Banco Master e Jéssica Vitória: A Indústria da Manipulação Digital

Foto feita em 19/11/2025 - Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Destaques

  • Denúncias apontam tentativa de compra de opiniões por agentes ligados ao Banco Master, com contratos e ofertas milionárias a parlamentares e influenciadores.
  • Agências e hubs de fofoca, como a estrutura associada à Mind, atuam de forma profissionalizada na roteirização e coordenação de campanhas e linchamentos digitais.
  • O caso de Jéssica Vitória evidencia o impacto humano extremo dessas práticas: fake news e ataques coordenados que culminaram em suicídio.
  • Discussões sobre o PL 2630/2020 (o “PL das Fake News”) colocam em tensão regulação, pluralidade do debate e concentração de poder midiático.

 

 

Introdução

Nas últimas semanas, vieram a público denúncias contundentes sobre a tentativa de compra de opiniões por meio do engajamento digital, envolvendo o caso Banco Master, influenciadores, agentes públicos e campanhas orquestradas. Paralelamente, casos trágicos como o de Jéssica Vitória, jovem que cometeu suicídio após ser massacrada por milícias digitais, escancaram o lado mais sombrio do mercado da influência online. Este artigo parte da análise direta das transcrições e metadados completos de três vídeos fundamentais, compondo um panorama amplo, documentado e crítico do impacto dessas práticas sobre a democracia, a reputação institucional e a vida das pessoas.

1. O CASO BANCO MASTER: QUANDO INFLUÊNCIAS SÃO TENTADAS A VENDER OPINIÃO

A Abordagem “Milionária” aos Parlamentares e Influenciadores

Em dezembro de 2025, o vereador e influenciador Roni Gabriel (PL/RS), com cerca de 1,7 milhão de seguidores, revelou ter sido procurado por uma empresa supostamente ligada à defesa do Banco Master. A proposta era clara: assinar um contrato de confidencialidade com multa de R$ 800 mil e, em troca, utilizar suas redes sociais para atacar a decisão do Banco Central pela liquidação do banco. O acordo orientava a criação de conteúdos que reforçassem a tese de que o Master teria sido vítima de uma ação apressada das autoridades financeiras, além de reproduzir roteiros já prontos de outros influenciadores.

“Se eu sou parlamentar, se oferecem dinheiro pra comprar minhas opiniões, nós estamos tratando de corrupção ativa.”

Vereador Roni Gabriel (Leia a fonte original)

Na conversa, o intermediário ofereceu viagens para São Paulo e valores “milionários” caso o vereador aceitasse o papel de disseminador. Além disso, outros influenciadores também recusaram propostas semelhantes, porém muitos aceitaram — segundo apuração da imprensa, pelo menos 46 perfis atacaram o Banco Central em rede, utilizando discursos padronizados para gerar pressão política, econômica e reputacional.

Vídeo com nova denúncia sobre a tentativa de influenciar parlamentares e influenciadores: Leia a fonte original.

Linha do Tempo e Articulação Política

    • 3 de setembro de 2025: Banco Central nega operação para o BRB comprar o Banco Master;
    • 18 de novembro de 2025: Banco Central decreta a liquidação do Master;
    • Fim de dezembro de 2025: TCU ganha destaque ao questionar a velocidade da decisão do BC, e explodem campanhas organizadas nas redes;
    • 29 e 30 de dezembro de 2025: Vereador é efetivamente contactado para aderir à campanha.

Estes episódios confirmam a tentativa de construção de narrativa para reverter decisões técnicas — recorrendo à manipulação via influenciadores digitais a soldo, inclusive entre agentes públicos.

2. A ENGENHARIA POR TRÁS DAS CAMPANHAS DIGITAIS: AGÊNCIAS, FOFOCA E NEGÓCIOS

A manipulação não é espontânea. Como denuncia investigação do canal do Youtube “Daniel Penin”, publicado em janeiro de 2024, existe uma verdadeira indústria — agências como a Mind comandam centenas de influenciadores e dezenas de páginas de fofoca integradas em projetos como a chamada “banca digital”. Estas estruturas são responsáveis desde a roteirização, produção, postagem, até mesmo pela análise dos resultados e gerenciamento de crises, como no caso do linchamento que levou Jéssica Vitória ao suicídio.

“A maior dessas páginas, a Choquei, chegou ao ponto de ignorar apelos da mãe de Jéssica, que pedia publicamente para cessarem o linchamento. No dia seguinte, a jovem tirou a própria vida.”

Leia a fonte original

Trata-se de um modelo em que grandes marcas, bancos e até órgãos públicos investem somas vultosas nessas agências. Segundo matéria da CNN Brasil, o governo Lula anunciou no segundo semestre de 2023 que pretendia investir mais de R$ 150 milhões em publicidade digital, por meio de uma licitação da Secretaria de Comunicação (Secom) para contratar empresas que gerissem e impulsionassem conteúdos das contas oficiais do governo nas redes sociais e na internet. Em julho de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu a licitação promovida pela Secom (que chegou a ultrapassar R$ 197 milhões no edital) por suspeita de irregularidades no processo, incluindo indícios de violação do sigilo da concorrência.
Embora o edital tenha sido suspenso pelo Tribunal de Contas da União (TCU), em 2025, o governo federal de fato gastou valores elevados com publicidade digital, chegando a cerca de R$ 129 milhões em anúncios na internet apenas naquele ano — uma marca recorde e bem próxima da cifra anunciada no edital de 2023. Somando os três primeiros anos, o governo Lula totaliza mais de R$ 219 milhões em anuncios online, segundo matéria da Gazeta do Povo.

