Fim da escala 6×1:Quando a escala não fecha no caixa, fecha na porta

  • A CNC alerta que o fim da escala 6×1 pode pressionar custos no comércio e serviços, com risco de repasse a preços.
  • Na ponta, o trabalhador tende a sentir primeiro: emprego mais instável, informalidade e queda de renda.
  • Em setores que operam todos os dias, a “conta” pode virar corte de vagas, mais rotatividade e automação.
  • Mesmo onde houver redução de jornada, pode haver perda de horas, mudança de contratos e “bicos” para fechar o mês.

Tempo de leitura estimado: 6–8 minutos

Nesta matéria


O gancho da CNC e a conta que não some

O debate sobre o fim da escala 6×1 costuma ser vendido como uma correção histórica. Mas, quando uma mudança desse tamanho entra no radar, uma pergunta aparece antes de qualquer slogan: quem paga a conta?

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) resolveu colocar números no centro da discussão e avisou que mexer na escala e reduzir a jornada semanal, sem perda salarial, pode encarecer a operação de setores que funcionam em fluxo contínuo — do varejo à alimentação, do turismo à logística de última milha. O alerta não é “teórico”: a entidade fala em custo adicional bilionário, pressão sobre margens e risco de repasse a preços.

Em qualquer economia real, quando o custo sobe e a receita não acompanha, o ajuste acontece. E quase nunca é “harmonioso”. O ajuste costuma ser feito onde dói menos para a empresa — e, por consequência, onde dói mais para quem trabalha.

Por que o risco cai no trabalhador

O ponto que raramente é dito com clareza é simples: o trabalhador é o elo menos protegido quando o custo de operação aumenta. Não por falta de direitos na lei, mas porque o mercado encontra atalhos: troca de contratos, redução de horas pagas, terceirização, informalidade, demissão e recontratação com salário menor.

fim da escala 6x1 traz desemprego

O alerta da CNC aponta que a mudança pode pressionar emprego e preços — e esses dois vetores atingem o trabalhador em dose dupla: primeiro no contracheque (ou na perda do emprego) e depois no supermercado, na farmácia, no transporte, no aluguel.

Os três prejuízos mais prováveis

1) Desemprego, rotatividade e congelamento de contratações

Se a jornada cai e o salário permanece, o custo por hora trabalhada sobe. Para uma parte das empresas, a saída será contratar mais gente. Para outra parte — especialmente as que já operam no limite — o caminho tende a ser o oposto: reduzir quadro, cortar turnos, fechar horários menos rentáveis e congelar admissões.

O resultado possível é um mercado mais instável, com mais rotatividade e menos previsibilidade. E isso atinge principalmente quem está no começo da carreira, quem depende de comissões e quem trabalha em funções que são “facilmente substituíveis” do ponto de vista operacional.

2) Custo de vida mais alto (e o salário que encolhe)

Quando as empresas repassam custo para preço, o trabalhador perde de um jeito silencioso: o salário compra menos. A CNC menciona cenários em que o repasse pode ser relevante no varejo e em serviços. Em termos práticos, isso significa que a suposta melhora de qualidade de vida vira uma conta parcelada no cartão — e, em muitos casos, inadimplência.

Se a proposta mira mais tempo de descanso, mas o preço do básico sobe, a vida melhora no calendário e piora no carrinho.

3) Informalidade e “bicos” para fechar o mês

Há um risco óbvio e pouco romântico: menos horas formais podem virar mais horas informais. O trabalhador folga no papel, mas trabalha no aplicativo. Ou é empurrado para “diarista fixo”, “freela recorrente”, “MEI obrigatório” e outras formas de contratação que transferem risco e custo para quem tem menos margem para absorver.

Quando o mercado não repassa, ele corta

Nem toda empresa consegue aumentar preço. Em mercados muito competitivos — e o Brasil está cheio deles — o repasse encontra limite. E quando o preço não sobe, o ajuste costuma acontecer por dentro:

  • corte de horas e escalas mais enxutas;
  • redução de benefícios indiretos (a “economia” aparece onde dá);
  • piora de condições na linha de frente (menos gente para a mesma demanda);
  • automação e substituição gradual de funções.

Em outras palavras: o emprego pode até continuar existindo, mas com mais pressão e menos qualidade — e isso também é perda.

O que pode acontecer amanhã

O cenário mais imediato, se a mudança for rápida e generalizada, é menos “reorganização bonita” e mais apagão de escala. Em muitos estabelecimentos, não existe espaço físico, caixa para giro, estoque ou demanda suficiente para simplesmente “contratar mais” e cobrir o buraco de horas que some da semana. O resultado prático pode ser uma sequência de decisões duras: reduzir horário de funcionamento (e cortar turnos), fechar aos domingos ou em dias de menor movimento, eliminar atendimento em horários estendidos, interromper entregas em certas faixas e, nos casos mais frágeis, encerrar a operação.

