Abu Dhabi reabre negociação EUA-Rússia-Ucrânia sobre Donbass

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Abu Dhabi reabre negociação EUA-Rússia-Ucrânia sobre Donbass

Destaques

  • Reunião trilateral em Abu Dhabi (23–24 de janeiro de 2026) reuniu **Rússia**, **Ucrânia** e **EUA** com foco no controle territorial do Donbass, mas sem acordo concreto na rodada inicial.
  • Formato formal trilateral e presença de militares e representantes econômicos deslocam a negociação para temas operacionais: linhas de controle, verificação e garantias.
  • A continuidade depende de arranjos verificáveis de segurança, fiscalização, cronogramas e incentivos — sem eles, risco de um congelamento caro.
  • Próxima rodada anunciada por **Zelensky** para 4 e 5 de fevereiro de 2026 em Abu Dhabi; confirmação parcial e assimetria de comunicação entre delegações indicam negociações de bastidor.

Tempo de leitura estimado: 6 minutos

O que foi a reunião em Abu Dhabi e por que ela importa

A reunião em Abu Dhabi com Rússia, Ucrânia e EUA — realizada nos dias 23 e 24 de janeiro de 2026, nos Emirados Árabes Unidos — marcou o retorno de uma negociação direta trilateral com foco explícito em questões territoriais no Donbass. O resultado imediato foi limitado: não houve acordo concreto na rodada inicial. A continuidade dependerá de arranjos verificáveis de segurança, controle e incentivos capazes de sustentar um cessar-fogo sem virar apenas uma pausa operacional para rearmamento.

O evento reorganiza a arquitetura de negociação: com os EUA atuando como mediador e parte interessada, a conversa deixa de ser somente um impasse militar e passa a ser também uma disputa sobre garantias, fronteiras e compromissos executáveis — cada um com custos financeiros, riscos de credibilidade e efeitos sobre a estabilidade europeia.

Quem participou: o desenho das delegações e o que ele sinaliza

Pelo lado americano, a delegação foi descrita como liderada por Steve Witkoff e Jared Kushner, com presença de Dan Driscoll (secretário do Exército) e do general Alexus Grynkewich, comandante militar da OTAN. Do lado russo, uma delegação militar chefiada pelo almirante Igor Kostyukov, com o conselheiro Yuri Ushakov e o enviado Kirill Dmitriev para discussões econômicas. A Ucrânia foi representada por Rustem Umerov, Andrii Hnatov e Kyrylo Budanov.

Mais do que nomes, interessa o perfil:

  • Militares e inteligência em posição central indicam que o debate envolve linhas de contato, verificações, zonas-tampão e controle de incidentes — temas tipicamente operacionais.
  • A presença de um representante voltado a discussões econômicas (Kirill Dmitriev) sugere que Moscou busca ligar o desfecho territorial a um pacote de incentivos materiais, que toca em sanções, comércio e financiamento.
  • A menção a um comandante da OTAN, ainda que os EUA falem por si, aumenta o peso do tema “garantias” e desloca parte da negociação para arquitetura de segurança europeia.

O núcleo do impasse: território, soberania e o problema do “como garantir”

As conversas priorizaram questões territoriais, sobretudo o controle do Donbass, além de garantias de segurança, zonas-tampão e mecanismos de controle. Território não é uma variável única: para que um acordo seja executável, precisa responder a perguntas operacionais, como:

  • Qual será a linha de controle? A atual linha de frente, uma linha negociada ou uma linha referenciada por fronteiras administrativas pré-2014?
  • Haverá retirada de tropas? Em qual sequência e cronograma?
  • Quem fiscaliza? ONU, OSCE, um consórcio ad hoc ou mecanismos bilaterais?
  • Qual é o regime de incidentes (drones, artilharia, sabotagem)? Como se registra e arbitra violação?
  • O que acontece com populações e ativos em áreas disputadas? Como fica circulação, energia, logística e arrecadação?

Sem respostas verificáveis, “acordo territorial” vira um enunciado político sem capacidade de impor comportamento — e, portanto, altamente instável.

Posição russa: retirada ucraniana e reconhecimento de fato

Segundo o material reportado, o Kremlin insistiu na retirada de tropas ucranianas de territórios orientais anexados pela Rússia, tratando a resolução territorial como condição para um acordo duradouro, e descreveu as conversas como “francas e construtivas”.

