A ‘Fé Racional’ de Barroso: Análise Crítica da Entrevista que Expõe a Militância de um STF Político
Em entrevista à Mônica Bérgamo, o ministro Luís Roberto Barroso tenta construir uma imagem de humanidade e isenção, mas suas contradições sobre o STF, a anistia e o “bolsonarismo” revelam a face de um poder cada vez mais político e ideológico.
A recente entrevista do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), representa um marco na crônica da disfunção institucional brasileira. Mais do que um diálogo jornalístico, o que se assistiu foi uma calculada sessão de terapia pública, onde o magistrado buscou justificar o injustificável, humanizar o impessoal e, acima de tudo, reescrever a história recente sob uma ótica que lhe seja favorável. A performance, no entanto, falha miseravelmente ao expor as profundas contradições que hoje definem a mais alta corte do país.
As falas de Barroso, repletas de explicações insatisfatórias e um cinismo velado, não são um deslize, mas um sintoma. Revelam um Judiciário que abandonou a liturgia do cargo e a sobriedade das decisões nos autos para se tornar um ator político que disputa narrativas na arena pública, muitas vezes com uma agenda ideológica clara e inabalável. A análise de suas declarações é um exercício essencial para compreender o atual estado de exceção que se normalizou no Brasil.
O Teatro da Humanidade e a “Fé Racional”
O início da entrevista é marcado por um esforço de Barroso para se apresentar como um ser humano em conflito, ponderando sobre seu futuro no STF. A menção a um antigo projeto de vida com sua falecida esposa serve como um artifício para gerar empatia, uma tentativa de descer do Olimpo e se conectar com os “sentimentos que pertencem às pessoas comuns”, como bem apontado pelo analista Fred Rodrigues.
Contudo, essa construção de vulnerabilidade desmorona quando o ministro invoca uma “fé racional”, um conceito tão vago quanto conveniente, para justificar suas ações.
Eu tenho uma filosofia de vida que é um pouco a minha fé racional. Eu só faço o que é certo e, na maior extensão possível, eu procuro viver a minha vida com muita autenticidade. E, portanto, eu tenho uma fé de que o universo protege as pessoas que se movem com bons propósitos.
Essa “fé” parece ser o alicerce moral para decisões que, para muitos juristas e cidadãos, atropelaram a Constituição. É um discurso que tenta transformar militância em propósito divino, uma tática perigosa que busca blindar o poder de qualquer escrutínio racional.
Anistia: A Inaceitável Negociação de Bastidores
Quando questionado sobre a anistia para os presos do 8 de janeiro, Barroso revela o núcleo do problema: a fusão entre os papéis de julgador e legislador. Embora afirme que a anistia é uma “competência política do Congresso”, ele rapidamente impõe suas próprias condições, adiantando seu voto e posicionamento de forma ilegal, como destacou a analista Carol Spunza.
É inaceitável você cogitar uma anistia antes, durante ou imediatamente após o julgamento. […] Redução de penas não é uma anistia maquiada, não, mas redução de pena é diferente de anistia.
A declaração é um recado direto ao Legislativo e expõe uma negociação de bastidores. O STF, que deveria ser o guardião final da lei, está ativamente costurando uma solução política que lhe seja conveniente, determinando o que pode ou não ser perdoado, transformando a separação de poderes em letra morta.
A Inversão da Realidade: Quem é o Verdadeiro Extremista?
Talvez o ponto mais grave da entrevista seja a tentativa de Barroso de definir o conservadorismo como um movimento capturado pelo “extremismo”. Segundo o ministro, o extremista é “disruptivo” e “contra as instituições”. A análise do vereador Adrilles Jorge sobre este ponto é cirúrgica: quem se tornou extremista no Brasil foi o próprio STF.
O que foi para o extremismo foi o Supremo Tribunal Federal. Quando o Supremo Tribunal Federal cria leis que não existem, cria crimes que não existem, distorce a Constituição. […] Quando o Supremo Tribunal Federal se torna um órgão de extrema-esquerda que persegue a direita no país, […] quem se tornou órgão extremista é o Supremo.
A fala de Adrilles desmascara a falácia. Ao romper com a tradição jurídica, ao criar tipos penais por analogia e ao perseguir dissidentes políticos, a Corte agiu de forma disruptiva e contra a principal instituição do Estado de Direito: a Constituição Federal. A narrativa de Barroso é uma clássica projeção: acusa-se o outro daquilo que se pratica.
“Derrotamos o Bolsonarismo”: A Frase Infeliz e a Desculpa Insatisfatória
A tentativa de Barroso de contextualizar sua infame frase “Nós derrotamos o bolsonarismo”, dita em um congresso da UNE, é patética. Ele culpa o barulho de manifestantes trotskistas por tê-lo forçado a “gritar”, e alega que o “nós” se referia à “sociedade brasileira”.
A explicação não se sustenta. O arrependimento do ministro não parece ser pela impropriedade da declaração – um juiz da Suprema Corte não “derrota” correntes políticas em uma democracia –, mas pelo fato de que a afirmação se provou factualmente incorreta. O movimento político que ele declarou como derrotado demonstrou resiliência e força, tornando sua frase não apenas antidemocrática, mas também presunçosa e equivocada.
Admiração por Lula e a “Dor no Coração”
Para coroar o espetáculo de contradições, Barroso tece elogios à “autenticidade” e “capacidade de convencimento” do presidente Lula, a quem afirma ter admiração. Ao mesmo tempo, justifica ter votado pela sua prisão em 2018 como uma decisão técnica, tomada com “dor no coração”, para aplicar a jurisprudência da época.
A justificativa é frágil e ignora que Lula foi condenado em três instâncias por dezenas de juízes. A “dor no coração” soa como uma tentativa de conciliar sua imagem de magistrado técnico com sua evidente simpatia política, uma dualidade que resume a crise de credibilidade do STF.
Pontos-Chave da Análise
- Performance de Humanização: O ministro tenta usar elementos pessoais para criar uma imagem de vulnerabilidade e justificar suas ações como fruto de “bons propósitos”.
- Contradição sobre a Anistia: Afirma ser papel do Congresso, mas dita as regras e antecipa seu posicionamento, interferindo diretamente no processo legislativo.
- Inversão Acusatória: Define como “extremista” o pensamento conservador, enquanto ignora que as ações mais disruptivas contra a ordem constitucional partiram do próprio STF.
- Justificativa Frágil: A desculpa para a frase “Derrotamos o Bolsonarismo” é inverossímil e não aborda a gravidade de um juiz se colocar como adversário de uma força política.
- Simpatia Política Explícita: A admiração declarada por Lula, combinada com a justificativa da “dor no coração”, escancara o viés político que contamina suas decisões.
Conclusão
A entrevista de Luís Roberto Barroso não foi um ato de transparência, mas um exercício de controle de danos e manipulação de narrativa. Ao invés de acalmar as tensões, suas palavras apenas reforçaram a percepção de que o Supremo Tribunal Federal se converteu em um poder político-partidário, onde a “fé racional” de seus membros se sobrepõe à letra fria da Constituição. A sinceridade forçada do ministro apenas serviu para desnudar a alma de uma instituição que perdeu sua principal virtude: a imparcialidade.
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