
- Reportagem do Times Brasil sobre o foco do PSD em 2026
- Matéria do InfoMoney citando avaliação de Kassab sobre nomes do PSD
- Reportagem do G1 sobre declarações de Kassab e relação com Tarcísio
- Análise do Jota sobre o projeto eleitoral “três em um”
- Reportagem do Diário do Poder mencionada nas apurações
- Vídeo citado nas referências (registro audiovisual relacionado)
O Portal Fio Diário seguirá acompanhando os movimentos de janela partidária, sinais de composição nacional e estadual e as pesquisas que possam validar ou desmentir a estratégia do PSD. Comente, compartilhe e assine a newsletter do Portal Fio Diário para receber análises institucionais e políticas em primeira mão.




