A Queda da Magnitsky: Negociatas, Derrota Política e o Aplauso da Direita ao Sistema
A revogação das sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes não representa uma vitória da democracia, mas o resultado de um jogo de poder cínico, movido por interesses bilionários e pela realpolitik americana. O episódio expõe a fragilidade estratégica da direita e impõe uma lição amarga: a batalha real é cultural e de longo prazo.
A notícia da última sexta-feira, 12 de dezembro, caiu como uma bomba no cenário político brasileiro: o governo americano, sob a presidência de Donald Trump, removeu o ministro do STF, Alexandre de Moraes, da lista de sancionados pela Lei Magnitsky. Para muitos, foi um balde de água fria, uma ressaca política particularmente amarga após uma semana em que o Supremo Tribunal Federal parecia acuado por escândalos. No entanto, analisar este evento apenas sob a ótica da decepção é um erro. A queda da sanção é, na verdade, um sintoma claro das forças que realmente movem a política nacional e internacional, e serve como um doloroso, porém necessário, chamado à maturidade para a oposição no Brasil.
A narrativa oficial, ecoada por figuras do sistema, celebra uma suposta vitória da “normalidade institucional” e da soberania brasileira. Trata-se de uma farsa. A realidade, exposta por relatos da imprensa, como os de Mônica Bérgamo, aponta para uma articulação de altíssimo nível, capitaneada por figuras como o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, que negociou diretamente com o Tesouro americano. A suspensão das sanções não foi um gesto de boa vontade, mas uma moeda de troca em uma negociação que envolve interesses estratégicos dos Estados Unidos, como o acesso a terras raras e a estabilização do mercado de carnes para conter a inflação interna.
Nossa posição editorial é clara: não houve vitória da democracia, mas sim a prevalência de negociatas bilionárias que ignoram completamente os abusos de poder e as violações de direitos que motivaram a sanção em primeiro lugar. A direita precisa digerir esta derrota, abandonar o “muro de lamentações” e entender que a luta pela liberdade não será vencida por salvadores externos, mas por resiliência e organização interna.
Os Bastidores da Negociação: Interesses Americanos, Não Justiça Brasileira
É fundamental desmistificar a ideia de que Donald Trump agiu por simpatia a Lula ou por respeito às instituições brasileiras. Como a analista Paula Marisa pontuou, a lógica que rege as relações internacionais é pragmática e, por vezes, brutal.
“Trump está cagando para o povo brasileiro. Ele é presidente dos Estados Unidos, ele representa o interesse dos Estados Unidos. Esse interesse pode convergir com os nossos em alguns momentos e em outros não, que foi o caso da derrubada da Magnitsky.”
Essa visão desapaixonada é crucial. A articulação de Esteves e a pressão de setores como o da JBS não buscavam restaurar a democracia no Brasil, mas proteger seus próprios negócios e atender às prioridades da agenda americana. A soberania nacional, tão alardeada pela esquerda, foi, na prática, a moeda de troca para livrar um ministro de sanções por violações de direitos humanos.
O Lobby e as Moedas de Troca
Segundo relatos, o dono do BTG Pactual argumentou ao governo americano que as sanções prejudicavam a economia de ambos os países e geravam um “risco” aos bancos brasileiros com negócios nos EUA. A negociação, ao que tudo indica, envolveu um pacote robusto de interesses, incluindo o controle sobre as vastas reservas de terras raras brasileiras – um ativo estratégico na disputa global com a China – e a estabilidade do agronegócio. A liberdade e a justiça no Brasil foram, no máximo, notas de rodapé nesse acordo.
O Espetáculo do Establishment: Aplausos e Hipocrisia
O evento de lançamento do SBT News, neste final de semana, materializou a capitulação de parte da direita ao sistema que critica. A cena de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, aplaudindo o discurso de Alexandre de Moraes é um símbolo poderoso e desolador. Moraes, o mesmo que persegue opositores e atenta contra as liberdades, falou cinicamente sobre combate à desinformação e defesa da liberdade de imprensa.