 

Referência sobre o edital de 2023: Leia a fonte original

Referência sobre suspensão do edital: Leia a fonte original

Referência sobre o crescimento dos contratos: Leia a fonte original

3. O CASO JÉSSICA VITÓRIA: A VIDA COMO MOEDA NA GUERRA DAS NARRATIVAS

Da Fake News ao Suicídio

O caso Jéssica Vitória expõe o lado mais perverso do ecossistema da influência: em dezembro de 2023, após a publicação de uma fake news envolvendo suposta conversa com Whindersson Nunes, mais de 30 páginas de fofoca promoveram ataques coordenados. Nomes como Choquei, Alfinetey, Fofoquei e outras, todas ligadas ao “hub” Mind, replicaram o conteúdo para mais de 60 milhões de seguidores, incentivando o linchamento virtual, mesmo diante dos apelos públicos da família.

A engrenagem — pesquisa, produção de conteúdo e ação orquestrada — é a marca das grandes campanhas de reputação atuais. O sofrimento real e a morte de Jéssica são consequências trágicas dessa lógica.

“A Mind, maior agência do país, teve de remover de seu site as páginas de fofoca envolvidas após o escândalo, mas mentiu em nota ao afirmar que só ‘intermedia publicidade’.”

Leia a fonte original

4. O ESTADO, AS PLATAFORMAS E O DEBATE SOBRE A REGULAÇÃO

Ao lado das campanhas privadas, cresce o papel de verbas estatais nessas máquinas de influência. O impulso à discussão sobre o PL das Fake News (PL 2630/2020) responderia, supostamente, a tragédias como a de Jéssica. Mas sua tentativa de aprovação levantava alertas: o texto poderia fortalecer ainda mais os grandes conglomerados, premiando quem já comanda a pauta e ameaçando a pluralidade do debate — inclusive com riscos à própria liberdade de expressão. o PL 2630/2020 foi aprovado no Senado em 2020, passou pela Câmara dos Deputados e não chegou a ser votado em plenário, e sua tramitação acabou encerada sem virar lei devido à falta de consenso político, debates intensos e pressões externas no Congresso.

Tramitação e detalhes do projeto: Leia a fonte original.

5. CONCLUSÕES, ALERTAS E O CAMINHO DA TRANSPARÊNCIA

Os episódios aqui relatados demonstram que a manipulação da opinião pública no Brasil é sustentada por acordos escusos, contratos milionários e uma estrutura profissionalizada envolvendo agentes políticos, privados e o próprio Estado. Se parlamentares são procurados para “vender” posição; se fake news são capazes de produzir tragédias reais; se agências decidem quem será a estrela ou o alvo do momento — a democracia perde seu oxigênio.

O que está em disputa, mais do que a regulação, é a transparência radical: saber quem paga a narrativa, quem produz e lucra, e como responsabilizar os agentes centrais quando vidas e instituições são diretamente afetadas.

PARTICIPE

Qual é a sua opinião sobre as redes profissionais de influência, os contratos públicos e privados alimentando campanhas e o papel do Estado nessa engrenagem? Você concorda com mais regulação? Comente, compartilhe e ajude a fortalecer a discussão pública.

Fontes e Referências

    1. Tentaram comprar a opinião de um parlamentar, diz vereador procurado para defender Banco Master – YouTube
      Metadados: Publicado em 09/01/2026 | Vereador Roni Gabriel relata abordagem para defender banco em liquidação.
    2. Bomba: Empresa oferece fortuna para influenciadores defenderem Banco Master e atacarem o BC – YouTube
      Metadados: Publicado em 07/01/2026 | Nova denúncia sobre tentativa de influenciar parlamentares e influenciadores.
    3. CHOQUEI – Lacrando Vidas – YouTube
      Metadados: Publicado em 01/01/2024 | Exposição detalhada da engrenagem do linchamento digital no caso Jéssica Vitória.
    4. Governo prevê licitação de R$ 150 milhões para atender redes sociais oficiais. – CNN Basil
    5. Governo prepara novo edital milionário para melhorar comunicação. – CNN Brasil
    6. Governo Lula dispara gastos com anúncios na internet e bate recorde de R$ 130 milhões em 2025. – Gazeta do Povo
    7. PL 2630/2020 (“PL das Fake News”) – Câmara
    8. Foto feita em 19/11/2025 – Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Perguntas Frequentes

P: O que caracteriza uma campanha de influência paga e coordenada?
R: Quando existe roteirização, pagamento ou contrato com cláusulas de confidencialidade, distribuição de conteúdo padronizado por múltiplos perfis e gerenciamento centralizado por agências, trata-se de uma campanha orquestrada.
P: O que a legislação atual prevê sobre esse tipo de prática?
R: Existem normas sobre publicidade e responsabilidade civil, além de proposições legislativas como o PL 2630/2020 que buscam regular desinformação e plataformas digitais. A preocupação é que regras mal desenhadas possam concentrar ainda mais poder em grandes atores.
P: Como cidadãos podem ajudar a mitigar esses problemas?
R: Exigir transparência sobre patrocínios e contratos, checar fontes antes de compartilhar, apoiar iniciativas de responsabilização e pressionar por políticas públicas que protejam tanto a liberdade de expressão quanto a pluralidade informativa.

 

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