O Fim da escala 6×1, a redução da jornada de trabalho vai custar caro — e a conta chega em você

Erika Hilton
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6×1: a redução da jornada de trabalho vai custar caro!

A proposta de fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho ganhou um apelo quase automático: “vai melhorar a vida do trabalhador”. E vai mesmo — em muitos casos. O problema é que, quando esse tipo de mudança entra no texto constitucional como regra geral, sem calibragem por setor e sem uma transição bem amarrada, o país costuma descobrir do jeito mais duro uma velha verdade: na economia, custo não desaparece. Ele muda de bolso. E, muitas vezes, cai no bolso de quem menos pode pagar.

Em termos simples, a escala 6×1 é a forma de organização mais comum em atividades que precisam funcionar quase todos os dias: comércio, supermercados, bares e restaurantes, hotelaria, serviços terceirizados, limpeza, vigilância, logística, parte da saúde. Funciona assim: seis dias de trabalho para um de descanso. Quando se fala em acabar com isso, na prática se busca algo mais próximo do 5×2 — dois dias de folga — e, em algumas propostas, também a redução do total de horas semanais.

Até aqui, tudo bonito na teoria. Só que a pergunta real não é “é justo?”; é “como isso funciona na vida real?”. Porque vida real tem padaria abrindo cedo, hospital com plantão, mercado lotado no fim de semana, restaurante vivendo de sábado e domingo. Se você mexe no número de dias e horas que cada funcionário pode trabalhar, mas mantém a necessidade de funcionamento do serviço, a conta aparece.

E ela aparece de três formas bem concretas.

A primeira forma é contratar mais gente para cobrir os buracos da escala. Se cada pessoa trabalha menos, mas a empresa precisa manter o mesmo horário de atendimento, alguém tem que entrar na escala. Parece simples, mas contratar não é só pagar salário. Tem encargos, treinamento, reposição quando alguém sai, gestão de turnos, custo administrativo. Em empresa grande, isso já pesa. Em micro e pequena empresa — que é a maioria no comércio e nos serviços — isso pode ser a diferença entre sobreviver e fechar.

A segunda forma é repassar o custo para o preço. E aqui entra o ponto que muita gente finge que não existe: quando o custo sobe, o preço sobe. Não por maldade, mas por matemática. Serviço é intensivo em mão de obra. Se a folha fica mais cara, o restaurante aumenta o prato, o salão aumenta o corte, o hotel aumenta a diária, a escola aumenta a mensalidade, a clínica aumenta a consulta. E quando serviços sobem, isso vira inflação do cotidiano. O trabalhador ganha “mais tempo”, mas descobre que o tempo livre ficou mais caro.

A terceira forma é reduzir horário de funcionamento. É o caminho silencioso: “não dá para manter aberto até mais tarde”, “não dá para abrir aos domingos”, “vamos fechar mais cedo em dias fracos”. Isso piora a vida do consumidor e derruba faturamento. E quando faturamento cai, emprego vira variável de ajuste. A promessa de “mais qualidade de vida” pode virar menos renda e mais instabilidade — especialmente para quem está na base.

Ou seja: o custo social não é uma abstração. Ele aparece no preço, no emprego, na informalidade ou na qualidade do serviço.

Aí vem um argumento comum: “mas a redução da jornada de trabalho aumenta produtividade”. Pode aumentar — em alguns contextos. Empresas de escritório, tecnologia e áreas administrativas conseguem cortar reuniões inúteis, automatizar tarefas repetitivas, reorganizar entregas, melhorar gestão. Há experiências, inclusive no Brasil e fora, mostrando ganhos de bem-estar e manutenção de resultados quando a mudança é planejada. Mas esse é exatamente o ponto: isso costuma funcionar melhor quando há planejamento, metas e reorganização — não quando vira obrigação padronizada para setores que dependem de presença física e atendimento contínuo.

Uma coisa é reduzir jornada em uma equipe que trabalha por projeto e entrega por resultado. Outra é reduzir jornada em um supermercado que depende de gente no caixa e na reposição. Outra ainda é impor isso a hospital, vigilância e transporte, onde a sociedade quer — com razão — serviço funcionando sempre. Nesses casos, não adianta frase pronta: se a demanda de cobertura é de 24 horas, só existem duas saídas: contratar mais ou deixar o atendimento pior.

E tem um agravante brasileiro que torna esse debate ainda mais delicado: produtividade baixa e informalidade alta. Países que flertam com semanas mais curtas, em geral, têm produtividade por trabalhador muito maior, tecnologia mais difundida e ambiente de negócios menos burocrático. No Brasil, muita empresa pequena já vive no limite, esmagada por custo fixo, imposto, aluguel, energia, juros e instabilidade. Se a lei aumenta o custo da mão de obra sem que a empresa consiga compensar com produtividade, ela faz o que é possível: corta investimento, reduz quadro, diminui serviço ou vai para a informalidade.

E quando isso acontece, quem perde é justamente o trabalhador que a medida diz proteger.

O setor público também não escapa. Se a regra alcança serviços essenciais e a sociedade exige o mesmo nível de atendimento, a consequência pode ser aumento de gasto com pessoal ou pressão sobre escalas já apertadas. Em tempos de orçamento curto, esse tipo de despesa extra não nasce do nada: vira corte em outra área, aumento de imposto ou piora de serviço em algum lugar.

Nada disso significa que o 6×1 seja “bom” ou que o trabalhador deva aceitar qualquer coisa. Significa que a forma de mudar importa. Se a intenção é civilizar o trabalho, ótimo. Mas civilizar não pode significar encarecer a vida do próprio trabalhador via inflação de serviços e risco de desemprego.

O caminho menos irresponsável seria fazer o que o Brasil raramente faz: desenhar política pública com régua, não com megafone. Isso inclui transição com monitoramento real (emprego, preços, fechamento de empresas), desenho por setor (o que vale para escritório não vale para plantão), negociação coletiva onde faça sentido, e um plano de produtividade especialmente voltado para micro e pequenas empresas — com digitalização, desburocratização e apoio à reorganização de processos.

A pergunta madura, portanto, não é “você é a favor ou contra a redução da jornada de trabalho?”. A pergunta certa é: qual é o modelo que melhora a vida sem jogar a conta no carrinho de compras e no contracheque? Do jeito que o debate está sendo vendido — como se bastasse mudar a lei e pronto — o risco é criar um benefício para uns e um custo espalhado para todos. E custo espalhado, no Brasil, quase sempre sobra para quem já vive no limite.

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Marco Antonio Costa

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