- Wittgenstein oferece ferramentas para entender como palavras atuam como ferramentas — não apenas descrições — no debate público brasileiro.
- Diferença entre fatos verificáveis e enunciados que funcionam como marcadores de pertença ajuda a ler desinformação e polarização.
- Jogos de linguagem explicam por que termos como “corrupção”, “liberdade” e “democracia” mudam de sentido conforme contexto.
- A mistura de jogos (religioso, jurídico e midiático) gera ruídos que afetam legitimidade, governabilidade e previsibilidade econômica.
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Quem foi Ludwig Wittgenstein? Biografia essencial do filósofo e suas duas fases
Ludwig Wittgenstein (1889–1951) nasceu em Viena, em 26 de abril de 1889, em uma família da alta burguesia industrial. Estudou engenharia em Berlim e Manchester e trabalhou em temas ligados à aeronáutica antes de migrar para a filosofia; foi aluno de Bertrand Russell em Cambridge (1911–1913). Sua vida e obra são frequentemente apresentadas como divididas em duas fases principais: o “primeiro Wittgenstein”, ligado ao Tractatus Logico-Philosophicus, e o “segundo Wittgenstein”, associado às Investigações Filosóficas e à virada para a linguagem ordinária.
Após publicar o Tractatus, afastou‑se da academia para trabalhos diversos (professor primário, jardineiro, assistente de arquitetura) e renunciou à herança; retornou a Cambridge em 1929, revisando posições anteriores e desenvolvendo a noção de jogos de linguagem. Tornou‑se cidadão britânico, lecionou em Cambridge e faleceu em 29 de abril de 1951, de câncer de próstata.
O “primeiro Wittgenstein”: guerra, lógica e o Tractatus
Durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto servia no exército austro‑húngaro, Wittgenstein redigiu o Tractatus Logico‑Philosophicus. A obra busca mostrar a estrutura lógica da linguagem e do mundo, delimitando o que pode ser dito com sentido e o que só pode ser mostrado — especialmente no terreno da ética e da estética. Para essa fase, a realidade é tratada como totalidade de fatos, e proposições significativas funcionam como “imagens lógicas” desses fatos.
O “segundo Wittgenstein”: jogos de linguagem e a primazia do uso
No retorno a Cambridge, Wittgenstein reconheceu erros do primeiro período e passou a defender que o significado é determinado pelo uso das palavras em práticas sociais. Introduziu a ideia de jogos de linguagem e de formas de vida: expressões funcionam como ferramentas dentro de atividades sociais com regras diversas. Rejeitou a ideia de uma linguagem estritamente privada e ressaltou a importância de critérios públicos para correção e entendimento.
“A realidade é composta de fatos, não de ‘coisas’.”
Ideias centrais de Wittgenstein: por que linguagem é poder (e também limite)
A filosofia de Wittgenstein enfatiza a função clarificadora da filosofia: em vez de construir teorias sobre o mundo, a tarefa é esclarecer como usamos palavras e desfazer confusões conceituais. Alguns conceitos centrais úteis para ler o debate público são:
- Fatos e proposições (primeira fase): proposições significativas correspondem a fatos que podem ser verdadeiros ou falsos.
- Limites do dizer: distinção entre o que pode ser claramente dito e o que apenas pode ser mostrado.
- Significado é uso (segunda fase): palavras são ferramentas cujo sentido se define no uso.
- Jogos de linguagem e formas de vida: existem múltiplos jogos (jurídico, religioso, midiático etc.) com regras próprias.
- Crítica à linguagem privada: entendimento depende de critérios públicos e compartilhados.
Quem foi Ludwig Wittgenstein? E qual relação de sua obra com a realidade política no Brasil de hoje? Aplicações ao debate público
Wittgenstein não formulou uma teoria política do Estado nem escreveu sobre o Brasil. Sua contribuição é interpretativa: oferecer ferramentas para analisar linguagem pública — filtros úteis para compreender desinformação, polarização, retórica populista e a colisão entre linguagem religiosa, jurídica e midiática na esfera pública.
1) Fake news e desinformação: quando uma frase parece “fato”, mas funciona como senha de grupo
A partir da distinção wittgensteiniana entre proposição verificável e uso performativo, vale perguntar: que tipo de enunciado é esse dentro do jogo em que circula? No ambiente digital, muitos enunciados têm a forma gramatical de notícia, mas funcionam como marcadores de pertencimento — convocação, provocação ou intimidação — e não como descrição verificável. Discutir apenas “verdade ou falsidade” pode ser insuficiente para reduzir o dano quando o conteúdo opera como identidade.
Do ponto de vista da governabilidade e da eficiência do gasto público, a perda de critérios comuns para distinguir fatos de slogans eleva o custo da tomada de decisão legítima e previsível.