Na prática, isso pode se parecer com situações bem concretas:

  • Quiosque em shopping com dois funcionários: se a escala não fecha e a loja não consegue contratar (ou não cabe mais gente no ponto), a solução pode ser fechar mais cedo — até o faturamento cair e o quiosque desistir do ponto.
  • Restaurante pequeno que vive de almoço e jantar: sem equipe para dois turnos e com custo maior, pode cortar um dos turnos (ex.: só almoço), demitir e operar com cardápio reduzido.
  • Mercadinho de bairro com movimento forte no fim do dia e no domingo: pode fechar aos domingos ou reduzir o expediente noturno — e o trabalhador perde horas (e, às vezes, o emprego).
  • Farmácia que precisa de cobertura estendida: pode encurtar horários, concentrar atendimento e empurrar parte da demanda para grandes redes — o que, no médio prazo, tira fôlego do pequeno.
  • Salão de beleza/serviço com agenda apertada: menos horas disponíveis vira menos atendimentos; se não dá para contratar, a conta fecha com menos renda e mais pressão sobre quem fica.

É nesse “amanhã” — feito de planilha, aluguel, condomínio, meta de faturamento e custo trabalhista — que uma boa intenção pode escorregar para um cenário em que o trabalhador não ganha qualidade de vida, mas sim perde renda e estabilidade. No fim, a folga vira porta fechada.

Informalidade como válvula de escape (e armadilha)

O Brasil já convive com informalidade alta em vários segmentos. Qualquer mudança que encareça a contratação formal, sem uma transição cuidadosamente desenhada, tende a estimular a velha saída: contratar por fora, terceirizar ao máximo, “pejotizar” funções e expandir o trabalho intermitente na prática (ainda que não no nome).

Para o trabalhador, isso significa:

  • menos proteção em caso de doença ou acidente;
  • menos previsibilidade de renda;
  • mais dificuldade para planejar (do aluguel ao mercado);
  • aposentadoria mais distante (ou mais frágil);
  • maior dependência de crédito caro.

O fim da escala 6×1 fora do varejo: o efeito espalha

Mesmo que o debate pareça “do comércio”, ele não para ali. Se o fim da escala 6×1 for empurrado como padrão, a consequência pode vazar para:

  • saúde (plantões e cobertura de equipes);
  • segurança e vigilância (postos 24/7);
  • logística (entregas, centros de distribuição, transportes);
  • alimentação (restaurantes e delivery);
  • turismo e hotelaria (alta temporada e fins de semana);
  • serviços essenciais que não “fecham” no sábado.

Em todos esses lugares, a pergunta é a mesma: se a escala muda, o custo sobe. Se o custo sobe, o sistema se ajusta. E o ajuste costuma ser assimétrico.

Negociação coletiva ou imposição: o que muda na prática

A CNC insiste que mudanças deveriam ocorrer via negociação coletiva. Há um motivo pragmático nisso: negociação permite calibrar setor a setor, cidade a cidade, porte a porte. E o que funciona em um grande varejista pode quebrar um pequeno comércio de bairro — que emprega gente do bairro. Tais debates deveriam ser melhor abordados, segundo a CNC, principalmente no congresso. Porém, na prática,  tais pontos o próprio congresso sequer tem noção do impacto que o fim da escala irá gerar, conforme relatado pelo órgão em reportagem à CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fim-da-escala-6×1-congresso-nao-tem-ideia-do-impacto-economico-diz-cnc/.

Quando a mudança vem “reta” e igual para todos, o mercado responde com um cardápio conhecido: cortar onde for possível. E, quase sempre, é o trabalhador que perde primeiro: seja por demissão, seja por piora do contrato, seja por migração para formas mais precárias.

Conclusão: a mudança pode sair cara para quem vive de salário

Não dá para tratar o fim da escala 6×1 como um botão mágico de bem-estar. Uma mudança ampla, sem transição e sem modelagem por setor, tem potencial de produzir exatamente o contrário do que promete: mais insegurança para quem vive de salário e menos proteção para quem já está no limite.

Se a discussão é, de fato, sobre qualidade de vida do trabalhador, o mínimo é não ignorar o efeito colateral mais perigoso: o trabalhador pode pagar a conta com desemprego, informalidade e custo de vida mais alto.


Fontes e referências

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Marco Antonio Costa

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