“francas e construtivas”

A exigência russa transforma a negociação em um teste de soberania. Para Kiev, qualquer fórmula que pareça validar anexações cria risco de deslegitimação interna, precedentes internacionais e reconfiguração do risco para países vizinhos. A Rússia, por sua vez, busca maximizar ganho estratégico — trocar um cessar-fogo por consolidação territorial ou por ambiguidade funcional.

Posição ucraniana: “fim real e digno” e o dilema da garantia

O presidente Zelensky descreveu o diálogo como “passo em direção ao fim da guerra” e apontou para propostas próximas do pronto, incluindo menção a uma zona de comércio livre no leste sob controle de Kiev.

“passo em direção ao fim da guerra”

A chave para a Ucrânia é o problema da garantia: a distância entre promessas políticas de apoio e compromissos executáveis (armas, financiamento, defesa aérea, treinamento, inteligência). Se o acordo for uma fotografia diplomática, Kiev assume risco de aceitar restrições enquanto o oponente mantém capacidade de pressionar.

Posição americana: mediação com custo fiscal e de credibilidade

A Casa Branca classificou as reuniões como “produtivas” e as inseriu no esforço da administração Trump de mediar um acordo. Para os EUA, está em jogo reduzir custo fiscal e político de apoio, preservar margem estratégica e evitar um resultado que destrua a credibilidade de dissuasão ocidental.

Ao mesmo tempo, uma mediação americana tem risco reputacional se o acordo resultar em congelamento instável e a guerra reaquecer: o custo recairia sobre quem patrocinou o formato.

Por que Abu Dhabi: incentivos dos Emirados e a diplomacia como ativo

O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos destacou o papel de Abu Dhabi em promover diálogo político. Para os Emirados, sediar esse tipo de encontro é estratégia de posicionamento, com ganhos potenciais como capital diplomático, fortalecimento da imagem como praça segura para negociações e ampliação de influência regional e global.

O custo é limitado, mas existe: exposição a pressões e tentativas de influência, e risco de retaliação indireta no limite, embora não haja indicação pública de que isso esteja em pauta no momento.

O que muda depois da reunião (e o que não muda)

O principal resultado prático foi o estabelecimento do formato e da agenda prioritária. Em termos institucionais, existem mudanças e continuidades:

O que muda

  • Existe um formato trilateral oficial e uma agenda priorizada (território + garantias), permitindo que as partes passem a minutas e propostas.
  • A negociação passa a envolver com mais clareza a variável crítica da verificação; sem mecanismos de monitoramento nenhum cessar-fogo se sustenta.
  • A administração americana assume propriedade política do processo, dando tração e criando responsabilidade.

O que não muda (ainda)

  • A correlação de incentivos no campo de batalha: se uma parte acredita que ganhará mais prolongando a guerra, o processo diplomático vira instrumento tático.
  • O impasse territorial: Donbass permanece o nó central.
  • Divergências sobre ocupação e áreas não conquistadas seguem persistentes.

O sucesso dependerá do desenho de um pacote que mude incentivos: o lado que recuar precisa receber algo verificável; o lado que avançou precisa aceitar limites que reduzam sua vantagem futura.

A próxima rodada: anúncio de Zelensky e a assimetria de confirmação

Zelensky anunciou em 1º de fevereiro de 2026 uma nova rodada trilateral para 4 e 5 de fevereiro, também em Abu Dhabi, voltada a negociações substantivas para um “fim real e digno da guerra”. Foi noticiado que autoridades russas e americanas não haviam comentado o anúncio no momento da publicação, e houve menção a possível adiamento, mas fontes principais mantiveram as datas.

A assimetria de confirmação pública pode indicar negociação de bastidor sobre agenda e termos, tentativa de Kiev de ancorar expectativas e cuidado de Moscou e Washington em não se comprometerem sem clareza de entregáveis.

A presença de Kirill Dmitriev em reunião com a delegação americana na Flórida em 31 de janeiro sugere que o canal econômico permanece ativo, embora detalhes não estejam publicamente documentados.