2) Polarização e bolhas: as mesmas palavras, jogos diferentes
Termos como “liberdade”, “democracia”, “golpe” e “corrupção” circulam em jogos de linguagem distintos — jurídico, midiático, religioso, militante — e assumem funções diversas. A pergunta wittgensteiniana é: quais são as regras implícitas do jogo em que essa palavra está sendo usada? Mapear usos concretos ajuda a desviar da busca por definições finais e a entender conflitos como choques de critérios de correção e autoridade.
3) Populismo como performance: linguagem não só descreve, ela faz
Discursos políticos eficazes nem sempre são factualmente precisos porque seu objetivo é produzir efeitos — criar identidade, construir inimigos, pressionar instituições. A análise wittgensteiniana recomenda observar o que a frase está fazendo no contexto (convocar, intimidar, deslegitimar árbitros). Para a democracia e para a previsibilidade econômica, expor essas engrenagens discursivas é essencial para preservar confiança institucional.
4) Linguagem religiosa na política: quando jogos se misturam sem clarificação
A linguagem religiosa funciona como um jogo de linguagem ligado a formas de vida específicas. Problemas surgem quando expressões teológicas (por exemplo, “guerra espiritual”, “ungido de Deus”) são deslocadas para justificar decisões estatais e misturam o jogo religioso com o jogo jurídico‑político. Em regimes constitucionais, decisões públicas exigem argumentos públicos e verificáveis; sem clarificação de jogos, fé pode transformar‑se indebitamente em justificativa política.
5) Direito, STF e embates institucionais: disputa sobre sentidos e autoridade
No direito, o sentido de termos como “competência”, “prerrogativa”, “crime” e “responsabilidade” estabiliza‑se em práticas institucionais — precedentes, rituais, tradição interpretativa. Uma leitura wittgensteiniana enfatiza que muitas controvérsias constitucionais são disputas sobre quem tem autoridade para fixar o uso e quais critérios de legitimidade serão aceitos. Para o contribuinte e para a previsibilidade econômica, a estabilidade desses jogos institucionais é crucial.
6) Mídia, redes sociais e linguagem ordinária: o formato molda o debate
Formatos digitais (memes, cortes de vídeo, threads) criam incentivos e limitações para o que pode ser dito e entendido. A leitura wittgensteiniana sugere perguntar: que jogos de linguagem esses formatos favorecem? Quando o ambiente premia impacto rápido sobre explicação detalhada, a esfera pública perde densidade argumentativa e tende a operar mais por marketing e menos por prestação de contas.
7) Filosofia, educação e cidadania: clarificar não é doutrinar
Aplicar Wittgenstein à educação cívica aponta para alfabetização conceitual: ensinar a distinguir enunciados factuais de slogans, reconhecer mudanças de sentido conforme contexto e separar jogos (científico, jurídico, religioso, político). Essa abordagem não impõe valores, mas reduz ruído e espaço para manipulação — contribuindo para maior responsabilidade fiscal e racionalidade na administração pública.
Limites: Wittgenstein não é “solução pronta” para a política brasileira
É preciso reconhecer limites: Wittgenstein não desenvolveu uma teoria política sistemática nem pensou especificamente o Brasil. Sua utilidade é hermenêutica — ferramentas para analisar linguagem pública — e não prescritiva em termos de políticas concretas. As aplicações apresentadas são interpretações plausíveis, não teses originais do filósofo.
Conclusão: o Brasil precisa de menos magia verbal e mais critérios públicos
A obra de Wittgenstein não oferece receitas de governo, mas sugere uma exigência prática: entender como as palavras estão sendo usadas, em quais jogos, com quais regras e critérios de correção. A reconstrução de critérios compartilhados — o que vale como prova, argumento e decisão legítima — é crucial para preservar ordem democrática, estabilidade institucional e previsibilidade econômica.
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Perguntas Frequentes
P: Quem foi Ludwig Wittgenstein?
R: Filósofo austríaco-naturalizado britânico (1889–1951), central para a filosofia analítica; autor do Tractatus e das Investigações Filosóficas, cuja obra evoluiu da lógica rígida para a noção de jogos de linguagem.
P: Wittgenstein propõe soluções políticas diretas para o Brasil?
R: Não. Sua contribuição é conceitual e analítica: fornece ferramentas para entender o funcionamento da linguagem no espaço público, não receitas de políticas públicas.
P: Como aplicar essa leitura no dia a dia cívico?
R: Examinando o jogo de linguagem em que termos e enunciados circulam — verificabilidade, critérios de correção e autoridade — e promovendo alfabetização conceitual na educação cívica.
Fontes e Referências
- Filco — Wittgenstein: doble revolución en la filosofía
- Universidad de Navarra — Biografía
- Biografías y Vidas — Ludwig Wittgenstein
- Wikipedia (es) — Ludwig Wittgenstein
- Herder — Encyclopaedia (entrada Wittgenstein)
- Museo Virtual de la OEPM — Documentación histórica
- Philosophica — Voces: Wittgenstein
- Filosofia.net — Resumo e materiais
- Psicología y Mente — Biografía