“Só se combate à desinformação, só se combate discurso de ódio, só se combate essa nefasta polarização (…) com a boa informação. Só se combate isso com a liberdade de imprensa”, disse Moraes, sob os aplausos de parte da elite política presente.
O aplauso de Tarcísio, seja ele protocolar ou genuíno, envia uma mensagem de acomodação. É a imagem de uma oposição que, em momentos cruciais, parece preferir a paz com o sistema a confrontá-lo. Enquanto isso, a perseguição continua implacável, com empresários sendo presos em operações sigilosas, sequestrados pelo Estado sem direito a defesa ou transparência.
Em um ato de coragem e integridade que contrasta com a conivência geral, o cantor Zezé Di Camargo cancelou sua participação em um especial do SBT, afirmando que a nova linha editorial da emissora, alinhada ao sistema, “não condiz com o que grande parte do povo brasileiro pensa”. Uma postura que deveria servir de exemplo.
Ressaca e Resiliência: O Fim do “Muro de Lamentações”
A reação de parte da direita, marcada pelo desalento e pelo derrotismo, é compreensível, mas contraproducente. A dependência de soluções mágicas e de heróis externos é um vício que precisa ser quebrado. A luta não acabou; ela apenas se revelou mais longa e complexa do que muitos imaginavam.
A Batalha é Cultural, Não Apenas Política
Como Paula Marisa ressaltou, a vitória não virá de uma única eleição ou de uma única sanção internacional. A esquerda construiu seu poder ao longo de décadas, ocupando espaços na cultura, na educação e nas instituições.
“Não existe solução rápida. (…) A mudança é cultural. Se a gente tira o Alexandre de Moraes do STF, quem é que vai entrar? Quantos ‘Alexandres de Moraes’ estão saindo das faculdades todos os anos?”
A energia que hoje é gasta em lamentações precisa ser convertida em ação organizada: na fiscalização das escolas, na criação de institutos, na produção de conteúdo cultural e na formação de novas lideranças com base sólida.
“Retroceder Nunca, Render-se Jamais”
A postura combativa, como a do deputado Marcel van Hattem, que enfrenta um processo de suspensão no Conselho de Ética por defender o Legislativo dos abusos do STF, é o espírito que deve prevalecer. A queda da Magnitsky não é o fim da linha, mas um chamado para dobrar a aposta na resiliência e na organização.
Pontos-Chave da Análise:
- Negociação de Interesses: A queda da sanção a Moraes foi fruto de lobby de banqueiros (BTG Pactual) e de uma negociação focada em interesses estratégicos dos EUA (terras raras, agronegócio), não em princípios democráticos.
- Fim da Ilusão: O episódio enterra a ideia de que salvadores externos, como Donald Trump, resolverão os problemas institucionais do Brasil. A luta é interna.
- Símbolo da Acomodação: O aplauso de Tarcísio de Freitas ao discurso de Moraes no evento do SBT News simboliza a perigosa tendência de parte da direita em se acomodar com o sistema.
- Guerra Cultural: A verdadeira batalha é de longo prazo e se trava no campo da cultura, da educação e das instituições, não apenas na arena política eleitoral.
- Chamado à Resiliência: Em vez de derrotismo, a direita precisa encarar o revés como uma lição de maturidade estratégica, focando em organização, formação e na luta cultural contínua.
Conclusão
A revogação das sanções da Lei Magnitsky é uma derrota tática dolorosa, mas pode se tornar uma vitória estratégica se a lição for aprendida. Ela expõe a face pragmática e muitas vezes cínica do poder, onde interesses econômicos se sobrepõem à justiça. A imagem de parte da elite política brasileira aplaudindo o algoz da liberdade enquanto negocia nos bastidores é a prova final de que a salvação não virá de cima nem de fora.
O caminho para a direita brasileira não é o desespero, mas a resiliência forjada no aço. É hora de abandonar a mentalidade de torcida, parar de esperar pelo milagre e começar a construir, pacientemente, as bases culturais e institucionais de um Brasil verdadeiramente livre. A maratona é longa, e a única opção é continuar correndo.
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