O Brasil é um país surreal!
O caso da vez é aquele tipo de cena que parece escrita para meme, mas é sintoma de algo bem mais sério: Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça, virou alvo de desgaste público — e quem puxou o gatilho do constrangimento foi nada menos que o próprio irmão, Luciano Lewandowski, que resolveu dizer em voz alta o que muita gente grita em rede social, mas raramente sai da boca de alguém “de dentro”.
E ele não economizou.
Em postagem que circulou com força, Luciano cravou: “no Brasil não existe lei nem justiça”. A frase é brutal por si só. Mas fica ainda mais explosiva porque não veio de um anônimo revoltado nem de militante no modo automático. Veio de alguém que carrega o mesmo sobrenome de um dos símbolos do establishment jurídico brasileiro.
Aí você entende por que o episódio viralizou.
Não é “fofoca de família”. É radiografia do esgotamento institucional. Quando o irmão de um ex-STF solta, em público, que a Justiça virou um lugar onde “cada um decide como quer”, onde prazos deixam de existir e onde “para amigos do rei” tudo anda em horas — isso não é só desabafo. É acusação. É dedo na ferida. É a quebra, de dentro para fora, daquela blindagem social que sempre tentou tratar o Judiciário como um templo acima do bem e do mal.
E o “absurdo” maior está no contraste.
Ricardo Lewandowski passou anos sentado justamente onde o Brasil aprende, na marra, o que é “interpretação” e o que é “jurisprudência elástica”. Depois, foi para o Ministério da Justiça — vitrine máxima do discurso de “lei”, “ordem”, “instituições” e “Estado de Direito”. Em tese, se existe alguém que deveria vender a ideia de que há lei e justiça funcionando, é ele.
Só que o país real não colabora com o roteiro.
A postagem do irmão estoura num ambiente já saturado por desconfiança e por notícias que alimentam a mesma sensação de sempre: as regras não são para todos. É isso que dá o choque. E é isso que transforma a frase em símbolo do momento. Não é apenas “o que foi dito”. É quem disse — e, principalmente, de onde disse.
E aqui entra o ponto que o Brasil finge não enxergar: quando a crítica ao STF deixa de ser só barulho de internet e passa a aparecer como “fogo amigo”, o estrago é dobrado. Porque o recado que fica é simples e cruel: se até alguém do círculo mais próximo olha para o sistema e diz “isso não presta”, qual é a chance de o cidadão comum acreditar em imparcialidade, previsibilidade e justiça?
No fim, o Brasil vai normalizando o impensável.
Normaliza decisão que muda conforme o vento. Normaliza prazo que só existe para quem não tem influência. Normaliza seletividade com pose de “técnica”. Normaliza o “depende” como método. E quando alguém escancara isso com a frase “não existe lei nem justiça”, o choque dura pouco — porque a máquina de polarização transforma tudo em torcida, e torcida não quer verdade: quer placar.
O episódio deixa uma constatação desconfortável: a crise não é só política; é de credibilidade. E credibilidade não se recompõe com nota oficial, nem com entrevista ensaiada, nem com discurso bonito sobre democracia.
Quando a Justiça vira um personagem, o país inteiro vira refém do roteiro.