O problema central: cessar-fogo sem solução territorial vira “congelamento” — e congelamento tem custo

Cessar-fogos sem endereçar status territorial tendem a produzir conflitos congelados que mantêm risco militar elevado, exigem gastos contínuos de defesa, degradam investimentos e tornam-se instrumentos de coerção política.

Para a Ucrânia, um congelamento pode significar incerteza de segurança, dependência prolongada de ajuda externa e barreiras a investimento. Para a Europa, implica gasto militar maior, risco de escalada por incidentes e tensão permanente em energia e cadeias logísticas. Para os EUA, significa manter recursos comprometidos e risco de perda de credibilidade.

A pergunta decisiva não é “houve diálogo?”, mas qual o desenho de enforcement que está sendo negociado.

Quais são as peças que podem destravar (ou travar) um acordo

Com base no que foi reportado, as peças típicas de um acordo viável incluem:

  1. Linha de separação e mapa oficial: sem isso, não há como medir violação.
  2. Mecanismo de monitoramento: internacional, bilateral ou híbrido; sem monitor, “violação” vira disputa narrativa.
  3. Sequência de retirada e desmilitarização: cronogramas criam janelas de vulnerabilidade e determinam quem assume risco primeiro.
  4. Garantias a Kiev: militares, financeiras ou industriais; o crucial é que sejam executáveis.
  5. Tratamento econômico: reconstrução, comércio, sanções e desbloqueios — fonte de incentivos e controvérsias.
  6. Status político do território: fórmulas temporárias (administração especial, referendos futuros, autonomia) são politicamente explosivas e difíceis de fiscalizar.

Cada item tem custo: monitoramento exige orçamento e pessoal; garantias exigem compromisso político; arranjos econômicos afetam sanções e interesses privados. O “fim da guerra” é também uma engenharia institucional cara.

Quem ganha e quem perde poder com uma negociação centrada no Donbass

  • Rússia ganha alavancagem se transformar controle de fato em reconhecimento prático; perde se o acordo vier amarrado a garantias robustas que limitem sua coerção futura.
  • Ucrânia ganha se obtiver garantias verificáveis e preservação de controle relevante; perde se aceitar retirada ou congelamento sem mecanismos de resposta.
  • EUA ganham se reduzirem intensidade do conflito com custo fiscal controlável e sem colapso de credibilidade; perdem se patrocinarem um acordo frágil que se rompa rapidamente.
  • Emirados ganham reputação e influência como anfitriões; perdem pouca coisa no curto prazo, mas assumem exposição diplomática.

O indicador de sucesso será se o processo gerar compromissos com compliance mensurável, não a foto da mesa.

O que observar nas próximas semanas: sinais de substância, não de retórica

Para separar avanço real de gestão de expectativas, acompanhe:

  • Se haverá comunicado conjunto ou linhas convergentes sobre agenda e mecanismo de continuidade.
  • Se surgirão referências a mecanismos de verificação (ONU/OSCE/terceiro) e a um mapa.
  • Se os EUA sinalizarão alguma forma de garantia concreta (militar, industrial ou financeira).
  • Se a Rússia condicionará publicamente qualquer cessar-fogo a retirada ucraniana — sinal de rigidez.
  • Se a Ucrânia aceitará discutir fórmulas transitórias sem parecer reconhecer anexações, tema delicado para legitimidade interna.

Sem esses elementos, nova rodada pode significar apenas manutenção de canal, útil, mas insuficiente para encerrar a guerra.

Fontes e Referências

Reportagens e documentos consultados sobre a rodada de Abu Dhabi e desdobramentos:

A rodada de Abu Dhabi recolocou EUA, Rússia e Ucrânia numa mesa com pauta clara — território e garantias — mas ainda sem entrega material verificável. O próximo passo, se a reunião de 4 e 5 de fevereiro se confirmar nos termos anunciados por Zelensky, será testar se as partes aceitam transformar posições máximas em mecanismos executáveis: mapas, fiscalização, cronogramas e consequências por violação. Sem isso, a tendência é um cessar-fogo frágil ou um congelamento caro, com custos contínuos para Kiev, Europa e Washington.

O Portal Fio Diário seguirá acompanhando sinais de substância — documentos, termos e compromissos — mais do que declarações. Se você tem informações relevantes ou quer sugerir ângulos de apuração, comente, compartilhe e assine a newsletter do Portal Fio Diário.

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Marco Antonio Costa

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